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Saúde

Contenção do coronavírus. "A batalha será ganha ou perdida na China"

O novo coronavírus infetou e matou mais pessoas do que os anteriores, mas 99% dos casos foram identificados na China. Para o especialista do Instituto de Medicina Tropical, ou o país asiático elimina o vírus ou "é possível que haja uma pandemia mundial".

O número de mortes causadas pelo novo coronavírus ultrapassou os três dígitos e a doença recebeu um nome: Covid-19. 1110 mortos e mais de 43 mil infetados, mas, olhando para o mapa, estes estão essencialmente na China e na região de Hubei, o epicentro do surto. À Europa chegaram 45 casos de contaminados, uma ameaça "muito séria" do ponto de vista da Organização Mundial da Saúde (OMS). Para Jaime Nina, especialista do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, "o que se passa na Europa ou na América é pouco importante. A batalha será ganha ou perdida na China. Ou eles conseguem controlar o vírus e o mundo todo provavelmente conseguirá eliminá-lo ou é possível que haja uma pandemia mundial", diz ao DN.

O balanço dos infetados e das vítimas mortais é já superior ao da síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês), que, entre 2002 e 2003, foi responsável pela morte de 774 pessoas em todo o mundo (a maioria na China). Também supera o da síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS), que começou na Arábia Saudita, em 2012, e fez 858 mortos. A transmissão do Covid-19 revelou-se mais eficiente, sem se saber ainda exatamente porquê.

Em média, uma pessoa infetada passa o vírus a outros dois ou três cidadãos, um potencial epidémico idêntico ao da SARS. "Não é um grande número", afirma Margarida Tavares, especialista em infecciologia do Hospital de São João, no Porto, um dos hospitais assinalado pela Direção-Geral da Saúde para lidar com situações relacionadas com o novo coronavírus. "O sarampo, por exemplo, tem um potencial epidémico de uma para 12 a 18 pessoas. Admitindo claro que no sarampo nem toda a gente é suscetível [a contrair a doença], ao contrário do que acontece com este vírus, que é desconhecido para os humanos", esclarece a profissional de saúde.

Até ao momento, fora da China há apenas registo de uma vítima mortal, um cidadão chinês nas Filipinas, apesar de já existirem pessoas infetadas em mais de vinte países. No Reino Unido foram assinaladas oito situações de contágio, em França 11 e na vizinha Espanha duas. Em Portugal, foram despistadas seis suspeitas através de análises, que se revelaram negativas. "O contraste que há entre os números da China e os do resto do mundo não poderia ser maior. No resto do mundo, não há casos de terceira geração, dois terços dos infetados vieram diretamente da China", aponta Jaime Nina.

E os que estão infetados são, na maioria dos casos, jovens, que viajaram para a China recentemente. "Se a contaminação existisse nas suas comunidades o tipo de pessoas infetadas seria completamente diferente. Na Europa, somos capazes de nunca vir a ter uma situação de disseminação, como existe na China, mas estamos preparados para lidar com situações mais graves", acredita Margarida Tavares.

Já o especialista do Instituto de Medicina Tropical escolhe uma atitude mais preocupada: "Depende do número de casos. Para três ou quatro casos estamos completamente preparados. Para três ou quatro mil não estamos. Nem nós nem ninguém. É tudo uma questão de escala."

Vários países já começaram o repatriamento dos seus cidadãos de Wuhan, o epicentro do vírus, uma cidade com 11 milhões, que foi colocada sob quarentena à semelhança de outras cidades na província de Hubei. No total foram afetadas mais de 56 milhões de pessoas. As saídas e entradas nestas localidades estão interditadas pelas autoridades, durante um período indefinido, e diversas companhias aéreas suspenderam as ligações com a China.

"Fecharam um país sobre si"

"Solidariedade" pediu, nesta terça-feira a todos os países, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na abertura de uma reunião com cerca de 400 cientistas, em Genebra, destinada a deter a epidemia. "Com 99% dos casos na China, [a epidemia] continua a ser uma emergência real para este país, mas também é uma ameaça muito séria para o resto do mundo", alertou o responsável máximo da OMS, no primeiro de dois dias do fórum. Na próxima quinta-feira, os ministros da Saúde europeus reúnem-se, em Bruxelas, para coordenar uma estratégia comum de modo a conter a epidemia.

Independentemente do esforço da China para impedir a propagação do vírus, o país não se consegue livrar das críticas. As autoridades locais têm sido acusadas de uma reação demorada e de silenciarem aqueles que alertaram para o perigo do novo coronavírus. Foi o caso de Li Wenliang, um oftalmologista de 34 anos, apontado como o médico que deu os primeiros alertas sobre o surto. Morreu nesta sexta-feira, o que desencadeou uma onda de gritos pela falta de liberdade de expressão sentida na China.

