Da 'movida' ao 'blues': Vigo à procura de se reinventar

Da Galiza diz-se que "demorou mais a sentir o impacto da crise, mas também demora mais a sentir recuperação". Vigo foi especialmente afetada e perdeu peso para a "rival" do norte, Corunha. Para trás, na memória, fica uma movida fervilhante que atraía muita gente

Há 30 anos, a movida viguesa conquistou Sérgio Castro, desencantado com os caminhos do propalado boom do rock português que ele próprio tinha também cavalgado. Figura referencial de bandas como os Trabalhadores do Comércio ou os Arte e Ofício, o músico portuense deixou-se arrebatar pela irreverência de Vigo, cidade galega que nesses inícios da década de 1980 pedia meças a Madrid como o palco da mais vibrante oferta cultural noturna de toda a Espanha. Do norte de Portugal, acorriam ali todos os fins de semana centenas de adolescentes e jovens adultos em procissão pelo circuito de bares locais. E Sérgio, que passara a fazer parte dessa movida por dentro, acabou por ficar, rendido.

Hoje, mais de 30 anos depois, Sérgio Castro continua com o mesmo espírito independente com que produziu alguns dos hinos do pop-rock nacional desses anos 80, como "Chamem a Polícia" e "Taquetinho ou lebas no fucinho" - cantados com um cerrado sotaque portuense que ficou como pronúncia de marca dos Trabalhadores do Comércio. Vigo, aquela Vigo da movida vibrante e sedutora, da adolescência rebelde na transição democrática pós-Franquismo, essa secou e deu lugar a uma urbe em típica crise de meia idade.

"Vigo era muito mais adiantada do que o Porto nos anos 80. Faziam-se aqui coisas que lá ainda não se pensavam. Era muito atrativo para um tipo como eu, que achava que aquilo em Portugal era muito pequenino para mim", justifica o músico sobre a sua instalação na cidade galega em 1984. "Agora não. Agora o Porto é uma cidade muito mais interessante. Vigo parou. A única coisa que melhorou aqui foram as infraestruturas", diagnostica, à conversa com o DN numa esplanada a uns 5 minutos da Plaza de América, que alberga um monumento à emigração galega rumo ao continente americano.

Ora, a emigração voltou precisamente a ser uma realidade bastante presente nestes últimos anos em Vigo, refere o professor Juan José Santamaria Conde, presidente do Colégio de Economistas de Pontevedra, no seu escritório no segundo andar de um edifício da Calle Colón, no centro da cidade, onde ainda se concentra o frenesim comercial que em tempos também atraía magotes de portugueses em épocas festivas, com o El Corte Inglés da Gran Via como ponto referencial das romarias.

Na Galiza, naquele que os espanhóis consideram ser um microcosmos muito particular, "o impacto da crise demorou mais a fazer-se sentir. Mas a recuperação também é mais lenta", anui o economista. Vigo, pelas suas características industriais, foi especialmente vulnerável - chegou aos 27% de desemprego no pico da crise, em 2013 -, enquanto a Corunha, a rival do norte, ninho do império Inditex (casa mãe da Zara) do atual homem mais rico do mundo, o empresário Amancio Ortega, suportou melhor a recessão e ganhou peso na economia da comunidade autónoma: gera 43,61% da riqueza da Galiza, enquanto a quota de Vigo viu minguou para 18,48%, mostra um estudo da Zona Franca de Vigo e da Universidade local.

PSA, uma fábrica vital

Ora, Vigo assenta os seus pilares sobretudo em três indústrias: automóvel, pescas e construção naval. Destas, a naval foi a mais afetada, dizimada pela quase paralisação do setor, que fechou estaleiros e atirou milhares para o desemprego.

"O que sustém a economia local nesta altura é o Porto de Vigo e a PSA [fábrica da Peugeot-Citroen]", regista Conde. O Porto de Vigo é líder mundial em tráfego de peixe fresco e congelado, mesmo tendo uma das empresas mais fortes do setor pesqueiro, a Pescanova, passado por um processo de insolvência. E a fábrica da Peugeot-Citroen, que nasceu em 1958 nos Balaídos, perto do estádio do Celta, é a que emprega mais gente no concelho (mais de 5 mil pessoas) e é hoje a maior do grupo fora de França.

A 23 de novembro passado, saía da PSA de Vigo, rumo a Madrid, o primeiro carro autónomo (sem condutor) a viajar em estradas espanholas. Simbolicamente, a cidade galega serviu de palco à projeção de um futuro que até há pouco tempo conhecíamos apenas do domínio da ficção científica e a imagem de vanguarda foi destacada pelo presidente da Junta da Galiza, Alberto Feijó, como uma demonstração da vitalidade e importância do cluster automóvel local - gera mais de 18 mil empregos diretos e cerca de 40 mil indiretos, representando 14% do PIB galego.

