Demissão em direto, remodelações: Corbyn sem mão no Labour?

Líder pediu aos trabalhistas britânicos para se concentrarem menos nas lutas internas e mais nas críticas ao governo conservador

Um secretário de Estado sombra dos Negócios Estrangeiros que se demite em direto na BBC, dois membros do governo sombra afastados por "deslealdade", acusações de que o partido é liderado pelo ex-presidente da Câmara de Londres Ken Livingstone. Na última semana, o Partido Trabalhista britânico esteve em ebulição. De tal maneira que o seu líder, Jeremy Corbyn, já veio pedir a todos os militantes do Labour para se preocuparem menos com as lutas internas e mais com a guerra aos conservadores do primeiro-ministro David Cameron.

"Pedir responsabilidades ao governo é a nossa prioridade", escreveu Corbyn num artigo de opinião no Daily Mirror. E garantiu que a remodelação do governo sombra teve como objetivo garantir "uma equipa de liderança mais forte para o Labour". Para o líder trabalhista, eleito em setembro depois de uma campanha que surpreendeu todos, o partido devia centrar-se em atacar o executivo conservador no que verdadeiramente interessa: os cortes nas defesas anti-inundações; a incerteza do resultado das negociações com a União Europeia ou o apoio de Londres à Arábia Saudita apesar das dúvidas sobre o seu respeito pelos direitos humanos.

Durante a semana, Corbyn afastou os ministros sombra da Cultura, Michael Dugher, e da Europa, Pat McFadden, acusando-os de "deslealdade", depois de estes terem por várias vezes criticado as suas posições. O líder transferiu ainda Maria Eagle de ministra sombra da Defesa para a pasta da Cultura. Em resposta, os secretários de Estados dos Negócios Estrangeiros, da Defesa e dos Caminhos-de-Ferro, Stephen Doughty, Kevan Jones e Jonathan Reynolds, apresentaram a demissão. No caso de Doughty, o Partido Trabalhista apresentou queixa contra a BBC, onde este anunciou a sua intenção, antes mesmo de a ter comunicado a Corbyn. O Labour acusa a televisão pública britânica de ter "orquestrado" a demissão para ter o máximo de "impacto político".

Quem escapou às mudanças na equipa de Corbyn foi Hilary Benn, o ministro sombra dos Negócios Estrangeiros cuja saída era dada como certa depois de ter defendido que o Reino Unido participe nos ataques aéreos da coligação internacional contra o Estado Islâmico na Síria, a que o líder trabalhista se opõe veementemente. Segundo a BBC, terá sido o facto de um grande número de ministros sombra ter ameaçado demitir-se caso Benn saísse que terá levado a que mantivesse o cargo.

Depois de muita especulação e feitas as contas, Corbyn conseguiu afastar algumas das vozes críticas dentro do seu gabinete sombra, mas nem todas. Já para não falar no abismo que parece aprofundar-se entre Corbyn e alguns dos deputados mais moderados do partido.

Com as demissões vêm as críticas ainda mais duras. E Michael Dugher não perdeu tempo. Mal saiu do governo sombra, o ex-ministro sombra da Cultura garantiu ao The Times que quem "puxa os cordelinhos" no Labour é Ken Livingstone. O ex-mayor de Londres, reconhecido membro da ala mais à esquerda dos trabalhistas, tal como Corbyn, garantiu que desde a chegada deste à liderança do Labour apenas de encontraram uma vez e trocaram um telefonema. E garantiu: "Que bem Jeremy fez em demitir esta pessoa".

A perder apoio popular

Autodenominado socialista democrata, mais conhecido pela participação em ações de protesto do que pelas intervenções no Parlamento, Corbyn conquistou uns eleitores do Labour ansiosos pela mudança depois da derrota nas eleições de maio que levaram à demissão de Ed Miliband da liderança trabalhista. Mas passados quase quatro meses, esse apoio das bases parece estar a desvanecer-se. Segundo uma sondagem do YouGov citada pelo Telegraph, só 28% dos apoiantes trabalhistas inquiridos responderam que Corbyn tem tido um bom desempenho como líder. Para 60%, a sua atuação à frente dos trabalhistas tem sido má. Além disso, o mesmo estudo mostra que se as eleições fossem hoje, os conservadores continuaram a vencer, agora com 39% das intenções de votos, mais dez pontos percentuais do que os trabalhistas.

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