De 11 para dois em busca do futuro inquilino do Eliseu

Dia de reflexão antes da primeira volta das eleições presidenciais marcado por novo susto de segurança em Paris

As urnas em França abrem hoje às 08.00 (07.00 em Lisboa), mas desde ontem que os franceses já escolhem quem será o sucessor de François Hollande no Palácio do Eliseu. E se as sondagens mostram um número ainda elevado de indecisos (quase 30%), as filas em Nova Iorque ou Montreal revelam o interesse dos emigrantes franceses em não deixar passar ao lado o que consideram um "momento importante na história de França". O dia de reflexão obrigou ao silêncio dos candidatos e ficou marcado por um susto de segurança: um homem com uma faca causou o pânico na Gare du Nord, antes de ser detido pela polícia.

O indivíduo, identificado apenas como sendo oriundo do Mali e tendo 20 anos, foi visto com uma faca na mão no interior da estação. Há relatos contraditórios do que aconteceu e se terão sido os gendarmes em patrulha ou outros viajantes a verem primeiro a cena, alertando depois as autoridades. Com a arma em riste, três guardas interpelaram o suspeito, que não ofereceu resistência. Mas o susto, por volta das 15.20, gerou um "movimento de pânico" na zona das partidas dos comboios internacionais, com vários viajantes a abandonarem a bagagem e a fugir. A gare foi temporariamente fechada, tendo reaberto às 16.00.

O incidente ocorreu menos de 48 horas depois da morte a tiro de um polícia nos Campos Elísios, que fez subir para 239 o número de vítimas do terrorismo em França desde janeiro de 2015. O ataque foi reivindicado pelo Estado Islâmico, mas o autor (que foi abatido pela polícia depois de ferir outros dois agentes) não era conhecido das autoridades policiais por terrorismo ou por radicalização.

Mas já tinha um longo cadastro: Karim Cheurfi, um francês de 39 anos, passou quase metade da vida na prisão por tentativa de homicídio de polícias e tinha sido detido em fevereiro por novas ameaças, sendo contudo libertado por falta de provas. Familiares de polícias manifestaram-se ontem em Paris, muitos em fúria por descobrir que o autor do ataque de quinta-feira à noite era reincidente. Os investigadores continuam à procura de eventuais cúmplices, mas já libertaram as três pessoas próximas de Cheurfi que tinham detido após o tiroteio.

O ataque a três dias das presidenciais não veio alterar o plano de segurança já reforçado, com 50 mil polícias e gendarmes e sete mil soldados da Operação Sentinela (antiterrorista) nas ruas. A França está em estado de emergência desde os atentados de novembro de 2015, que fizeram 130 vítimas mortais na sala de espetáculos Bataclan, no Stade de France e em várias esplanadas de Paris. A segurança acabou por dominar o último dia de campanha, com os candidatos da direita e da extrema-direita a endurecer o discurso, apelando ao reforço da luta antiterrorista.

Há 11 candidatos às presidenciais francesas, mas a corrida parece estar limitada a quatro: o favorito Emmanuel Macron, do centrista En Marche!; a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen; o ex-primeiro-ministro François Fillon, d"Os Republicanos; e Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa. O socialista Benoît Hamon vem em quinto lugar nas sondagens, mas muito longe dos adversários, havendo depois outros seis candidatos que não chegam aos cinco pontos percentuais. Os dois primeiros classificados vão à segunda volta, prevista para 7 de maio. Ontem foi dia de reflexão e por isso os candidatos estiveram fora do olhar dos media: a exceção foi Macron, que viajou para Le Touquet, onde tem casa de férias, com a mulher, Brigitte.

Voto no exterior

Os emigrantes que vivem no continente americano e os franceses dos territórios ultramarinos começaram ontem a votar, para garantir que às 20.00 de hoje em França (19.00 em Lisboa) todas as urnas estão fechadas e a contagem de votos pode começar. A maior parte fecha contudo uma hora antes, não estando previstas sondagens à boca das urnas. Os institutos de sondagem farão estimativas a partir de contagens parciais.

De quase 47 milhões de eleitores registados para votar, menos de um milhão vive fora de França. Ontem, os primeiros a votar foram os habitantes de Saint-Pierre-et-Miquelon (ilhas junto à Terra Nova), seguindo-se a Guiana Francesa. A meio da jornada eleitoral a participação era aqui de 18,9%, contra 20,6% em 2012 à mesma hora. "Cumpri um dever cidadão, mas sem convicção. Votei pelo menos mau. Estava indecisa até ontem", disse Melissa à AFP, depois de votar na ilha de Guadalupe, nas Caraíbas.

A aparente falta de interesse nos territórios ultramarinos contrasta com as longas filas de Montreal, onde há 57 mil inscritos (mais 13 mil do que há cinco anos). Na cidade canadiana, alguns eleitores esperaram até três horas numa fila de mais de quase dois quilómetros para poder votar, segundo os media franceses. A temperatura rondava os cinco graus na parte da manhã. Nas redes sociais, muitos eleitores partilharam fotos da fila, sem se conseguir ver o seu fim.

Também nas representações diplomáticas francesas nos Estados Unidos havia um grande interesse em votar: há quase 120 mil eleitores inscritos, mais 30% do que para a primeira volta das presidenciais franceses de há cinco anos. "É nosso dever cidadão continuar a votar", afirmou Adrien Gontier, à AFP, à saída da embaixada em Washington. "Além disso, estamos nos EUA, sabemos o que acontece quando não se vota ou se vota mal. Não queremos que haja um [Donald] Trump em França", acrescentou.

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