Covid-19 já matou (oficialmente) um milhão de pessoas. Mas pode ser o dobro

Número de mortos já passa do milhão mas excesso de mortalidade aponta para que o número de vítimas de covid-19 possa ser o dobro.

O covid-19 já matou mais de um milhão de pessoas, segundo o contador World Meter.

O número foi ultrapassado há minutos, dizendo a mesma fonte que o total de pessoas infetadas ultrapassa os 33 milhões, tendo 24,5 milhões de pessoas recuperado.

Em termos absolutos, os EUA são o país mais letal, com mais de 209 mil mortos.

Nesse ranking, Portugal está, com os seus 1953 mortos, na 48ª posição.

A marca oficial de um milhão de mortes devido à pandemia, que se deve em grande medida aos países da América Latina, com mais de um terço dos óbitos, e dos Estados Unidos, com mais de um em cinco óbitos, dá-se num momento em que a Europa teme uma segunda vaga de surtos e de mortes. No horizonte há uma ou mais vacinas disponíveis, mas há que ultrapassar umas estações do ano.

O número redondo, há que dizê-lo, é uma estimativa por baixo. Se um país livre e transparente como a Alemanha não faz a contabilidade nas certidões de óbito como, por exemplo Itália ou a Espanha, o que dizer do Irão ou da China.

A The Economist, para contornar os números subestimados comparou o número de mortes deste ano com o que estava previsto com base em anos passados. Este método, para apurar o excesso de mortalidade, foi analisado na Europa, alguns países da América Latina, Estados Unidos, Rússia e África do Sul. A conclusão é que "o verdadeiro número da sua parte da pandemia parece ter sido 55% maior do que o oficial"; ao extrapolar estes números para o resto do globo, "o verdadeiro número de mortos para a pandemia pode atingir os dois milhões", vaticina o semanário inglês.

Ainda assim, ao atermo-nos ao número de mortes (seja um milhão ou dois), há que pô-los em perspetiva. Em 2016 morreram muito mais pessoas no mundo com problemas cardíacos - 15,2 milhões, como se pode verificar no top 10 das mortes realizado pela Organização Mundial de Saúde.

Sentido errado

Com a entrada no outono, o estado de espírito na Europa tornou-se mais sombrio. Não é tanto pela despedida dos longos dias de verão, mas pelo crescimento do número de novos casos de covid-19.

Bruxelas tem vindo a emitir avisos sobre a vaga de novos casos que envolvem muitos países. "Estamos num momento decisivo", disse Stella Kyriakides, a comissária europeia da Saúde. "Todos temos de agir de forma decisiva. Pode ser a nossa última oportunidade de evitar uma repetição da primavera passada", disse a cipriota.

Nos últimos dias, Espanha, França e Reino Unido voltaram a impor restrições ou novas medidas no combate à disseminação do vírus.

Outros países como a Polónia, a República Checa ou a Eslováquia atingiram recordes de infecções diárias. A Suécia, que tem seguido uma política menos restritiva, também está a braços com um recrudescimento da doença, ao ponto de o epidemiologista-chefe Anders Tegnell dizer que o país está a caminhar no "sentido errado".

A razão pela qual os casos estão a subir e neste momento no nosso hemisfério é simples de descodificar. Na ressaca do confinamento, que em termos mundiais chegou a atingir 3,5 mil milhões de pessoas, as restrições foram baixando de forma gradual e no verão as pessoas voltaram à normalidade possível, seja de férias, seja no regresso à escola e ao local de trabalho.

O preço a pagar é o aumento da transmissão comunitária e com isso a perspetiva de novos surtos que levem os serviços hospitalares ao limite.

Novos confinamentos

Nesse sentido, por exemplo, a região de Madrid impôs um confinamento controverso, porque parcial e porque na primeira fase incidiu apenas nos municípios e bairros mais pobres. Agora, com 700 casos de covid-19 em 100 mil habitantes, contra 300 em 100 mil no resto de Espanha, a medida foi alargada a mais 167 mil madrilenos. Há agora mais de um milhão de habitantes que não devem sair da sua área de residência exceto para trabalhar ou estudar e de resto devem evitar sair de casa.

