Com o passado ao virar da esquina e pouca vontade de encará-lo de frente

Entre debates, conferências, mostras e exposições faz-se, em Moscovo, a evocação oficial do centenário da revolução. Lenine está omnipresente no dia-a-dia da cidade mas o regime evita leituras polémicas

Era o Dia da Unidade, não o de remexer nas feridas do passado. No entanto, isso não impediu centenas de pessoas de subirem as escadas apalaçadas do Museu Central de História Contemporânea da Rússia para verem fardas militares e cartazes de propaganda, documentos históricos e fotografias de personalidades controversas. A exposição "1917. O Código da Revolução" (em exibição desde março e até domingo, 12) é um dos principais eventos evocativos do centenário da revolução russa, numa Moscovo a viver um paradoxo: o passado está ao virar da esquina mas nem todos parecem querer encará-lo de frente.

À entrada da exposição, um grupo de 20/30 visitantes trava a ouvir o guia, em russo (na cidade, a sete meses do início do Campeonato do Mundo, ainda escasseia quem fale inglês). Em breve, o grupo (como a mulher que sobe de mão dada a uma menina de cinco/seis anos e os jovens que passam de telemóvel na mão), há de cruzar-se com notas e objetos pessoais de Lenine, debruçar-se sobre vitrinas com revistas, jornais e livros amarelecidos (como uma 1.ª edição de O Capital de Karl Marx), atentar nos elementos multimédia e no sem-número de artefactos que recordam os acontecimentos do ano que mudou o mundo - dos sintomas que fizeram cair o czarismo às consequências da tomada do poder pelos bolcheviques. A escolha daquele feriado - celebrado sábado, 4 - para reconhecer a memorabilia e as histórias de 1917 não deixa de ser irónica: o Dia da Unidade (que recorda a expulsão de Moscovo dos invasores polacos, em 1612) apenas foi instituído em 2005, pelo governo da Rússia, para substituir o Dia de Consentimento e Reconciliação (antigo Dia da Grande Revolução Socialista de Outubro), que seria celebrado hoje, 7 de novembro.

Política: à margem de polémicas

Na verdade, o comité organizador dos pouco mais de cem eventos evocativos da revolução russa espalhados pelo país (que é liderado pela Sociedade de História da Rússia e reúne historiadores, artistas, representantes da igreja ortodoxa e da sociedade civil) preferiu evitar expressões como "comemoração" e "celebração". "Todos estamos de acordo em que estas iniciativas não devem alimentar a discórdia nem exacerbar o debate na sociedade", sublinhou o presidente do comité organizador, Anatoly Torkunov, reitor do Instituto Estatal de Relações Internacionais de Moscovo, ao lançar a agenda evocativa da revolução russa.

Entre conferências, debates, mostras e exposições - a última "A energia de um sonho", foi inaugurada na sexta-feira, no Museu Histórico do Estado, nas imediações da Praça Vermelha - cumpre-se a evocação oficial da ascensão bolchevique, em Moscovo como no resto do país, sem espaço para apreciações subjetivas nem envolvimento do partidos políticos. Para o presidente da Rússia, Vladimir Putin, é tempo de seguir em frente - não de lembrar os traumas ou sucessos da revolução que lançou as sementes da União Soviética. "Quando olhamos para o que se passou há um século, vemos quão ambíguos foram os resultados e como houve consequências negativas e positivas. Precisamos das lições da história para a reconciliação e o fortalecimento da concórdia social, política e civil que conseguimos alcançar", sublinhou, com o foco na estabilidade do regime.

Media: longe do interesse ocidental

Seguindo a perspetiva de Vladimir Putin, a análise dos prós e contras da revolução (da qual é impossível dissociar o regime soviético, que durou até 1991) quase passa ao lado dos meios de comunicação social russos, da mesma forma que escasseiam obras sobre o tema nas maiores livrarias moscovitas - contrastando com o interesse dos media ocidentais e com os escaparates cheios que evocam a efeméride nas lojas de livros no resto do mundo. A memória de 1917 e dos anos subsequentes está mais presente nos sósias de Lenine e Estaline que se aprestam a tirar fotos com turistas e nos mercados de rua que vendem os tradicionais ushanka"s (gorros) dos guardas soviéticos ou matrioskas com as figuras dos principais líderes políticos do último século (Putin sobreposto a Boris Ieltsin, Mikhail Gorbachev, Leonid Brejnev, Nikita Khrushchev, Estaline e Lenine- e vice-versa) do que no quotidiano local - mesmo que a arquitetura da cidade, das estações de metro monumentais às avenidas de prédios comunitários de construção similar remeta para esses mesmos anos.

"Temos de aceitar a nossa história como ela é, com as suas grandes vitórias e as suas páginas trágicas", disse o presidente russo, na semana passada, na inauguração de um Mural do Pesar, de homenagem às vítimas da dura repressão que se seguiu à vitória bolchevique. Mas, para os herdeiros de Lenine e Estaline, tudo não passa de uma afronta. "Silenciaram o debate, para que as pessoas não tivessem que escolher um lado", criticou Serguei Obukhov, secretário do Comité Central do Partido Comunista da Rússia (que avançou com uma agenda alternativa de comemoração do centenário da revolução).

Nas ruas: Lenine sempre presente

A opção oficial foi feita sob o signo da concórdia - e da descrição. "Pela primeira vez em décadas, o Estado não ditou aos historiadores as suas conclusões cientificas. Pelo contrário, é muito importante para nós garantir a imparcialidade dessas conclusões", frisou o presidente da presidente da Sociedade de História da Rússia, Serguei Naryshkine (também chefe do Serviço de Inteligência Estrangeira). "A revolução deixou de dividir os nossos cidadãos e levá-los á confrontação. Vejo nisso o poder curativo do passar do tempo", disse, na semana passada, à agência TASS.

Em Moscovo, as lembranças do mentor bolchevique, Lenine, continuam a aparecer o virar da esquina: da estátua que acena a quem passa na Leninsky Prospekt, uma das avenidas mais largas, compridas e imponentes da capital russa (erguida em 1987, no 70.º aniversário da revolução, foi das últimas inauguradas pelo regime soviético), ao mausoléu que conserva o seu corpo embalsamado, na Praça Vermelha (ironicamente, em frente ao luxuoso centro comercial GUM). E a quem pede que Lenine seja, por fim, enterrado - como propôs, na semana passada, o presidente da república russa da Chechénia, Ramzan Kadyrov ("não está certo que tenhamos um cadáver no coração da Rússia, enterrá-lo seria o mais correto do ponto de vista histórico", justificou) - o Kremlin responde prontamente que isso "não está na agenda".

Os problemas para o governo russo são outros - da ameaça terrorista (ainda anteontem foram retiradas mais de 20 mil pessoas de centros comerciais, cinemas, teatros, museus e hotéis de Moscovo, devido a falsos alarmes da presença de bombas nos edifícios) à contestação popular (mais de 200 pessoas foram detidas, numa manifestação não-autorizada, na capital russa, também no domingo). E a agenda é clara: hoje, 7 de novembro, 100 anos depois do eclodir da revolução, há uma parada militar na Praça Vermelha, oficialmente para recordar a partida do Exército Vermelho para a linha da frente da II Guerra Mundial, em 1941. Aí, como na última sala da exposição "1917. O Código da Revolução", talvez ecoe A Internacional (que foi o hino soviético até 1944).

Em Moscovo. O jornalista viajou a convite do programa New Generation da Rossotrudnichestvo

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