"Cidade resplandecente" pode estar escondida nas margem do rio Guadalquivir

Nasceu dos sonhos de poder de um califa que nunca o foi, mas que quis construir uma fortaleza de luxo

"Tinha colunas transparentes como água e delgadas como pescoços de donzelas, bancos de mármore branco e reluzentes como cânfora perfumada e piscinas com fontes em forma de leões", escreve Antonio Pita no El País, como se estivesse a narrar uma história... ou uma lenda. A verdade é que sobre Al Medina Al Zahira pouco se sabe, a não ser o que se conta, uma vez que a "cidade resplandecente" pode estar enterrada a apenas um metro da superfície "sob seis campos de futebol, um moinho de farinha abandonado e uma saída para a autoestrada A-4", na margem esquerda do rio Guadalquivir. Neste momento, não há verbas para se proceder a escavações.

A cidade terá sido mandada erguer pelo líder de Córdova, Almançor, que quis substituir a Medina Azahara - que este ano poderá vir a ser considerada Património da Humanidade pela UNESCO. Suspeita-se que esteja localizada a este de Córdova e sabe-se que durou apenas vinte anos, até ser destruída na guerra civil que colocou um fim ao califado de Córdova. No entanto, a sua existência é confirmada em textos medievais.

Documentos do Museu Nacional Arqueológico de Madrid apontam para que tenha sido terminada no ano islâmico de 376 (987 ou 988 dC) e para que tenha sido destruída em 1009 por Muhammad Al Mahdi.

Almançor (Al Mansur - o vitorioso, em árabe) era então o governante de Al Andalus - o nome dado à Península Ibérica no século VII, a partir do domínio do Califado Omíada. Foi ele quem decidiu criar a sua própria cidade-fortaleza. "Estava obcecado por fazer o que um califa faz sem ser califa", diz Eduardo Manzano, um investigador especialista no Califado Omíada. Queria ser um califa todo-poderoso e precisava de uma cidade que o refletisse. Assim nasceu a "cidade resplandecente" ou o seu correspondente em árabe: Al Medina Al Zahir.

Quando Al-Hakam II morre, em 976, o seu herdeiro, Hisham II, tinha apenas 11 anos, o que gerou uma crise de sucessão. Almanzor exerceu uma forte influência em Subh, a mãe do herdeiro, e nos três anos seguintes consolidou o seu poder com a expansão da Medina Azahara onde o jovem califa vivia aprisionado.

Descrito como "um personagem complexo", cujo fascínio prevalece após séculos, os biógrafos mostram alguém capaz de uma "intriga cruel maquiavélica", mas apontam-no também como "justo e refinado", de acordo com Ana Echevarría Arsuaga, professora de História Medieval na UNED no livro "Almanzor, um califa na sombra".

Local escolhido de acordo com antigos presságios sobre poder e conquista

Os historiadores apontam a sua sede em construir rapidamente uma cidade fortaleza - apesar de já existir uma - porque a Medina Azahara estava muito ligada ao califado Omíada e ainda porque Almanzor desejava ter o controlo total do jovem califa, que nunca exerceu qualquer poder. Os historiadores explicam que aí residiu o sucesso de Almanzor: nunca substituiu Hisham II, até porque este era considerado um descendente do profeta Maomé.

A guerra civil que destruiu Al Andalus acontece após a morte do soberano que viveu aprisionado na cidade de luxo, quando o seu filho Abderramán Sanchuelo forçou o califa a nomeá-lo seu sucessor.

A escolha da localização de Al Zahira não foi acidental. De acordo com os antigos presságios, a cidade que se erguia ali acumularia todo o poder e perderia a dinastia Omíada. Mil anos depois, ninguém conseguiu descobrir onde estava. Uma da supostas localizações seria no parque industrial de Quemadas ou sob um hipermercado nas proximidades. O chefe do Gabinete de Arqueologia do Departamento da cidade de Córdova, Juan Murillo, aponta para uma opção mais plausível: um espaço não superior a 300 metros quadrados ao longo da margem esquerda do rio Guadalquivir e a poucos quilómetros da Catedral-Mesquita de Córdova.

Ao jornal espanhol El País, Murillo, que acompanha a questão há anos, enumera vários indícios que sustentam a sua suspeita. O primeiro deles é a existência nas proximidades de uma rede rodoviária, algo estranho uma vez que a área era considerada uma zona de inundações e só a presença de uma cidade com aquela importância justificaria uma estrada naquele ponto. Cita ainda um estudo que concluiu que o espaço onde Murillo acredita que está situada a cidade não era propenso a inundações, como as zonas circundantes, e ainda a existência de três pontes dos tempos islâmicos naquela parte do Guadalquivir, um número aparentemente excessivo se ali não existia nada de importante a registar.

No entanto, apesar das fortes suspeitas, não estão planeadas escavações para encontrar a cidade que "tinha colunas transparentes como água e delgadas como pescoços de donzelas".

"É uma questão de preservação e otimização de recursos. Agora não estão reunidas as condições, principalmente económicas (...). Os recursos devem ser gastos em outras coisas. A prioridade é a conservação do património que já está incorporado na cidade ", explica Juan Murillo

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