Demissão de Matteo Renzi congelada até aprovação do Orçamento

Líderes europeus preferem não dramatizar, mas mostram-se preocupados com a saída de cena do primeiro-ministro

Foram apenas 1017 dias. A estes somar-se-ão mais alguns depois de o presidente italiano ter pedido ao primeiro-ministro para fazer um compasso de espera. O reinado durou pouco mais do que dois anos e nove meses. Não foi muito, mas foi suficiente para o governo de Matteo Renzi ficar na História como o quarto executivo mais longo da República Italiana.

O primeiro-ministro demissionário acabou o consulado da mesma forma que o iniciou. No domingo à noite, quando estava a caminho do discurso em que concedeu a derrota no referendo, escreveu no Twitter: "Estou a chegar, estou a chegar". Ou, em italiano, "Arrivo, arrivo". Já o tinha feito em fevereiro de 2014, quando a tomada de posse aguardava ao virar da esquina.

Há muito que a promessa estava feita. Se os italianos, chamados às urnas, dissessem que não às reformas constitucionais, Renzi bateria com a porta. Assim aconteceu. E o primeiro-ministro mostrou que o prometido era devido.

Para muitos, no entanto, não foram as alterações propostas a ser referendadas, mas sim o próprio Matteo Renzi. "O resultado do referendo é claramente um voto contra ele. A forte afluência às urnas [65,5%] torna a tomada de posição ainda mais forte. Renzi percebeu isso e decidiu sair e assumir a responsabilidade política", sublinha, em declarações ao DN, Enrica Toninelli, diretora adjunta da Rainews.

O "sim" venceu em apenas três regiões de Itália (ver mapa), uma delas foi a Toscânia, cuja capital é a Florença natal de Renzi. Mas apenas entre os italianos residentes no exterior o apoio às propostas do primeiro-ministro foi verdadeiramente expressivo: 65%. Feitas as contas, o "não" venceu com 59,1%.

As reações de maior regozijo chegaram dos populistas do Movimento 5 Estrelas e da Liga do Norte. Matteo Salvini, líder do partido de extrema-direita, falou no "dia da libertação de Itália".

Matteo Renzi reuniu ontem o Conselho de Ministros e entregou o pedido de demissão ao presidente italiano. Sergio Mattarella convenceu o chefe do governo a congelar a saída até que fiquem concluídos os procedimentos para a aprovação do Orçamento do Estado para 2017, o que deverá acontecer nos próximos dias, até sexta-feira. O chefe de Estado apelou ainda aos partidos para enterrarem o rancor e criarem um clima de "respeito recíproco".

Pier Carlo Padoan, ministro das Finanças - e um dos nomes mais falados para suceder a Renzi na chefia do governo -, faltou ontem à reunião em Bruxelas com os seus homólogos europeus na qual foram discutidos os orçamentos nacionais dos países zona euro. "Concordámos que neste momento é difícil para o governo italiano comprometer-se com medidas adicionais, mas convidamos Itália a dar os passos necessários para garantir que o Orçamento cumpre os critérios", disse Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo.

Apesar da desilusão, os responsáveis europeus preferiram não dramatizar. "Não era um referendo sobre a Europa. É um assunto interno da política italiana", afirmou o francês Michel Sapin. "Itália deve continuar as políticas e as reformas que estavam a ser seguidas", sublinhou, por seu turno, Wolfgang Schäuble, ministro alemão.

Ainda assim, a demissão de Renzi é vista com apreensão pela Europa. Basta olhar para a conjuntura política. O Movimento 5 Estrelas, fundado pelo humorista Beppe Grillo, neste momento lidera as sondagens em Itália e já garantiu que, se chegar ao poder, pretende referendar a permanência do país na zona Euro, algo que poderia representar mais um golpe profundo para a União Europeia. "Encaramos os resultados com preocupação", lamentou-se Frank-Walter Steinmeier, ministro dos Negócios Estrangeiros do governo de Angela Merkel. A chanceler alemã também se mostrou desiludida: "Fico triste que o resultado do referendo italiano não tenha sido aquele que o primeiro-ministro desejava, porque sempre apoiei a sua política reformista. Mas é um desenvolvimento interno da política italiana que temos de respeitar".

Quem se mostrou radiante foi Marine Le Pen, líder da Frente Nacional. "Este "não" italiano aumenta a lista daqueles que decidiram virar às costas às absurdas políticas europeias que estão a conduzir o continente para a pobreza", disse a candidata às presidenciais francesas.

Do Reino Unido também chegaram ecos de satisfação. "Parece-me que este foi um voto mais sobre o Euro do que sobre as reformas constitucionais", frisou Nigel Farage, líder dos independentistas do UKIP. Roger Helmer, do mesmo partido, foi ainda mais longe: "Sejamos claros, Itália votou contra a UE. Dentro de pouco tempo não haverá Europa da qual o Reino Unido possa sair".

Para amanhã está marcada uma reunião da direção do Partido Democrático (PD) italiano. "Vai ser um momento interessante", acredita Toninelli, da Rainews. "A maior parte do partido ainda está com Renzi, mas ele tem contra si muitas figuras importantes, que agora se sentem mais fortes. Renzi poderá interpretar os 40% de eleitores que votaram "sim" como seus eleitores e sentir-se tentado a tentar a vingança nas próximas eleições. Com o PD ou com outro partido? Ninguém sabe", acrescenta a jornalista ao DN.

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