Com França e Turquia em rota de colisão, 'Charlie Hebdo' desafia Erdogan

Numa altura em que a França e a Turquia estão em rota de colisão, a publicação satírica coloca o presidente turco na capa a levantar as vestes de uma mulher e a dizer enquanto olha para a parte desnuda: "Ouuhh. O profeta."

"Erdogan - No privado, ele é muito divertido". É este o título principal da capa da edição desta semana do Charlie Hebdo, o jornal satírico francês que, por segurança, funciona agora em parte incerta após o ataque terrorista de 2015, em Paris. É uma resposta às fortes críticas que o presidente turco tem feito a Emmanuel Macron por este pretender exercer um maior controlo sobre as atividades de grupos islâmicos, na sequência da decapitação de um professor em França que exibiu caricaturas de Maomé numa aula.

O cartoon mostra um Erdogan sentado num sofá, em roupa interior, e com uma lata numa mão. A outra está a levantar a saia de uma mulher, que não usa roupa interior. "Ouhh. O profeta", diz o presidente turco neste cartoon, quando exibe o traseiro desnudado da mulher.

Depois da publicação dos cartoons do profeta Maomé, que estiveram na origem do ataque terrorista de 2015, o Charlie Hebdo mostra que não se resigna ao medo e volta a provocar aqueles que pretendem silenciar a sátira. Desta vez, os traços desenhados apontam para dois alvos, o fundamentalismo religioso e o autoritarismo político.

A "guerra de palavras" entre França e Turquia começou com a morte do professor Samuel Paty, na semana passada, decapitado perto da escola onde tinha dado uma aula sobre liberdade de expressão e mostrou caricaturas do profeta Maomé. O presidente francês condenou o crime, defendeu a ação do professor e prometeu uma maior vigilância sobre grupos islamitas.

Recep Erdogan não gostou da defesa de alguém que exibiu caricaturas de Maomé e criticou em termos agressivos o presidente francês - questionou a sua sanidade mental -, apelando a manifestações no mundo islâmico contra a França, o que tem acontecido. Por isso, a França pediu aos seus cidadãos que sejam cautelosos e evitem as manifestações nos países muçulmanos contra a publicação de caricaturas do profeta Maomé.

Dezenas de milhares de pessoas participaram nesta terça-feira num protesto contra a França no Bangladesh, enquanto na Síria manifestantes queimaram retratos de Macron e na Líbia bandeiras francesas foram incendiadas, relata a AFP.

"É aconselhável evitar as áreas onde estão a ocorrer essas manifestações, manter-se longe das aglomerações e seguir as orientações da embaixada", informou o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês. "Recomenda-se que fiquem muito atentos, especialmente quando viajarem, e em lugares frequentados por turistas e comunidades de expatriados", acrescentava.

As representações do profeta Maomé são consideradas ofensivas por muitos muçulmanos, mas na França essas caricaturas tornaram-se um sinónimo de liberdade de expressão e da tradição laica.

Após o assassinato do professor Samuel Paty, Macron prometeu que o país "não renunciará às caricaturas".

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