Quando o governo de Pedro Sánchez decretou o fim do estado de emergência em Espanha, em junho, os poderes da gestão da pandemia foram delegados às regiões. O país é o que regista mais casos do novo coronavírus no continente europeu.

Mas é nas ilhas britânicas que na Europa se contabilizam mais vítimas mortais. O primeiro-ministro ainda no início do mês repetia o que disse em julho, que a vida regressaria ao normal durante o Natal. Porém, o conselheiro científico principal do governo britânico, Patrick Vallance, e o médico-chefe de Inglaterra, Chris Whitty, disseram que os casos estavam a duplicar aproximadamente em cada sete dias. Se essa taxa se mantiver, advertiram, poderia haver 50 mil novos casos diários em meados de outubro.

No dia seguinte, e perante esse cenário, Boris Johnson amarrotou o papel das promessas e revelou um pacote de novas restrições que poderão permanecer em vigor durante seis meses. "Tal como em Espanha e França e em muitos outros países, chegámos a um ponto de viragem perigoso", justificou.

Agora os pubs, bares e restaurantes têm de fechar até às 22.00. Algumas profissões passam a estar sujeitas ao uso de máscara, caso dos motoristas de táxi, dos trabalhadores do comércio e empregados de bares e restaurantes.

Mas foi no País de Gales que o governo autónomo decidiu, à imagem de Madrid, impor um confinamento em Cardiff, Swansea e Llanelli no qual os habitantes destas urbes só podem sair por motivos de força maior, trabalhar e estudar.

A França também endureceu o discurso e as medidas. O primeiro-ministro Jean Castex tinha avisado há dias sobre uma "clara deterioração da situação" - desde o início de setembro que o número diário de infecções batia recordes. Mas o cenário agravou-se e os hospitais começam a enfrentar dificuldades.

"Se não atuarmos podemos enfrentar uma situação parecida com a da primavera. Isto poderia significar um novo confinamento", advertiu Castex, apontando para um cenário que ninguém deseja, tendo em conta os custos económicos.

Em vez disso, o Ministério da Saúde impôs novas restrições nas principais zonas urbanas para conter o que os epidemiologistas estão a chamar uma "segunda vaga". Em Paris e noutras dez cidades, as dimensões dos grupos serão agora limitadas, e os bares serão obrigados a deixar de servir depois das 22.00.

"O fim da picada"

Em Marselha, a medida foi mais rigorosa e a restauração foi obrigada a voltar a fechar portas, o que causou uma onda de contestação entre proprietários e trabalhadores. Durante a visita do ministro da Saúde, o neurologista Olivier Véran, a um hospital da cidade houve manifestações quer junto da unidade de saúde, quer junto ao tribunal do comércio, onde os manifestantes temem regressar em breve para apresentar a falência.

"Isto é o fim da picada. Estávamos a começar a erguermo-nos", desabafou o dono de um restaurante, Patrick Labourrasse, à AFP. Alguns proprietários prometem desafiar a ordem governamental e contam com a solidariedade de um grupo de 50 advogados, responsável por uma carta a denunciar um "erro estratégico fundamental" do executivo. "O que não quero é voltar a março", respondeu o chefe do governo, que promete apoios financeiros aos manifestantes.

Distanciamento social a tiro

Mas se há razões fundadas para apreensão na Europa, mais há na América. Os Estados Unidos permanecem como o país mais atingido pela doença, com mais de 200 mil óbitos e para cima de sete milhões de contágios.

Se em estados como Nova Iorque e Nova Jérsia o pior parece ter passado, outros tomaram os seus lugares, casos da Califórnia, Florida e Texas, num país em que a ideia de acatar o uso da máscara é motivo de intermináveis discussões e em que os políticos não dão o exemplo. E nem é preciso ir à Casa Branca. É o caso da governadora do Dakota do Sul, Kristi Noem, que decidiu fazer um vídeo em que abate um faisão (fora da época da caça) para dizer ao mundo que é assim que se cumpre o distanciamento social.

