Conflito irano-saudita abre portas a guerra civil no mundo islâmico

Riade quer neutralizar crescente influência de regime iraniano na região e restringir efeitos positivos do fim das sanções neste país.

O presidente iraniano Hassan Rouhani a criticar "o grande crime" da execução do clérigo xiita Nimr al-Nimr pela Arábia Saudita, o Koweit a chamar o seu embaixador em Teerão, o Conselho de Cooperação do Golfo a anunciar para sábado uma reunião de emergência, em Riade, para discutir a crise irano-saudita, foram alguns dos desenvolvimentos verificados ontem, que revelam a gravidade da situação que envolve as duas potências na região do Golfo Pérsico.

Outros sinais surgiram das preocupações de analistas do setor petrolífero a considerarem que a determinação saudita em defender a sua quota do mercado petrolífero, mantendo os preços baixos, não se vai alterar nos próximos tempos. A estratégia de Riade não visa apenas o objetivo de manter a fatia de mercado - tem como objetivo neutralizar, o efeito que terá a chegada ao mercado do petróleo iraniano, a partir de meados deste ano, e seus efeitos para a economia deste último país. Com a entrada no mercado de cerca de um milhão de barris de petróleo iraniano por dia, um preço superior aos 36 dólares, que se registaram ontem nos mercados de Londres e de Nova Iorque, seria importante para o futuro da economia de Teerão.

Os conflitos na Síria e no Iémen são apresentados como outros exemplos em que a rivalidade irano-saudita pode ditar o agravamento das respetivas situações, ao contrário de levar a alguma forma de compromisso, pelo menos no segundo caso. Quanto à Síria, a dimensão do que está em causa impede qualquer de sucesso em possíveis negociações. Mas mesmo no Iémen, o futuro é incerto. Os sauditas voltaram ontem a bombardear posições dos houthi em diferentes pontos do país. Os houthis, xiitas que contam com a ajuda de Teerão, combatem o presidente Mansour Hadi, apoiado por Riade.

"Desde 1979, os dois países têm travado guerras por procuração por todo o Médio Oriente, ao mesmo tempo que trocavam ameaças e insultos, mas evitaram sempre o conflito direto e conseguiram chegar a reconciliações glaciais", afirmou à Reuters Karim Sadjadpour, investigador do Médio Oriente do Carnegie Endowment for International Peace. Um caminho que, segundo este investigador, foi posto em causa pela chegada ao poder em Riade do rei Salman, há cerca de um ano. Desde então, o regime saudita tem adotado uma atitude mais confrontacional e afirmativa face a Teerão, defende Karim Sadjadpour.

"Está em ebulição o conflito sunismo-xiismo", disse um ex-conselheiro do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, falando ao The Jerusalem Post (JP). Para Eliezer Tsafrir, o "mundo sunita teme a ameaça iraniana" e o facto do governo sudanês ter expulsado os diplomatas de Teerão em Cartum mostra "até que ponto o conflito já chegou".

Os sauditas pensam estar a "criar-se um vazio de poder no Médio Oriente", defende um académico israelita especialista na Arábia Saudita, Joshua Teitelbaum, falando ao JP. Um vazio evidente no Iraque, com a saída dos Estados Unidos. E o Irão não deixará de retaliar, pensa o mesmo académico. As medidas de retaliação e contra-retaliação, sanções de vários tipos, expulsão de diplomatas e guerrilha económica entre os blocos sunita e xiita vão continuar na ordem do dia.

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