"Completamente caótico". Especialista conta o que viu após visitar Diamond Princess

Os passageiros do navio começaram esta quarta-feira a desembarcar, depois de concluído o período de isolamento. Entretanto, foram detetados mais 79 casos positivos. Infetados a bordo são agora 621.

Kentaro Iwata, um especialista em doenças infecciosas da Universidade japonesa de Kobe, foi levado até ao Diamond Princess, na terça-feira, um dia antes do governo japonês autorizar que os passageiros desembarcassem do navio de cruzeiro que tem estado em quarentena. O cenário que encontrou chocou o especialista.

"O [protocolo] no navio era completamente inadequado em termos de controlo da infeção", disse Iwata num vídeo partilhado no YouTube.

"Não houve distinção entre a zona verde, livre de infeção, e a zona vermelha, potencialmente contaminada pelo vírus", afirmou Iwata.

De acordo com o site Quartz, Kentaro Iwata embarcou no navio como membro de uma equipa de assistência médica especialista em cenários de acidente, depois de ter visto ser negado a sua entrada como especialista em controlo de infeções, revelou.

Os passageiros começaram esta quarta-feira a desembarcar, depois de concluído o período de isolamento fixado pelas autoridades para evitar a propagação do novo coronavírus.

À medida que o número de pessoas infetadas no navio aumentava, os especialistas começaram a questionar a estratégia do Japão de continuar a impor a quarentena a milhares de pessoas num espaço fechado.

Kentaro Iwata conta que havia passageiros confinados às cabines, mas os membros da tripulação dividiam o espaço e tinham equipamento de proteção mínimo quando interagiam com os passageiros.

Até terça-feira, 542 pessoas foram confirmadas como infetadas com coronavírus, ou seja, 15% de todos os que estavam a bordo.

Esta quarta-feira, as autoridades de saúde disseram que 79 novos casos foram detetados. Com 621 casos positivos, a Diamond Princess é onde está o maior grupo de pessoas infetadas com Convid-19 fora da China.

Passageiros que testaram negativo para o Covid-19 e que nunca apresentaram sintomas, tiveram autorização para desembarcar, mas quem acusou negativo nos testes mas tenha dividido um quarto com uma pessoa infetada será mantido a bordo e continuará de quarentena.

No vídeo, Iwata garante que em duas décadas de tratamento de doenças infecciosas, incluindo o surto de SARS na China em 2003 e o mais recente surto de Ébola em África, "nunca tive medo de contrair o vírus". O que não aconteceu quando visitou o Diamond Princess.

"Estava com tanto medo de ser infetado com Covid-19 porque não há como saber onde está o vírus. Não há zona verde, não há zona vermelha, em todos as zonas poderia estar o vírus", contou, acrescentando que "não havia ninguém encarregado da prevenção de infeções".

O profissional garante que observou inúmeras falhas nas medidas de controlo da infeção. Havia membros da tripulação com equipamentos de proteção, mas outros que não o tinham e andavam pelo navio espalhando o vírus por todas as áreas, caso estivessem infetados.

"Completamente caótico", descreve Kentaro Iwata. Mesmo algo tão simples como um formulário de consentimento informado impresso para autorizar testes para o coronavírus é uma fonte potencial de transmissão, disse Iwata.

Ministério da Saúde japonês diz que especialista é "um amador"

"Esse documento andava de um lado para outro, constantemente", revelou, ao mesmo tempo que descrevia que a sua sua sugestão de mudar o consentimento informado para a forma verbal não foi tida em conta. Entretanto, recebeu ordens para abandonar o navio.

Kentaro Iwata decidiu isolar-se para evitar infetar a família.

Numa série de tweets, o vice-ministro da Saúde Gaku Hashimoto, que estava a bordo do navio, afirmou que como Iwata não deu uma resposta clara sobre a razão de estar a bordo do navio, foi educadamente convidado a deixar a embarcação.

Hashimoto acrescentou que relatará o incidente ao Ministério da Saúde para entender como foi possível a entrada do especialista.

Um funcionário do Ministério da Saúde e Trabalho disse ao jornal japonês Asahi Shimbun que tinha sido um "equívoco" o facto de amadores, em vez de especialistas, terem estado a bordo do navio.

Pelas 11:00 (02:00 em Lisboa) saíram os primeiros passageiros do navio Diamond Princess, em quarentena desde 3 de fevereiro no porto de Yohokoma, a sul de Tóquio, depois de ter sido detetado pelo menos um caso de infeção com o Covid-19, cujo surto começou no final de 2019 na cidade chinesa de Wuhan (centro).

Ao longo do dia, as autoridades preveem a saída de cerca de 500 passageiros, sempre e quando o resultado das análises realizadas sejam negativos para o coronavírus. A operação de desembarque vai prolongar-se até sexta-feira.

Qualquer pessoa que tenha tido contato com um passageiro infectado terá que passar mais 14 dias em quarentena. Além disso, a tripulação começará uma nova quarentena quando o último passageiro desembarcar.

A operadora do navio, Princess Cruises, disse em comunicado que 169 pessoas que testaram positivo recentemente ainda estavam no navio enquanto esperavam para serem levadas ao hospital.

A bordo do Diamond Princess chegaram 3.711 pessoas, 2.666 passageiros, de meia centena de nacionalidades, e 1.045 tripulantes.

A Princess Cruises pertence à Carnival Corporation, uma das maiores empresas de cruzeiros do mundo.

(Notícia atualizada às 10:56 com o novo número de infetados a bordo do Diamond Princess).

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