No vizinho Canadá a situação foi sempre muito mais controlada, mas as quatro maiores províncias voltaram a registar um aumento de casos. Se o país continuar no seu rumo atual, dizem os responsáveis pela saúde pública, atingirá 5 mil casos por dia no final de outubro, mais do que no pico registado na primavera.

O primeiro-ministro Justin Trudeau salientou que as pessoas precisavam de mudar o seu comportamento para evitar um confinamento no inverno. É muito provável que as reuniões familiares do tradicional Dia de Ação de Graças, que se festeja no dia 12 de outubro, não se realizem, disse. Mas dependendo de como os canadianos reagem agora, poderão "ter uma oportunidade" no Natal. "A segunda vaga não está apenas a começar. Já está em curso", afirmou.

"Da pandemia e da pobreza ninguém se salva sozinho"

Mas é na América Latina no seu todo que a pandemia tinge as cores mais negras.

Em junho, o epicentro da pandemia deslocou-se para a América Latina e as Caraíbas. De 15 de Julho a 15 de Agosto, as mortes registadas na região não desceram abaixo de uma média de 2.500 por dia.

A região tem nove milhões de infeções e soma mais de 330 mil mortes em seis meses, para cima de um terço do total mundial. Neste contexto, durante a Assembleia Geral da ONU, a América Latina lançou um apelo à solidariedade das maiores potências mundiais para um acesso a uma vacina livre de patentes e de créditos sem juros. "Da pandemia, como da pobreza, ninguém se salva sozinho", afirmou o presidente argentino, Alberto Fernández.

O Brasil é de longe o país com mais casos - 4,7 milhões - e 140 mil mortes por covid-19, um número apenas superado pelos Estados Unidos. Nas últimas semanas o país teve uma média de 735 mortes e quase 30 mil novos contágios por dia.

Sintomática a decisão de adiar os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro no Carnaval de 2021. "Chegámos à conclusão de que o processo tem que ser adiado. Não temos como fazer em fevereiro. As escolas já não vão ter tempo nem condições financeiras de organização", afirmou Jorge Castanheira, presidente da Liga Independente das Escolas de Samba, que organiza os desfiles oficiais do Rio de Janeiro.

Além do Brasil, Colômbia, Peru (país com a maior taxa de mortalidade por covid-19 no planeta, 98,68 óbitos para cada 100 mil habitantes), México e Argentina estão entre os dez países com mais infecções no mundo.

Para lá das perdas humanas, a pandemia vai causar à região com mais desigualdades do mundo 45 milhões novos pobres e uma queda de 9,1% no PIB, prevê a Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas.

Idosos moscovitas, para casa

O presidente da Câmara de Moscovo, Sergei Sobyanin, recomendou que as pessoas idosas permaneçam em confinamento e que as empresas privilegiem o teletrabalho face ao aumento de casos de covid-19 na capital russa.

O autarca disse que houve um aumento "sério" nas admissões hospitalares e aconselhou os maiores de 65 anos e as que sofrem de doenças crónicas a ficar em casa a partir de segunda-feira e fazer compras raramente, embora as caminhadas permaneçam sem restrições.

"Infelizmente vemos um aumento significativo no número de casos confirmados em Moscovo nos últimos dias", escreveu Sobyanin no seu blogue. "Assim, a partir de 28 de setembro, pedimos-lhe que permaneça em casa".

Na Ásia, onde o número de mortes foi inferior a 100 por dia até meados de abril, as mortes têm vindo a aumentar de forma constante. O continente tem excedido 1.000 mortes por dia quase continuamente desde 20 de julho e aproxima-se dos 1.500.

A Índia, que tem visto mais de meio milhão de novos casos por semana durante quatro semanas consecutivas, em breve ficará com os louros dos EUA como o país com a maior contagem oficial de casos, além do crescimento ao nível de óbitos superior a 1.100 por dia.

