Crise política agrava-se: Rajoy admite voltar a recusar investidura

PP diz que não vale a pena ir à investidura sem apoios para governar. PSOE admite diálogo com Podemos, Ciudadanos e Esquerda Unida se Rajoy recuar de novo. Rivera acusa líderes dos dois maiores partidos de irresponsabilidade

Quem quer governar Espanha? A resposta a esta pergunta parece cada vez mais difícil, numa altura em que o primeiro-ministro em exercício e líder do Partido Popular, Mariano Rajoy, mandou dizer ontem que não hesitará em recusar um novo convite de investidura por parte do rei Felipe VI se constatar que continua sem apoios suficientes para conseguir formar um governo estável. Agrava-se, assim, a crise política em que o país mergulhou após as legislativas de 20 de dezembro, nas quais nenhum partido conseguiu maioria absoluta de deputados (176 num total de 350).

"Se não houver alterações nos apoios recebidos não há razões para mudar de posição", afirmou ontem vice-secretário setorial do PP, Javier Maroto, admitindo que em qualquer dos casos é preciso "respeitar as propostas do rei". No passado dia 22 de janeiro, Rajoy recusou o convite para o debate de investidura feito por Felipe VI, o primeiro passo para iniciar a formação de um novo governo. "Não tenho apoios para me submeter à investidura", disse, na altura, esclarecendo, porém, que mantinha a candidatura a primeiro-ministro. Reiterando a proposta de aliança PP-PSOE-Ciudadanos, Rajoy sublinhou ainda não ter aceitado o convite para que também não começasse a contar o prazo formal para a constituição de um novo executivo (dois meses a contar da sessão de investidura).

Em declarações feitas aos jornalistas na sede do PP, citadas pelos sites dos media espanhóis, Maroto clarificou a posição do partido: "Para ir à investidura é preciso ter os apoios necessários". O responsável popular considerou que a proposta feita pelo líder do PP é "um caminho com saída", por contraponto à tática levada a cabo pelo líder do PSOE, Pedro Sánchez, a qual classificou, sem hesitar, como "um labirinto sem saída". Na véspera o secretário-geral dos socialistas fintara os barões do PSOE e, durante o comité federal, anunciou que serão os militantes a escolher com quem querem que o partido faça acordos de governo.

"Os [possíveis] acordos serão ratificados pelo comité federal e será consultada a militância. Contarei com a sua opinião, com a opinião da militância de base", declarou Sánchez, no sábado, perante os 300 membros do máximo órgão decisor do PSOE. A surpresa foi geral, pois o procedimento tem tanto de insólito como de inédito. Não está previsto nos estatutos do partido e agora terá que se iniciar um debate interno sobre como pôr em prática a realização dessa consulta. A ideia, refere o 'El País', é que falem primeiro os militantes e só depois o comité federal. Apesar de não ser politicamente vinculativa a decisão dos militantes socialistas e de muitos dos barões do partido poderem não concordar com ela dificilmente alguns se atreveriam a desafiá-la.

Através do porta-voz do PSOE no Parlamento, Sánchez fez ontem saber que os socialistas serão capazes de assumir a sua responsabilidade de tentar formar governo se Rajoy voltar a recusar submeter-se à investidura quando amanhã se reunir com o rei Felipe VI naquela que é já a segunda ronda de consultas feita pelo monarca junto dos partidos políticos. "Se Rajoy voltar a mostrar-se tão irresponsável como fez há uma semana, o PSOE assumirá a sua responsabilidade e falará com esquerda e direita. Com o Podemos, o Ciudadanos e também com a Esquerda Unida (IU)", declarou Antonio Hernando aos jornalistas na sede dos socialistas.

Recorde-se que o líder do Podemos, Pablo Iglesias, propôs, também no dia 22 de janeiro, uma aliança de governo entre a sua formação, o PSOE e a IU. Mas Sánchez não lhe respondeu, até porque muitos dos barões socialistas são contra um pacto com o Podemos. Daí que Sánchez tenha decidido contorná-los e pôr a decisão diretamente nas mãos dos militantes. Quanto à posição do Ciudadanos, o seu líder, Albert Rivera, disse ontem em entrevista ao 'El Mundo': "Rajoy e Sánchez jogam ao jogo do gato e do rato. É irresponsável. Estão a deixar que a batata quente fique nas mãos do rei. Se o rei o propuser, Sánchez deve aceitar, pedindo tempo para negociar".

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