Por estes dias, a viagem daquele C4 Picasso parece formar uma metáfora à qual quer agarrar-se uma comunidade que precisa de vislumbrar um futuro. A atribuição, em dezembro passado, da produção do novo modelo de ligeiros comerciais K9, que se fará entre Vigo e Mangualde, em Portugal, foi uma importante conquista para a região. Mas essa conquista não se conseguiu sem "retrocessos laborais", aponta Vitor Mariño, do sindicato CUT, que integra o comité de trabalhadores da empresa.

"Como moeda de troca pela concessão do K9 tivemos cortes salariais de cinco mil a 14 mil euros anuais, perdemos direitos de antiguidade e temos congelação salarial para os próximos cinco anos", desfia o sindicalista, aludindo ao novo acordo de empresa aprovado no ano passado. Mariño lembra ainda que desde 2007 a fábrica reduziu quase metade dos efetivos: "Éramos 10500, agora somos 5500. E o volume de produção já está quase ao nível de antes da crise".

Novo mapa político

Com a crise social a bater porta sim porta não, Vigo saiu às ruas várias vezes, os sindicatos organizaram manifs, gritaram-se palavras de ordem e também surgiram novos movimentos políticos. Mas, ao contrário do que aconteceu no resto da Galiza e um pouco por toda a Espanha, aqui o bipartidarismo ainda não está tão ameaçado. Talvez pela também pouco usual (no contexto autónomo e nacional) subida do PSOE local, com o alcaide socialista Abel Caballero a conseguir nas últimas municipais, em maio, a maior vitória de sempre.

Globalmente, a Galiza continua um território PP - de onde brotou o atual primeiro-ministro, Mariano Rajoy, nascido em Santiago de Compostela. Um legado que se deve muito a Fraga Iribarne, o dirigente histórico dos populares formado entre as saias protetoras do Franquismo e que esteve 15 anos à frente da Junta da Galiza (1990-2005). "Fraga fez um trabalho político brilhante de alienação dos galegos", exalta, de forma crítica, Sérgio Castro. Mas as últimas eleições municipais reservaram a pior votação de sempre na Galiza para o PP, que perdeu câmaras de grandes urbes, como as da Corunha e de Santiago de Compostela, para novos fenómenos políticos locais, como as plataformas Marea e Compostela Aberta, que juntam nacionalistas galegos com membros da Esquerda Unida e do Podemos.

"O mapa político está a mudar", reconhece o professor Santamaria Conde. "A nível da cidadania nota-se desânimo, mas também alguma rebeldia", aponta. E daqui, desta rebeldia, saem por vezes coisas positivas: a vontade de agitar, inovar, procurar novos caminhos. Em Vigo, diz o economista, "começa a haver um grande envolvimento da universidade na criação de novos setores e novas empresas, spin-offs ligadas à inovação e à tecnologia". Um exemplo é "a aposta recente na engenharia aeronáutica", com um polo de investigação instalado no campus universitário de Ourense.

A urgência de futuro

Na sua dupla nacionalidade, oficializada há um par de anos para desbloquear burocracias, Sérgio Castro assume também uma dupla faceta: "Sou uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Por um lado, o músico que paga impostos em Portugal; por outro, o empresário que paga impostos na Galiza." Em Vigo, a figura dos Trabalhadores do Comércio montou um dos melhores estúdios de gravação da Península (Planta Sónica), no fim dos 80, e dedicou-se à montagem de estúdios, produção musical e comercialização de equipamento de som.

Ora, uma dupla vida faz com que sofra duplamente as agruras da crise. "Tenho três empresas e vejo que não consigo pagar salários mais altos; o estúdio não consegue fazer dinheiro sequer para sobreviver e posso ter de o fechar...", desfia, sempre inconformado com a "ditadura dos tipos lá no centro da Europa que cagam as leis aqui para a malta".

Por isso, não espera grande coisa das eleições de domingo, apesar de tencionar ir votar, como tem feito sempre "lá e cá". "Estou mais preocupado com o TIPP, esse acordo comercial mais ou menos secreto entre a Europa e os EUA que é mais um golpe na soberania dos Estados e de que quase ninguém fala". De resto, a Vigo que o cativou nesses já longínquos 1980, soa hoje mais a um blues. A melodia de uma cidade "um bocado deprimida", com urgência em "reinventar-se".

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