África é exceção

África escapou ao aumento "exponencial" de casos de coronavírus vistos noutros locais, provavelmente devido à baixa densidade populacional e a um clima quente e húmido, disse a OMS.

África registou cerca de 35 mil mortes, o equivalente aos números de Itália, em menos de 1,5 milhões de casos, muito atrás dos outros continentes.

"A transmissão de covid-19 em África foi marcada por relativamente menos infecções que diminuíram nos últimos dois meses", disse a Organização Mundial de Saúde.

A África do Sul é o país mais atingido do continente. De acordo com as últimas estatísticas oficiais de sexta-feira, houve 667.049 casos, dos quais 16.283 foram fatais.

À espera da vacina

O número global de mortos de covid-19 poderá duplicar para dois milhões antes que uma vacina bem sucedida seja utilizada em larga escala e o número poderá ser ainda maior sem uma ação concertada para travar a pandemia. Quem o disse foi um funcionário da Organização Mundial de Saúde na sexta-feira.

"A menos que o façamos [tomar medidas concertadas] o número de que fala [2 milhões de mortes] não só é imaginável, mas infelizmente muito provável", disse Mike Ryan, chefe do programa de emergências da agência das Nações Unidas.

A corrida para a vacina está ao rubro. Diversos laboratórios do mundo estão envolvidos na produção de uma vacina. O grupo biotecnológico americano Novavax anunciou o início de um teste clínico de fase final para a potencial imunização no Reino Unido.

Esta é a 11.ª vacina experimental do mundo que entra na fase final dos testes clínicos.
Os projetos ocidentais mais avançados são os desenvolvidos pela britânica AstraZeneca em parceria coma a Universidade de Oxford, além dos projetos das americanas Pfizer e Moderna. Projetos chineses e russos também entraram na última fase de testes.

Para Pequim, o programa chinês de vacinas está "na liderança" e como tal espera chegar até ao final do ano com uma capacidade de produção anual de mais de 600 milhões de doses. "A segurança da vacina [experimental] foi comprovada, mas sua eficácia não está totalmente certificada", comentou Zheng Zhongwei, da Comissão Nacional de Saúde.

Cronologia

A primeira morte do coronavírus foi oficialmente registada na China no dia 11 de janeiro. O vírus Sars-CoV-2 que causa a doença conhecida como covid-19 espalhou-se rapidamente pela província chinesa de Wuhan. No espaço de um mês, o país registou mil mortes. Esse número inicial foi maior do que o total de mortes causadas pela síndrome respiratória aguda, SARS, que circulou na Ásia em 2002-2003 e causou 774 mortes.

Por essa altura o vírus já começava a circular fora da China. As Filipinas registaram o primeiro caso a 2 de fevereiro e Hong Kong dois dias mais tarde, seguidos pelo Japão e França a 13 e 14 de fevereiro. Em fevereiro, os casos dispararam.

A 11 de março, quando a OMS declarou o novo coronavírus uma "pandemia", tinham sido registadas 4.500 mortes em todo o mundo, em 30 países e territórios.
Dois terços das vítimas estavam ainda na China, mas a Itália (800 mortes) e o Irão (300 mortes) registaram uma escalada de casos, com mortes logo a seguir.

O número de pessoas que morrem diariamente na Europa e nos Estados Unidos aumentou rapidamente até meados de abril, atingindo picos na segunda semana de mais de 4.000 e 2.700 mortes diárias médias, respetivamente.

Numa escala global, a semana mais mortífera foi de 13 a 19 de abril, quando mais de 7.460 mortes por coronavírus foram oficialmente comunicadas todos os dias. Nessa altura, o número total de mortes a nível mundial tinha aumentado para cerca de 170.000, ou seja, o dobro do nível reportado a 31 de março. Desde o início de junho, o número médio de mortes por dia tem oscilado em torno das 5.000.

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