China admite erro. Vítimas mortais em Wuhan foram afinal mais 50%

País acrescentou 1290 mortes à contagem inicial, aumentado o valor total de óbitos na cidade de Wuhan para 3869. Entretanto, a China regista a pior contração económica desde 1970

Um mercado de animais selvagens, em Wuhan, terá sido a origem do SARS-CoV-2, e foi na cidade chinesa que o número de mortes devido à doença disparou, logo em janeiro. Mas a contagem das vítimas mortais estava errada, isso mesmo admitiu o governo da China num post nas redes sociais, segundo a AFP. A China acrescentou 1290 mortes à contagem inicial, aumentado o valor total para 3.869.

Com a retificação dos números, a China tem agora a registar 4.632 vítimas mortais de covid-19, mais 39 por cento do que na primeira contagem oficial.

A correção da contagem acontece apenas dois dias depois de uma investigação da Associated Press revelar que o país demorou seis dias para alertar a população sobre o surto - e no meio de crescentes críticas por parte de vários líderes mundiais - com Donald Trump a liderar - que sugerem que a China não foi completamente honesta quando reportou o real impacto do vírus no país.

Se às primeiras suspeitas o coro de críticas era dirigido ao presidente norte-americano - o vírus era agora global, pedia-se que não se centrassem as críticas num país já devastado pela doença - agora é a Grã-Bretanha e a França que duvidam da transparência do governo chinês.

O secretário de Relações Exteriores britânico, Dominic Raab, vice do primeiro-ministro Boris Johnson, que ainda está a recuperar depois de ele próprio ter contraído a doença, disse que haverá "perguntas difíceis" a fazer a Pequim.

O presidente francês, Emmanuel Macron, alinha pelas mesmas dúvidas. Ao Financial Times afirmou que seria "ingénuo" pensar que a China geriu bem a pandemia.

"Há claramente coisas que aconteceram e que não sabemos", disse Macron.

Na quinta-feira, o governo chinês negou que o novo coronavírus tenha tido origem num laboratório perto da cidade de Wuhan, onde amostras de doenças contagiosas estão armazenadas.

"Não há base científica para essas alegações", afirmou. "Sempre defendemos que esta é uma questão científica, que requer a avaliação profissional de cientistas e especialistas médicos", disse o porta-voz do ministério chinês dos Negócios Estrangeiros Zhao Lijianaos, em conferência de imprensa.

O governo chinês explicou que os números iniciais foram "relatados por engano" e que outros ficaram esquecidos e não chegaram a ser registados devido à turbulência dos primeiros tempos em que o país tentava gerir um vírus novo.

As autoridades de saúde de Wuhan explicaram que entre os motivos para que estas mortes não tivessem sido contabilizadas pode ter estado o facto de a equipa médica da cidade estar sobrecarregada logo nos primeiros dias do surto o que terá levado a "relatórios tardios, omissões ou informações incorretas".

Foram também apontados como motivos instalações insuficientes para a realização de testes e tratamento de doentes e ainda muitas das mortes terem acontecido em casa e não em hospitais e por isso a causa do óbito não ter sido registada corretamente.

Economia chinesa regista maior contração desde 1970

A China sofreu a pior contração económica desde 1970, no primeiro trimestre deste ano, após ter paralisado durante quase dois meses, devido às medidas para travar a epidemia da covid-19, foi esta sexta-feira anunciado.

A economia chinesa, a segunda maior do mundo, contraiu 6,8%, em termos homólogos, e a queda acentuada no consumo e atividade fabril sugerem que a recuperação será mais longa e difícil do que se previa.

Entretanto, os analistas que tinham dito que a China podia recuperar a economia afetada pela pandemia ainda este mês estão agora a mudar as previsões, à medida que os dados negativos se acumulam.

"Não acho que haverá uma recuperação real até ao quarto trimestre ou ao final do ano", apontou o economista Zhu Zhenxin, do Instituto de Finanças Rushi, situado em Pequim.

O consumo doméstico, que no ano passado compôs 80% do crescimento económico da China, afundou 19%, em termos homólogos, entre janeiro e março, abaixo da maioria das previsões.

O investimento em fábricas e outros ativos fixos, importantes impulsionadores da segunda maior economia do mundo, caiu 16,1%.

O Partido Comunista Chinês declarou vitória no combate à propagação do novo coronavírus no início de março e ordenou a reabertura de fábricas e escritórios. No entanto, cinemas, salões de beleza e outros negócios considerados não essenciais, mas que empregam milhões de pessoas, permanecem encerrados.

O turismo está também a lutar para recuperar.

Em Pequim e algumas outras cidades, medidas de distanciamento social e quarentena continuam a ser aplicadas. No final do mês passado, as autoridades chinesas baniram a entrada de estrangeiros no país, mesmo aqueles que têm estatuto de residente.

O consumo interno está também a demorar a recuperar, apesar das medidas do Governo para incentivar os gastos, através da distribuição de vales de compras e de uma campanha que mostra líderes do Partido a comer em restaurantes, visando incentivar as pessoas a voltarem a sair à rua.

Muitos consumidores estão, no entanto, receosos de gastar dinheiro, por medo de perderem o emprego e enfrentarem dificuldades financeiras. Outros continuam a temer ir a centros comerciais ou mesmo sair de casa.

"Definitivamente, vou ser mais poupado", disse um gerente de marketing de 26 anos, residente em Pequim.

Zhang Lizhou disse que a sua empresa, que ainda não reabriu, está a pagar 1.500 yuan (197 euros) por mês aos funcionários, mas que teme não poder cumprir com o crédito à habitação. A namorada perdeu o emprego, depois de a empresa falir, devido à epidemia, contou.

Trata-se de um golpe para as multinacionais europeias e norte-americanas, que esperam que a China tire a economia mundial da pior crise desde 1930.

O Partido Comunista apelou às empresas para continuarem a pagar aos funcionários e evitarem demissões, e está a prometer incentivos fiscais e empréstimos para ajudar os empreendedores a reerguerem-se.

Ainda assim, uma onda de falências inundou o mercado de trabalho.

As vendas de automóveis caíram 48,4%, no primeiro trimestre do ano, em relação ao ano anterior.

As exportações caíram 6,6%, em março passado, em relação ao ano anterior, uma melhoria em relação à queda de dois dígitos registada em janeiro e fevereiro, mas analistas alertaram que os exportadores provavelmente enfrentarão outra desaceleração, já que a luta contra o vírus paralisou, entretanto, a Europa e os Estados Unidos.

Previsões das consultoras Oxford Economics, UBS e Nomura indicaram que a China terá pouco ou nenhum crescimento económico este ano.

Pequim está a tentar estimular a atividade ao aumentar a despesa com a construção de redes de telecomunicações de última geração e outros projetos, mas o Partido no poder não quer injetar muito dinheiro na economia, temendo um forte aumento da dívida pública e da inflação, que está perto do nível máximo em sete anos.

Os líderes chineses poderão adotar medidas de estímulo pelo menos tão grandes como durante a crise financeira internacional de 2008, mas, desta vez, vão destacar "qualidade em vez de quantidade", apontou Zhu.

Zhu acrescentou que o dinheiro provavelmente será destinado ao desenvolvimento tecnológico e melhor proteção social, e não à construção maciça, como aconteceu na última década.

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