Com a Europa à espera, presidente da Alemanha chama Schulz à pedra

Com a coligação Jamaica gorada, as atenções viraram-se para o SPD de Martin Schulz. O ex-presidente do Parlamento Europeu mostrou-se irredutível até agora, mas pressões para um acordo com Merkel são cada vez maiores

O presidente alemão Frank-Walter Steinmeier recebeu ontem o líder social-democrata Martin Schulz para discutirem a formação do futuro governo federal, num dia marcado por rumores sobre a demissão do ex-presidente do Parlamento Europeu, bem como do líder da CSU, Horst Seehofer.

"O SPD está plenamente consciente das suas responsabilidades na difícil situação atual. Estou certo que vamos encontrar uma boa solução para o nosso país nos próximos dias ou semanas", disse Schulz à agência DPA, antes da reunião de mais de uma hora com o presidente. O encontro fez parte de uma ronda com os líderes partidários e com o novo presidente do parlamento, Wolfgang Schaüble, promovida pelo chefe de Estado. Mas não se limitou a preencher a agenda. Steinmeier, social-democrata que suspendeu a militância ao assumir a presidência, pressionou Schulz a ser parte construtiva numa solução de governo.

Em setembro, o SPD obteve a pior votação no pós-guerra e, em consequência, Schulz concluiu que o eleitorado tinha "mostrado o cartão vermelho" à grande coligação CDU/CSU-SPD. Perante o falhanço das negociações da chamada coligação Jamaica, entre conservadores, verdes e liberais, anunciado na segunda-feira pelo líder do FDP Christian Lindner, Schulz não mudou um milímetro o rumo do partido e declarou que a melhor solução seria a convocação de novas eleições.

Além de inédito, é um cenário de concretização morosa. O presidente está constitucionalmente obrigado a designar um chanceler, que terá de ser aprovado pelo Bundestag. Pior, as sondagens dão uma ligeira queda à CDU de Angela Merkel e ao SPD de Schulz e uma subida da AfD, o partido de extrema-direita que ficou em terceiro lugar. E mostram que 58% dos eleitores querem que Merkel permaneça como chanceler.

Com Steinmeier a chamar à pedra os dirigentes políticos, a pressão passou para o segundo maior partido. E nas últimas horas começaram a ouvir-se vozes discordantes de Schulz. "Na altura, a nossa decisão foi correta, legítima e sensível. Mas a democracia exige compromissos", disse o social-democrata Johannes Kahrs à Deutsche Welle.

Para pôr mais sal na ferida, o SPD tem um congresso no dia 7 de dezembro, no qual serão eleitos novos líderes. Ontem, jornais como o Die Welt davam conta de que Martin Schulz poderia pedir a demissão na sequência das negociações.

Também foi noticiado que o líder da União Social-Cristã, o partido irmão da CDU na Baviera, se iria demitir. Mas a saída de Horst Seehofer foi desmentida.

Bruxelas e brexit à espera

Até que ponto o impasse germânico poderá alastrar-se ao coração da União Europeia? A primeira-ministra britânica Theresa May desloca-se hoje a Bruxelas para se reunir com o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, e com os líderes do Parlamento Europeu. É a primeira de três viagens a realizar nas próximas semanas e que terão o culminar no Conselho Europeu de 14 e 15 de dezembro, na qual Reino Unido e restantes 27 países da União Europeia têm como objetivo chegar a acordo sobre os termos da saída do primeiro do bloco político europeu.

O primeiro de três obstáculos a ultrapassar (sendo os outros os direitos dos cidadãos europeus no Reino Unido e vice-versa e a fronteira da Irlanda com a Irlanda do Norte) é o montante que Londres irá despender para concretizar a saída em março de 2019. Com os relatos de que a líder conservadora obteve o apoio da fação pró-brexit do governo para abrir os cordões à bolsa, em Bruxelas há esperança de que se chegue a acordo. "Sinto que as placas tectónicas estão a mexer-se. O tempo está a esgotar-se e um fracasso no Conselho Europeu não serve a ninguém", disse à Reuters um diplomata que está envolvido nas negociações.

A May é pedido dotes de malabarista para agradar aos britânicos que defendem o chamado brexit duro, sem concessões, bem como às instituições europeias e às 27 capitais. Só que o eixo franco-alemão, cujo peso é determinante para o desfecho do dossiê, encontra-se bloqueado. De Angela Merkel, em governo de gestão e preocupada em alcançar um acordo para uma nova coligação governamental, pouco se pode esperar, disseram vários diplomatas à Reuters.

Enfraquecida pela ausência do mandato democrático, Merkel não reunirá condições para baixar a fasquia, ao contrário do que se sugere do outro lado do Canal da Mancha, ou seja, aproveitar o momento para não ceder no momento de abrir os cordões à bolsa. Segundo a imprensa britânica, o executivo de May está disposto a pagar 45 mil milhões de euros, valor ainda assim abaixo do que a Comissão Europeia requer, 60 mil milhões.

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