Pequim enviou para Hubei uma equipa de investigação anticorrupção para apurar detalhes sobre o tratamento que Li Wenliang recebeu e foi feito um saneamento de várias autoridades de saúde tidas como referências na China. Entre aqueles que foram afastados dos seus cargos encontram-se o secretário e o diretor da Comissão de Saúde de Hubei, segundo a BBC, despedidos um dia depois de ter sido ultrapassado o recorde diário de mortos do novo coronavírus na região (103 mortos, nesta segunda-feira). Já o especialista chinês em epidemias Zhong Nanshan garantiu, em declarações à agência Reuters, que o pico da doença está a ser atingido agora e que tem motivos para acreditar que o surto já não existirá em abril.

"A China está a fazer um grande esforço para conter [o Covid-19], quase que fecharam o país sobre si próprio. Impediram a saída das pessoas potencialmente doentes (que poderiam tentar sair numa situação de medo e pânico) e impediram a entrada de outras pessoas. Aquilo que eles fizeram não seria fácil de reproduzir na maioria dos países do mundo. É um estado desenvolvido com recursos tecnológicos e financeiros para implementar medidas desta dimensão, mas, ao mesmo tempo, também foram capazes de não olhar a meios para impedir a liberdade das pessoas, como poderia ser difícil noutros países, assumindo o estado de quarentena", refere a médica do Hospital de São João. Enquanto Jaime Nina prefere relembrar que "nós não sabemos o que se passa na China. A China não é uma democracia".

Vacina pode demorar um ano e meio

A pneumonia emergiu na cidade chinesa de Wuhan, no final de dezembro, e foi provocada por um novo coronavírus, anteriormente desconhecido da ciência. Sobre a origem do vírus, batizado assim devido à sua forma que faz lembrar uma coroa, também ainda não há certezas. Sabe-se apenas que o surto emergiu a partir de um mercado de venda de peixe fresco, marisco e outros animais vivos, incluindo espécies selvagens, como morcegos e cobras. Desde 30 de janeiro, que se trata de uma situação de emergência de saúde pública de âmbito internacional, decretada pela OMS, o que pressupõe a adoção de medidas de prevenção e coordenação à escala mundial.

Não há nenhum medicamento específico para atacar esta epidemia, por enquanto. Os doentes infetados pelo novo coronavírus estão a ser tratados com fármacos testados para outras pneumonias e permanecem em isolamento, de forma a evitar o contágio de terceiros. Mas os primeiros passos para encontrar uma vacina já estão a ser dados. Uma equipa de investigadores britânicos anunciou estar já a fazer experiências em ratos.

"Acabámos de injetar em ratos a vacina que gerámos a partir de bactérias e esperamos, nas próximas semanas, poder determinar qual a reação nos ratos, no seu sangue, e a sua resposta em termos de anticorpos contra o coronavírus", confirmou um dos investigadores à agência France-Presse (AFP).

No entanto, o desenvolvimento de uma nova vacina é um processo demorado, que se pode prolongar por vários anos até que o antídoto se prove seguro e eficaz. A OMS estima que esta vacina possa demorar um ano e meio a ser desenvolvida. "Agora temos de nos preparar para usar as armas que temos ao nosso alcance para lutar contra este vírus", declarou o diretor da OMS. Há notícia de 4347 pessoas já recuperadas da infeção.

Casos suspeitos em Portugal deram negativo

O Hospital Curry Cabral, o Dona Estefânia (em Lisboa) e o Hospital de São João (no Porto) são as unidades de saúde onde existem, neste momento, alas prontas a receber doentes infetados com coronavírus. Estão ainda preparadas ambulâncias do INEM para transportar casos suspeitos nestas duas cidades, em Coimbra e em Faro. No entanto, as entidades de saúde têm traçado um segundo plano de ação caso haja uma escalada da epidemia. Há uma linha de 15 a 20 hospitais prontos do ponto de vista laboratorial para receber estes doentes, de norte a sul do país, nos Açores e na Madeira.

Em Portugal, até agora, foram registados seis casos suspeitos de infeção por coronavírus. Todos deram negativos. Há ainda vinte pessoas em isolamento profilático, desde o dia 2 de fevereiro, no Hospital Pulido Valente, em Lisboa, por terem sido repatriadas da China e terem estado em Wuhan. Trata-se de 18 portugueses e duas brasileiras, que deixarão as instalações hospitalares neste sábado, informou, em conferência de imprensa, nesta terça-feira, a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas.

Entretanto, a DGS reforça os conselhos relativos à prevenção: evitar contacto próximo com pessoas com sinais de infeção respiratória aguda, lavar frequentemente as mãos, evitar contacto com animais, tapar o nariz e a boca quando espirra ou tosse e lavar as mãos de seguida. Em caso de apresentar sintomas coincidentes com os do vírus (febre, tosse, dificuldade respiratória), ligue para o SNS24 (808 24 24 24).

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