"Como foi possível eleger um presidente ex-nazi?"

Conversa com a austríaca Ruth Beckermann, realizadora de Waldheims Waltz. Filme é exibido amanhã no Doc Lisboa e alerta para regresso da extrema-direita

"Infelizmente, vejo que os extremistas têm muito em comum. Sobretudo o medo dos estrangeiros. Isso existe em vários países europeus. E agora eles estão a unir-se. Antes lutavam uns contra os outros, mas agora tornaram-se fortes nos parlamentos, até no parlamento europeu, e isso é perigoso", afirma Ruth Beckermann, a realizadora de The Waldheim Waltz (título original em alemão Waldheims Waltz ), documentário sobre o ex-nazi Kurt Waldheim que chegou a presidente da Áustria em 1986. O filme será exibido amanhã em Portugal, no âmbito do festival Doc Lisboa e o DN falou por telefone com a realizadora, que se encontra em Viena, mas estará na estreia.

"O que me choca também é o facto de ele ser um mentiroso, se tivesse pedido desculpa pelas omissões na biografia talvez as pessoas o tivessem ouvido", sublinha Beckermann quando fala de Waldheim, presidente da Áustria entre 1986 e 1992. Nascida em Viena, filha de judeus que sobreviveram ao holocausto, a realizadora foi uma das ativistas que tanto na Áustria como fora tentaram travar a eleição de Waldheim. "Mas ele insistiu na mentira, fez-se vítima de uma alegada conspiração internacional, e apelando ao nacionalismo e também ao anti-semitismo, ganhou", acrescenta. "Como foi possível eleger um nazi presidente assim", interroga-se.

O filme, que recorre a imagens dos anos 70 e 80, algumas delas inéditas e outras feitas pela própria realizadora, mostra como um político que se tinha notabilizado como secretário-geral das Nações Unidas entre 1972 e 1981 se vê de repente no meio de uma polémica mundial graças a novos dados sobre a sua biografia. "Ao contrário do que era a sua versão, um militar que depois de ferido no início da Segunda Guerra Mundial assistira de longe ao resto do conflito como estudante de Direito, ele foi um oficial nazi nos Balcãs", sublinha Beckermann. Uma das principais acusações tem que ver com o conhecimento de Waldheim da transferência dos judeus de Salónica para campos de concentração.

"Para a juventude austríaca o nome Waldheim não diz muito. É mais uma figura, mas é importante conhecer a história dele e o que se passou durante a sua eleição para alertar para os perigos de hoje, na Áustria mas também noutros países onde a extrema-direita tem ganho terreno e a mentira também", diz a realizadora.

"Os austríacos viam-se como as primeiras vítimas do nazismo e de repente estavam sob suspeita de ser cúmplices de Hitler. Foi com isso que Waldheim e o seu Partido Conservador jogaram para reagir às críticas. Muitos eleitores que tinham sido simples soldados recrutados pela Alemanha nazi identificaram-se com o candidato presidencial, achando injusta a acusação", nota Beckermann.

"Os austríacos viam-se como as primeiras vítimas do nazismo e de repente estavam sob suspeita de ser cúmplices de Hitler"

O antigo nazi foi eleito, recompensa para a sua estratégia de dizer que eram os austríacos que deviam ter a última palavra sobre a sua história, mas tornou-se um pária internacional, proibido oficialmente de visitar os Estados Unidos e na prática a maioria dos países europeus também. Nascido em 1918, Waldheim morreu em 2007, com 88 anos, praticamente esquecido.

Quem não o esquece é Ruth Beckermann. A sua filmografia tem forte peso histórico, com a experiência judaica a ser um dos temas favoritos. Esta "Valsa de Waldheim" insere-se na sua linha de combate político e venceu recentemente em Berlim o prémio de melhor documentário. Também foi escolhido como candidato da Áustria a melhor filme estrangeiro nos Óscares. A técnica usada lembra muito A Autobiografia de Nicolae Ceausescu, de Andrei Ujica, um revelador documentário de 2010 que recorre a imagens de época do ditador romeno, na sua maioria de propaganda comunista ou tiradas de filmes da família.

Hoje a Áustria tem um presidente ecologista, mas o chanceler pertence ao Partido Conservador, o de Waldheim, e a coligação governamental integra o Partido da Liberdade, de extrema-direita, cuja primeira passagem pelo poder, em 2000, deu azo a sanções da União Europeia. "Este Partido da Liberdade tem apoiantes que são nazis, outros que votam nele em protesto, mas o grande apelo que tem é o discurso anti-imigrantes e refugiados e anti-islão", assinala a realizadora. "Nunca tiveram de defender Waldheim porque ao contrário dele não escondem a admiração pela Grande Alemanha de Hitler. Para eles, a Áustria não foi uma vítima do nazismo. A Áustria foi sim derrotada na Segunda Guerra Mundial. E celebram muito a identidade alemã num sentido de extremo nacionalismo". A realizadora lamenta ainda a atual fraqueza dos sociais-democratas austríacos, incapazes de lidar com o fim do operariado tradicional, que era a sua grande bolsa de votantes.

Ruth Beckermann diz ser uma cineasta e não uma política, reagindo um pouco ao teor das perguntas do DN, mas ao mesmo tempo admite que este filme de denúncia é muito pessoal: "é a minha vida".

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