Collins fugiu do Boko Haram e deu à luz depois de andar à deriva no Mediterrâneo

Jovem auxiliar de enfermagem dos Camarões teve filho com a ajuda dos Médicos sem Fronteiras.

Divan tem só 4 dias de vida mas a história do seu nascimento no meio do mar Mediterrâneo já deu a volta ao mundo. É um dos relatos mais bonitos e incríveis no meio de uma dura e crua realidade, aquela que separa famílias por causa das guerras e coloca os refugiados em situações de grande risco, à deriva no mar, que muitas vezes acaba em tragédia. Mas desta vez não temos de falar de morte mas sim de vida. Divan nasceu no passado domingo no barco Dignity I, uma das embarcações de resgate que a organização Médicos sem Fronteiras (MSF) tem nas águas do Mediterrâneo. A sua mãe, Collins, uma camaronesa de 25 anos, foi uma das 240 pessoas resgatadas na manhã desse domingo. Viajava num frágil barco insuflável com outras 120 pessoas, havendo entre elas seis crianças.

"Foi um resgate como muitos outros, encontrámos a embarcação de borracha às oito da manhã, onde estavam 120 pessoas apinhadas, muitas mulheres, entre elas Collins", relata ao DN Juan Matías, coordenador dos MSF no Dignity I. "A nossa parteira Astrid percebe que Collins estava já em trabalho de parto, com contrações, foi tudo muito rápido, sem complicações", sublinha aquele responsável. Collins viajou durante horas, no chão da embarcação, onde estavam sentadas as mulheres. Esta é "a parte da embarcação onde se sente mais o movimento, de on de não se vê o horizonte". Por isso é muito habitual que depois do resgate as mulheres percam o conhecimento. A jovem camaronesa, em avançado estado de gravidez, estava com muitas dores, "o habitual antes de um parto" e uma vez que já tinha dilatado o suficiente o bebé nasceu rapidamente. Sem balança para confirmar o peso do recém-nascido, os médicos calculam que tivesse três quilos. Pouco tempo depois de nascer já estava a ser amamentado pela mãe.

O Dignity I está desde o passado dia 13 de junho em águas internacionais perto de Líbia, na zona de busca e resgate, tendo já recolhido seis mil pessoas. "A nossa responsabilidade é tirá-las do perigo iminente, são pessoas que não sabem nadar, sem colete salva-vidas, que se lançam ao mar desesperadas", lembra o responsável da embarcação dos MSF. Quando o mar parece calmo, "vão logo para a água e muitas vezes encontram grandes ondas". Em julho e agosto foram muitos os botes resgatados, agora as condições climatéricas são bem mais difíceis e há menos saídas mas quando aparece um dia calmo lançam-se ao mar. 15% das pessoas resgatadas são mulheres "e muitas delas estão grávidas", confirma Juan Matías. Num outro resgate, uma das mulheres também entrou em trabalho de parto mas tiveram de retirá-la de helicóptero até um hospital porque o parto teve complicações.

Collins recebeu a todo o momento o carinho e o acompanhamento do pessoal dos MSF. Foi um momento especial para todos mas "não deixa de ser uma história preocupante", afirma o coordenador do Dignity I. "Felizmente chegámos a tempo mas Collins podia ter tido o filho no meio de 120 pessoas, coladas umas às outras, com um final bem diferente para ela e para o bebé", reflete. E lembra que Collins acabou dentro de um bote, sem ser esse o destino por ela procurado, quando abandonou a sua cidade, tal como contou a quem a assistiu.

Felizmente chegámos a tempo mas Collins podia ter tido o filho no meio de 120 pessoas, coladas umas às outras

Um dia mais tarde, Divan vai saber da história de coragem da sua mãe, que deixou nos Camarões o seu outro filho, Warren, de 2 anos, ao cuidado da avó. Auxiliar de enfermagem num hospital militar em Douala, Collins esteve dois anos sem receber salário e ela e o seu marido decidiram migrar até Banki, no Norte do país. Meses depois, o Boko Haram assumiu o controlo da cidade e Collins e o marido foram sequestrados. Passaram dois meses retidos num monte e ela conseguiu fugir com a ajuda de uma mulher idosa. O marido ficou lá e não voltou a saber dele. Assim iniciou uma viagem de seis meses por vários países, que acabou na Líbia, onde se agarrou à possibilidade de atravessar o mar para chegar à Europa. Por isso entrou naquela frágil embarcação.

Só duas horas depois do parto, quando a situação estava sob controlo dos médicos, Collins e Divan foram transferidos para um barco da Guardia Civil espanhola. "Foram os últimos a entrar, depois do resto de pessoas resgatadas, e sabemos que chegaram ao Sul de Itália na terça-feira", conta Juan Matías. "Agora deverão passar pelo processo normal, acolhidos num centro de receção de migrantes, onde lhes será dado abrigo, comida e assistência legal." O futuro de Collins não é muito sorridente, "não pode voltar para o seu país", como tantos outros homens e mulheres. Mas ter o seu pequeno Divan ao colo poderá dá-lhe ainda mais coragem do que a que demonstrou na sua longa viagem.

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