Delações de Odebrecht e Eike fazem Brasília voltar a tremer

Juíza Cármen Lúcia homologou ontem depoimentos de 77 executivos da construtora. À mesma hora, o milionário foragido reapareceu, disposto a falar. Foi detido em seguida

As delações premiadas de 77 executivos da construtora Odebrecht, que contêm depoimentos explosivos sobre centenas de políticos brasileiros de alto escalão, entre os quais o presidente Temer, foram ontem homologadas pela juíza Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que tomou o lugar de Teori Zavascki, magistrado falecido há duas semanas num acidente de avião. No mesmo dia, o ex-multimilionário Eike Batista, foragido desde a semana passada, voltou ao Brasil, foi preso e mostrou-se disposto a colaborar com as autoridades. Brasília volta a tremer com a Operação Lava-Jato.

Era manhã quando Eike desembarcou no Rio de Janeiro, proveniente de Nova Iorque, onde estivera em negócios. De imediato, agentes da polícia federal prenderam-no, no âmbito da Operação Eficiência, desdobramento da Lava-Jato que investiga subornos do oitavo homem mais rico do mundo em 2012 ao então governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, preso desde novembro. Antes do embarque nos EUA, Eike disse "voltar para cumprir com o seu dever" porque "este é o momento de passar as coisas a limpo" e de "mostrar como são as coisas" em rápida entrevista à TV Globo.

As palavras do controverso empresário de 60 anos indicam vontade de assinar acordo de delação com os investigadores da Lava-Jato, uma hipótese avançada nos dias anteriores na imprensa brasileira. Com relações privilegiadas com todos os partidos - de quem era generoso doador de campanha - e símbolo do crescimento da economia do país na gestão de Lula da Silva, a delação de Eike é considerada potencialmente explosiva.

Tão explosiva como a dos 77 executivos da Odebrecht, a construtora mais envolvida no escândalo em torno da petrolífera estatal Petrobras, ontem homologada pela presidente do STF e entregue à Procuradoria-Geral da República. O temor da sociedade brasileira de que a morte de Teori Zavascki, juiz que tinha a seu cargo o processo e que morreu em desastre de avião há duas semanas, comprometeria ou, pelo menos, atrasaria a Lava-Jato não se confirmou. Cármen Lúcia juntou-se aos juízes auxiliares de Zavascki que trabalharam durante todo o mês e meio de férias judiciais - dezembro e janeiro - e conseguiu manter o objetivo estabelecido pelo colega falecido de ter todo o material ratificado antes de fevereiro.

A ação rápida de Cármen Lúcia, aplaudida nas redes sociais e na imprensa, preocupou integrantes do governo. Segundo reportagem do jornal Folha de S. Paulo, para o Palácio do Planalto a pressa da juíza é mais um sinal de que ela visa ter intervenção política, opinião defendida desde a sua mediática ação durante a crise nas penitenciárias e no seu chumbo a propostas do ministro das Finanças a propósito da crise financeira do estado do Rio de Janeiro, temas que marcaram o início do ano.

Registe-se que nos primeiros trechos da delação da Odebrecht divulgados à imprensa, baseados no depoimento do ex-executivo Cláudio Melo Filho, o próprio Temer (PMDB) foi mencionado 43 vezes como destinatário de verbas ilícitas pagas pela empresa. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, e o ministro dos negócios estrangeiros, José Serra, ambos presidenciáveis do PSDB, também foram citados como beneficiários do esquema de corrupção. Há ainda a expectativa de que o ex-presidente da empreiteira Marcelo Odebrecht nomeie os ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, do PT.

Os acordos de delação premiada, a que os quadros da Odebrecht aderiram e que Eike dá ideia de poder vir a assinar, têm sido um dos pilares da Lava-Jato, por iniciativa do coordenador da operação, o juiz Sergio Moro. Além dos benefícios para a investigação, o método é útil para os delatores: os primeiros a delatar, o intermediário Alberto Yousseff e o diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, reduziram as suas penas de 40 anos em prisão efetiva para apenas dois de prisão domiciliar.

* EM SÃO PAULO

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