Debate de ataques não trava sangria de apoios republicanos a Trump

Hillary Clinton acusou o adversário de não respeitar as mulheres, ele respondeu com ataques ao marido, disse que ela era o "diabo" e que se dependesse dele, estaria "presa". Paul Ryan anunciou que não fará campanha pelo milionário

A desculpa de que a linguagem machista do vídeo de 2005 era "conversa de balneário" ou a ameaça de que, se estivesse na Casa Branca, a democrata Hillary Clinton estaria "presa" por causa do escândalo dos emails privados, não ajudaram Donald Trump a travar a sangria de apoios republicanos. Mas os ataques do segundo debate entre os candidatos presidenciais são uma amostra do que poderá ser o último mês de campanha nos EUA.

Ontem, o líder da Câmara dos Representantes, Paul Ryan, revelou que não fará campanha nem defenderá o milionário, concentrando-se em tentar manter a maioria republicana no Congresso. A 8 de novembro, além do presidente, os eleitores renovam um terço do Senado e elegem a totalidade da Câmara dos Representantes. Com receio de perderem votos, pelo menos 10 senadores e 11 congressistas (além de dois governadores), retiraram o seu apoio a Trump no fim de semana.

A probabilidade de o candidato republicano vencer as presidenciais está a cair há várias semanas e as projeções da Reuters/Ipsos, ontem conhecidas, não refletem ainda a polémica com o vídeo nem o debate. A 15 de setembro, a hipótese de Hillary ganhar era de 60%. A 7 de outubro já era 95%. Já a sondagem NBC-Wall Street Journal, feita depois da divulgação do vídeo, coloca a democrata com uma vantagem de dois dígitos sobre o republicano - 46% contra 35%, uma diferença de onze pontos percentuais. Há um mês era de apenas seis pontos.

Vencedores do debate

Na hora de apontar vencedores do debate em St. Louis, no Missouri, a maioria dos analistas pende a favor de Hillary, apesar de admitirem que Trump recuperou terreno. "Clinton entrou no debate num momento em crescendo na corrida - muito por causa dos tropeções de Trump - e não cometeu nenhum erro flagrante que permita ao republicano voltar à corrida", escreveu Chris Cilizza, no Washington Post. "Trump foi mais sólido e energético neste debate que no anterior (...) mas foi o seu pior inimigo", acrescentou.

"As bases republicanas vão adorar a sua performance. A sua abordagem sem papas na língua contra a Hillary é o que os conservadores sempre quiseram ver num candidato desde que Bill Clinton esteve no poder", indicou à Reuters o ex-diretor político do Partido Republicano no Iowa, Craig Robinson. O problema, acrescentou o jornalista James Oliphant, da agência de notícias, "é que Trump fez muito pouco para atrair os eleitores mais moderados nos swing states que precisa".

Em queda

Desde o primeiro debate com Hilla- ry a 27 de setembro, em Long Island, do qual saiu perdedor, Trump tem enfrentado problema atrás de problema. Primeiro, envolveu-se numa troca de palavras com a ex-miss Universo Alicia Machado, que a democrata tinha usado como exemplo, nesse primeiro duelo, do machismo do republicano. Depois, o The New York Times revelou que após declarar perdas de 916 milhões de dólares em 1995, Trump terá evitado pagar impostos federais - "claro que sim", disse neste debate, alegando que os doadores da campanha de Hillary fizeram o mesmo.

Finalmente, na sexta-feira o Washington Post divulgou o vídeo no qual Trump alega que quando se é famoso as mulheres "fazem o que nós quisermos". Ontem, Hillary acusou-o de não respeitar as mulheres, com o republicano a alegar que o que tinha dito era "conversa de balneário" - o que levou muitos atletas profissionais a atacá-lo no Twitter. Mais, procurando virar o tema contra a adversária, optou por ter em estúdio três mulheres que acusaram o ex-presidente Bill Clinton de abusos sexuais e violação (e que uma hora antes do debate tinham repetido as acusações numa conferência de imprensa). "As minhas são palavras, as dele foram ações", disse Trump em relação ao marido da candidata democrata.

Os ataques pessoais do republicano não se ficaram por aí, tendo dito que Hillary era "o diabo" e que tinha "ódio no coração". Além disso, disse que pediria ao procurador-geral para investigar o escândalo dos emails da adversária, da altura em que ela era secretária de Estado. "É de facto muito bom que alguém com o temperamento de Donald Trump não seja responsável pela lei no nosso país", declarou Clinton a certa altura. "Estarias na prisão", respondeu-lhe o republicano.

O que esperar?

O último debate será no dia 19 , em Las Vegas. Tendo em conta que o clima de confrontação tem vindo a crescer desde o primeiro debate, parece apropriado que esse duelo seja na cidade que foi palco de alguns dos mais famosos combates de boxe da história.

"Ainda há o terceiro debate, mas sem uma performance muito forte, Trump fica provavelmente à espera de uma "surpresa de outubro" ou um grande erro nas sondagens (que não é impossível, mas teria que ser muito maior do que a margem de quatro pontos pela qual as sondagens do brexit falharam)", escreveu Nate Silver, fundador e diretor do site FiveThirtyEight. "Ou, obviamente as coisas podem ficar piores para Trump. E algumas "surpresas de outubro" - como novas fugas de informação sobre impostos ou comentários embaraçosos - podem trabalhar contra ele", acrescentou.

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