Cardeal chileno arguido por encobrir abusos sexuais

O arcebispo de Santiago vai depor na condição de arguido no escândalo de abusos sexuais de menores. Intervenção do Papa Francisco já tinha levado à demissão em bloco de todos os bispos do Chile.

A procuradoria regional de Rancagua convocou o arcebispo de Santiago, cardeal Ricardo Ezzati, para prestar declarações no âmbito da investigação ao escândalo de abusos sexuais de menores por parte de elementos da Igreja Católica.

Ezzati vai ser ouvido no dia 21 de agosto na condição de arguido para se apurar a sua "potencial responsabilidade no que pode ser um crime de ocultação", como o próprio arcebispado fez saber numa nota.

Ezzati declarou no mesmo comunicado: "Reitero o meu compromisso e o da Igreja de Santiago para com as vítimas, com a busca da verdade e o respeito pela justiça civil. Tenho a convicção de nunca ter ocultado nem de ter obstruído a justiça, e como cidadão é meu dever contribuir com todas as informações que possam ajudar a esclarecer os factos."

O arcebispo é suspeito de encobrir as atividades criminosas do sacerdote Oscar Muñoz Toledo. Toledo, antigo braço direito do cardeal, está em prisão preventiva desde o dia 13, acusado de abuso sexual e violação de sete menores.

Os procuradores que investigam os alegados crimes contra bispos, clérigos e trabalhadores leigos na Igreja Católica no Chile também estão investigando alegações de que Ezzati e outros encobriram uma rede de padres que abusaram sistematicamente de menores.

No mês passado, a polícia apreendeu documentos da diocese de Santiago.

139 suspeitos

Segundo dados do Ministério Público chileno citados pelo La Tercera, foram investigadas 158 pessoas, das quais 139 religiosos envolvidos em casos de abusos sexuais desde 1960 até aos dias de hoje.

O Ministério Público detalhou também que das 266 vítimas, 178 são crianças ou adolescentes de ambos os sexos, 31 são adultos. Desconhece-se o grupo etário das restantes vítimas, uma vez que os casos foram denunciados antes da entrada em vigor da reforma do processo penal, em 2000.

O escândalo dos abusos sexuais de menores rebentou em 2011 no Chile quando o padre Fernando Karadima foi considerado culpado pelo Vaticano por abusar de crianças nos anos 70 e 80.

O papel de Francisco

Em visita ao Chile, em janeiro, o papa Francisco não esqueceu o tema dos padres pedófilos e revelou a sua "dor e vergonha".

No entanto, o pontífice defendeu o bispo Juan Barros, acusado de encobrir os crimes de Karadima. Bergoglio disse sobre o homem que ordenou bispo, já sob polémica: "Não há uma única prova, tudo é calúnia".

Em abril, porém, o papa reconheceu ter cometido um erro de avaliação, ordenou uma investigação e convocou os bispos chilenos e vítimas de abusos.
No início de maio, Francisco afirmou ter sido "parte do problema". E em meados de maio, os bispos demitiram-se em bloco.

Juan Carlos Cruz, uma das vítimas de Karadima, disse no Twitter que Ezzati "tem pouco tempo como arcebispo de Santiago, mas a sua nova missão de responder por seu encobrimento, mentiras e outros crimes está agora a começar".

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