De Kipling a Tintim, o pisco soma brindes e orgulha o Peru

Tendo uma cidade chamada Pisco e um testamento de 1613 que dá conta de uma herança em garrafas de pisco, é natural que o Peru reivindique como sua esta bebida que ganha agora novos fiéis, mas que Kipling ou Vargas Llosa há muito enobreceram nos seus escritos. A sommelier Cesibell Sánchez e o engenheiro Juan Carlos Palma estiveram em Lisboa para contar histórias desta bebida que em Portugal entrou sob a forma do cocktail Pisco Sour.

Terá sido um grego o primeiro produtor de pisco, conta a peruana Cesibell Sánchez. " Chamava-se Pedro Manuel El Griego, nascido em Corfu, e não sabemos quando chegou ao vice-reino do Peru, mas num testamento seu escrito e autenticado em 1613 fala das garrafas de pisco que deixava em legado", acrescenta a sommelier peruana, que usa este dado, descoberto não há muitos anos por um historiador, assim como existir um porto no Peru chamado Pisco ("pássaro" na língua quechua) que cedo foi valorizado pelos colonizadores espanhóis, para dar como encerrada a disputa pela origem desta bebida. Ora, certo, certo é que a invenção do tal grego tem ganho adeptos mundo fora, em Portugal também cada vez mais, e pode-se beber pura ou sob a forma do afamado cocktail Pisco Sour. O outro produtor sul-americano da bebida é o Chile, que também o reivindica.

Organizada em Lisboa no restaurante Segundo Muelle, e com o apoio do bar Wine&Pisco e da embaixada do Peru, uma prova de pisco no fim de semana transformou-se numa verdadeira aula sobre a história e as características da bebida que o britânico Rudyard Kipling, Nobel da Literatura em 1907, já enaltecia na sua obra From Sea to Sea, e que o escritor peruano Mario Vargas llosa, ele próprio também Nobel, tem incluído em muitos dos seus livros, caso por exemplo dos Cadernos de D. Rigoberto, como destaca Cesibell Sánchez.

Levadas as vinhas para o Novo Mundo pelos espanhóis logo no século XVI, cedo começou a produção de vinho na América Latina. "Costumamos dizer que os espanhóis trouxeram a cruz e as vinhas, pois sem vinhas não há uvas, sem uvas não há vinho, e sem vinho não há missa", conta, num tom meio de brincadeira, Juan Carlos Palma, da Universidade Agrária, em Lima, a capital do país que foi dos Incas. Ora, é do vinho que se faz o pisco, explica o engenheiro agrário, e isso literalmente. Ou seja, tal como o cognac, o pisco resulta da destilação de vinho, "uns quatro ou cinco litros para produzir-se um litro desta bebida linda, translúcida, à qual só falta repousar uns 12 meses para ser engarrafada e consumida". O repouso é feito em recipientes metálicos, nunca em barris de madeira, e por isso não há novos sabores acumulados, nem se altera a tal ausência total de cor conseguida pelo alambique.

"Realço que o pisco resulta de uma só destilação. Não há acertos, através de uma segunda destilação ou por mistura com água", diz Cesibell Sánchez, com óbvio orgulho numa bebida que até num livro de Tintim (O Templo do Sol) é referida. "O Pisco é para os peruanos como o vinho do Porto para os portugueses. É um símbolo de identidade nacional", sublinha o engenheiro Palma.

Sobre a origem do Pisco Sour, tão popular hoje como o ceviche, esse símbolo máximo da gastronomia multicultural do país independente desde 1821, os dois peritos peruanos admitem que terá sido um americano a viver no Peru que, no início do século XX, faltando-lhe whisky para o cocktail que mais apreciava, decidiu experimentar fazê-lo com pisco. Foi um sucesso.

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