Loucura ou estratégia? A comunicação de Bolsonaro posta em causa

Opositores requerem teste psiquiátrico e até os aliados se confessam desconcertados com os tweets recentes do presidente. Já os especialistas detetam no marketing do Planalto as táticas da campanha permanente e da criação de cortinas de fumo

"O que é um golden shower?". A pergunta de Jair Bolsonaro, presidente do quinto maior país do globo e oitava economia do mundo, ficará a ecoar ao longo do seu mandato. Surgida em forma de tweet, como reação a um outro tweet em que o chefe de estado do Brasil, supostamente para denunciar os excessos do Carnaval, publicou imagens pornográficas de um homem a colocar o dedo no ânus e outro a urinar sobre um terceiro (a tal golden shower), levantou o debate: a comunicação de Bolsonaro obedece a uma estratégia? Ou é pura loucura?

Na arena política, o principal partido da oposição, PT, apressou-se a classificar o presidente de insano. "Ele deu publicidade a um facto que passaria despercebido e vem dizer que ele é quem está combatendo isso, eu acho que ele é meio doido", resumiu a presidente do partido Gleisi Hoffmann, a falar para a militância através das redes sociais. O líder do grupo parlamentar do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Pimenta, sugeriu até "a possibilidade de solicitar um teste de sanidade mental". No mesmo tom, Marcelo Freixo, deputado do PSOL, mais à esquerda ainda que o PT, resumiu o caso a "quadro psiquiátrico grave e politicamente desastroso".

Do lado dos aliados do governo, quem defende Bolsonaro fala em público, quem critica escuda-se no anonimato. "Loucura", disse um líder parlamentar, citado por uma coluna de bastidores. Noutra coluna, falou-se em "tom de chacota no Congresso Nacional", mesmo entre deputados alinhados com o PSL, do presidente, e em "susto e constrangimento" na poderosa ala militar do executivo. Houve quem definisse a comunicação do inquilino do Planalto, e por extensão a dos seus filhos sempre muito ativos nas redes sociais, de "medíocre e primária". Um dos representantes da nova direita saída dos protestos contra os governos do PT, Kim Kataguiri, do DEM, atacou os tweets abertamente: "Incompatível com a postura de um presidente, ainda mais de direita, uma bola fora".

Além dos dois tweets citados, durante o Carnaval o presidente envolveu-se numa troca de piropos com dois músicos, Caetano Veloso e Daniela Mercury, que o acusaram de querer acabar com a festa. Numa das respostas, Bolsonaro publicou um vídeo em que um intérprete desconhecido canta uma marcha contra Veloso e Daniela. Mais tarde, anunciou processo a José de Abreu, que se auto-proclamou presidente do Brasil, numa sátira a Bolsonaro e ao venezuelano Juan Guaidó. E ainda chamou um jornalista de "cérebro mofado", antes de atacar uma rádio.

A tese da insanidade, porém, já tinha sido abordada no mês passado a propósito da demissão do seu braço direito, Gustavo Bebianno, após um atrito em que Carlos Bolsonaro, segundo filho do presidente se envolveu. Bolsonaro demitiu Bebianno após uma reunião deste com um responsável da TV Globo, estação a quem o chefe do governo declarou guerra. Bebianno, de acordo com o jornal O Globo, saiu do governo a chamar Bolsonaro de "pessoa louca" e de "perigo para o Brasil" - ele mais tarde negaria esses epítetos.

Na ocasião, o site Catraca Livre, conotado com a esquerda, comparou em reportagem as atitudes do presidente com os sintomas de um paranoico. Na revista Veja, entretanto, Bolsonaro foi descrito em perfil como "um líder dado a enxergar complôs e deslealdades em cada esquina e, talvez mais perigoso, apresenta-se como um político que faz questão de cultivar inimigos". Para Bolsonaro, diz ainda a reportagem, "as repartições públicas estão infestadas de esquerdistas, a imprensa quer derrubar o governo, a igreja católica conspira a nível mundial e há militares a pensar em se sentar na sua cadeira".

Especialistas em comunicação detetam um método - criar cortinas de fumo e manter o governo no clima da campanha - na aparentemente caótica comunicação governamental. "Por conta da mobilização que o levou ao poder, Bolsonaro não pode sair do clima de campanha. Ele tem de manter o seu público aquecido com polémicas. Se eles estiverem frios, não fazem retweets nem dão likes, e a mensagem não se propaga. Por isso ele continua elogiando a ditadura, por exemplo, sempre polemizando. A sua estratégia de comunicação depende disso", diz Pablo Ortellado, professor de Gestão Política da USP, ao jornal El País, edição brasileira.

O site conservador O Antagonista evoca "a estratégia de causar comoção nas redes sociais para desviar o foco e pautar a imprensa". "Uma estratégia conhecida que segue a cartilha dos gurus digitais de Donald Trump, baseando-se em técnicas antigas que recobraram importância nas redes sociais: o enquadramento preventivo (ser o primeiro a enquadrar uma ideia), a distração (desviar a atenção dos assuntos reais), a mudança de assunto (atacar o mensageiro, normalmente a imprensa) e o balão de ensaio (testar a reação pública)".

"Mas se o controverso fortalece a coesão entre os apoiantes em torno de uma agenda conservadora nos costumes, também pode acabar tornado-se um carro sem travões", alerta, por sua vez, Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura. Ele considera que se o presidente continuar "reagindo irracionalmente a qualquer provocação de grupos políticos afastará, com o tempo, a sua base eleitoral e interagirá só com os bajuladores".

Debate abaixo da linha de cintura

O secretário de comunicação de Michel Temer, antecessor de Bolsonaro, reforça essa ideia. "Por mais que seja uma tática para manter inflado o grupo que o apoia ele entrou numa seara complicada, a do debate abaixo da linha de cintura, e o cargo dele exerce-se sabendo que todos os dias se está a fazer história", disse Márcio Freitas.

Para Thomas Traumann, que exerceu funções idênticas no fim do consulado de Dilma Rousseff, "este não é o melhor timing para o estado de campanha permanente porque ele assim cria antipatias quando deveria construir consensos em torno das reformas", diz, citado pelo jornal Folha de S. Paulo.

A reforma da previdência, principal missão do governo em 2019, por exemplo, está em banho maria. Em simultâneo, os escândalos em torno do filho de Bolsonaro, Flávio, cujo assessor moveu quantias milionárias inclusivamente para a conta da primeira-dama Michelle, e o esquema de corrupção das candidatas fantasma do seu partido passaram para segundo plano nas manchetes graças ao tweet pornográfico, lembram os comunicólogos.

A propósito, a reportagem de O Antagonista lembra que "pornográfico é o gasto com o cartão corporativo" - nos primeiros dois meses de governo de Bolsonaro os gastos com o cartão da presidência da República aumentaram 16% (num total de perto de 250 mil euros) em relação à média das gestões Temer e Dilma. E a equipa do atual presidente dizia que queria acabar com esse privilégio.

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