CP e sindicato avisam que acidente na Galiza não está esclarecido

Reação a revelações de tribunal galego após terem sido abertas as caixas negras do comboio onde morreram quatro pessoas

A CP e o Sindicato Nacional dos Maquinistas dos Caminhos de Ferro (SMAQ) manifestaram estranheza com a divulgação, pelo Tribunal Superior da Galiza, de informações que apontam para excesso de velocidade e falta de resposta a avisos luminosos e sonoros pelo maquinista português da composição que descarrilou sexta-feira em O Porriño, causando quatro mortos, incluindo o condutor da composição.

A empresa ferroviária portuguesa e o sindicato lembraram que o inquérito ainda decorre e avisaram que faltam esclarecer questões importantes antes de se chegar a conclusões. Nomeadamente sobre as obras que decorriam na estação e eventuais falhas na informação dada ao maquinista.

Em declarações à Lusa, a porta-voz da CP (Comboios de Portugal), Ana Portela, lembrou que a empresa, "tal como anunciou logo no dia do acidente, apenas comentará as circunstâncias e as causas do acidente após a conclusão dos vários inquéritos em curso", nomeadamente da Renfe e CP, da Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários espanhola, e das autoridades judiciais.

"Parecem-nos estranhas estas declarações individuais, que se pretendem antecipar às conclusões dos trabalhos em curso. Os inquéritos ainda não estão concluídos", referiu, sublinhando que"há outras componentes que não são relativas apenas à caixa negra do comboio, que importa serem analisadas, nomeadamente a circunstância das obras".

Refira-se que o acidente na ligação Vigo-Porto, operada em conjunto pela CP e pela espanhola Renfe, deu-se numa via secundária - cuja velocidade era limitada a 30 quilómetros por hora -, porque decorriam obras na estação que impediam a linha principal.

Sindicato fala em omissões

A questão das obras foi também sublinhada ao DN por António Medeiros, presidente do SMAQ, que avançou com a possibilidade de o maquinista não ter sido previamente avisado de que iria encontrar uma parte do percurso onde o limite seriam os 30 quilómetros/hora e não os 120 permitidos nas vias principais.

"Sabemos que inicialmente, pelo que nos chega, nada de [relativo a uma] restrição foi transmitido ao maquinista no plano da marcha", disse ao DN, acrescentando que mesmo em relação aos vários alertas de excesso de velocidade transmitidos durante o percurso - sinais de luz amarela, que este terá confirmado, pressionando um botão, ter recebido, exceto no último - não há provas de que tenha havido qualquer negligência da parte do maquinista: "Falta saber se essa redução de velocidade foi transmitida atempadamente. Se foi dada a conhecer oportunamente ao maquinista ou não", avisou, considerando que, para já, apenas está "comprovada a velocidade" a que a composição seguia e que "foram transmitidas indicações" durante a viagem. "Tudo o resto é especulação", considerou .

Esta terça-feira, o jornal La Voz de Galicia noticiou que o maquinista português teria acusado a receção de uma dúzia de sinais no troço e ainda dos dois sinais acústicos L1: "Caso não tivesse acusado a receção dos sinais acústicos, o comboio teria parado", indicou o jornal, segundo o qual o comboio estaria equipado para o fazer de forma automática.

Mas ao DN por António Medeiros defendeu que "o troço em causa, "entre Vigo e Tui, tem um sistema de controlo arcaico, a precisar de ser modernizado", garantindo mesmo que com os atuais "sistemas de comando e controlo de velocidade" existentes na maioria das linhas dos dois países, o descarrilamento teria sido impossível.

"Noutras condições o acidente não poderia dar-se, quer estivessem em causa razões de negligência, causa da via ou a atuação do maquinista", explicou. "O comando em controlo de velocidade não permite. Uma vez que se verifique uma contradição [com as regras], atua na velocidade. Tinha feito o comboio parar".

António Medeiros garantiu ainda que todos os maquinistas da CP são sujeitos "de forma aleatória mas regular" a controlo de consumo de álcool e outra substâncias.

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