Cinco estrelas em digressão pela Europa para derrotar Renzi

No referendo de dia 4, italianos vão votar emenda constitucional para reduzir poderes do Senado. Primeiro-ministro já ameaçou que em caso de derrota abandonará a vida política.

A pouco menos de um mês do referendo sobre a reforma constitucional proposto pelo primeiro-ministro, e que em caso de derrota poderá fazer cair o governo, o maior partido da oposição quer garantir que Matteo Renzi não será salvo pelos italianos a viver no estrangeiro. Para conseguir esse objetivo, Luigi di Maio, uma das figuras mais proeminentes do Movimento 5 Estrelas, iniciou ontem em Londres uma digressão de dez dias pela Europa, na qual fará campanha pelo não.

O Movimento 5 Estrelas tem boas razões para recear os três milhões de expatriados italianos que têm direito de voto. O partido foi o mais votado em Itália nas legislativas de 2013, mas depois de contados os votos dos expatriados, a vantagem passou para o Partido Democrático de Renzi, permitindo-lhe assim formar governo. Também em 2006, foi o voto dos emigrantes que deu a Romano Prodi a sua maioria no Senado.

Por isso, Di Maio, um deputado de 30 anos que deverá ser o candidato a primeiro-ministro do partido em 2018, quer evitar que aconteça o mesmo com o referendo do dia 4 de dezembro. "Queremos explicar os riscos desta reforma aos italianos no estrangeiro porque se o sim ganhar nunca mais nos veremos livres da classe política que os obrigou a emigrar", declarou o também deputado em entrevista à Reuters. A digressão de dez dias de Di Maio começou ontem em Londres e passará por cidades como Madrid, Bruxelas, Paris e Berlim.

A economia estagnada e a falta de emprego tem levado a um aumento dos números da emigração nos últimos anos - de acordo com dados oficiais só em 2015 terão emigrado 107 mil italianos.

Manter promessa

"Se perder o referendo constitucional considerarei terminada a minha experiência política", disse o primeiro-ministro italiano em dezembro. Mas nos últimos dois meses, Renzi tem-se recusado a confirmar se pretende mesmo demitir-se em caso de derrota.

Das quase três dezenas de sondagens publicadas em outubro, apenas duas apontavam para a vitória do sim, ou seja, de Renzi. Uma delas, de 5 de outubro e feita pelo Istituto Ixè, dava 38% ao sim e 36% ao não. A outra, feita entre os dias 17 e 19 pela Demopolis, mostra 37,2% das preferências pelo sim e 35,8 pelo não. O mais recente estudo de opinião, feito entre 28 e 30 de outubro pela EMG Acqua, aponta para uma vitória do não por 37,6%, com o sim a obter 34,7%.

No entanto, com cerca de um quarto dos eleitores ainda indecisos, os especialistas em sondagens dizem que o resultado é ainda muito incerto. Mais: estas sondagens não incluem os expatriados, que segundo os mesmos analistas irão provavelmente votar no sim.

No referendo de dia 4, os italianos irão decidir se aprovam ou não a emenda da Constituição que, entre outras coisas, prevê transformar a câmara alta do Parlamento num Senado das regiões e reduzir o número de senadores de 315 para cem.

Na lista de alterações está também a introdução de um novo sistema eleitoral, o chamado Italicum, que prevê um bónus de deputados para o partido que conseguir mais de 40% nas eleições e, caso nenhum o consiga, uma segunda volta entre as duas formações mais votadas. Quem tiver mais de 40% arrecada o bónus, ou seja, 55% dos lugares da câmara baixa.

Esta reforma foi proposta por Matteo Renzi em 2014, mas não conseguiu a maioria de dois terços nas duas câmaras do Parlamento, o que obriga à realização de um referendo. Renzi diz que o seu plano é reduzir drasticamente o papel do Senado e limitar os poderes dos governos regionais, garantindo uma estabilidade governamental. A oposição defende, porém, que esta reforma irá complicar o processo legislativo e reduzir a sua fiscalização.

"Se ele perder pediremos a Renzi para manter a sua promessa e os italianos irão pedir-lhe para manter a sua promessa", declarou Di Maio, que é visto como o rosto moderado do Movimento 5 Estrelas, criado por Beppe Grillo em 2009.

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