Cimeira franco-alemã: crise migratória impõe-se na agenda

Ministros da França e da Alemanha realizam reunião anual bilateral a norte de Berlim. Migrantes e refugiados dominam ordem do dia e reforma da zona euro fica em segundo plano

A reforma da zona euro era o tema principal da cimeira franco-alemã desta terça-feira no castelo de Meseberg, a norte de Berlim. Era. Mas já não é. Isto porque a crise migratória impôs-se na agenda do presidente francês e da chanceler alemã. Emmanuel Macron e Angela Merkel terão que lidar com o tema, que se tornou impossível de continuar a ignorar. Nomeadamente depois da chegada a Espanha de 629 refugiados a bordo dos navios da frota Aquarius, após verem o pedido de desembarque recusado por Itália e Malta.

Ao aceitar receber os refugiados, o novo governo socialista espanhol, liderado por Pedro Sánchez, marcou pontos e deu provas do que é que se está a falar quando se fala de ajuda humanitária e de solidariedade europeia. Esta não é, porém, a primeira vez que uma tal situação de braço de ferro acontece entre italianos e malteses. Mas a chegada ao poder de um governo eurocético em Itália (composto pela Liga e pelo 5 Estrelas) veio alterar os dados em jogo e devolver à União Europeia a pressão para resolver a nível europeu a crise migratória.

Essa pressão já se vinha fazendo sentir por parte de países do Leste da Europa, como Hungria ou Polónia, por exemplo, os quais recusaram aplicar o sistema de quotas obrigatórias de redistribuição de refugiados pelos países da UE. Sempre advogaram, entre atitudes radicais e críticas de racismo, que era preciso uma solução mais ampla, em cooperação com os países de origem e de trânsito dos migrantes ilegais que rumam à Europa.

É uma coisa do género que exige também o partido CSU, congénere bávara da CDU de Merkel, para manter o seu apoio ao executivo de Grande Coligação da chanceler. Hoje, o líder da CSU, Horst Seehofer, que ocupa também o cargo de ministro do Interior da Alemanha, deu um prazo de duas semanas a Merkel para negociar um acordo a nível europeu sobre a questão da imigração e dos refugiados. "Desejamos muita sorte à chanceler. Não se trata de ganhar ou de perder. Mas se em julho não houver resultados a nível europeu, vamos implementar isto, pois é uma questão de funcionamento do nosso estado", declarou aos jornalistas em Munique, referindo-se à intenção de dar ordens no sentido de que todas as pessoas que já receberam ordem de expulsão serem mandadas de novo para trás nas fronteiras.

A CSU tenta com esta estratégia não perder votos para a extrema-direita nas eleições regionais de 14 de outubro na Baviera. Recorde-se que nas eleições legislativas alemãs de setembro do ano passado, o partido Alternativa para a Alemanha (AfD) surgiu como a terceira força política mais votada e conseguiu eleger 92 deputados no parlamento alemão (num total de 709). Muito do sucesso deste partido foi atribuído ao descontentamento dos alemães com a política de portas abertas de Merkel em relação aos refugiados (sobretudo vindos da Síria).

Do outro lado do Atlântico, os críticos da chanceler alemã receberam um apoio de peso. No Twitter, o presidente dos EUA criticou Merkel. "O povo alemão está a voltar-se contra os seus dirigentes à medida que a imigração abala a já frágil coligação de Berlim. A criminalidade na Alemanha é muito alta. Grande erro em toda a Europa deixar entrar milhões de pessoas que mudaram a sua cultura de modo tão forte e violentamente", escreveu Donald Trump, acrescentando noutro tweet: "Não queremos que o que se passa com a imigração na Europa se passe connosco".

Merkel, por seu lado, afirmou: "Estamos de acordo em continuar a trabalhar conjuntamente para conseguir o objetivo de melhorar a gestão da política migratória e de reduzir a chegada de refugiados". Merkel, que na segunda-feira recebeu em Berlim o novo primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, disse que apoiará o governo italiano na gestão da crise migratória e referiu a necessidade de ajudar os países de origem e de trânsito a ter estabilidade. E referiu especificamente a Líbia. Segundo dados hoje apresentados em Bruxelas pelo Gabinete Europeu de Apoio em matéria de Asilo, a Alemanha voltou, em 2017, a ser o país da UE com mais pedidos de asilo registados (222 560 solicitações). O porta-voz da Comissão Europeia, Margaritis Schinas, manifestou também na segunda-feira a sua confiança num acordo a nível europeu sobre a crise migratória. Porém, fontes diplomáticas, ouvidas pela Reuters, declararam-se muito menos otimistas.

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