"Cansaço da longa viagem" leva Mujica a renunciar ao Senado

O uruguaio, que ficou conhecido como o presidente mais pobre do mundo, era senador desde que tinha deixado o poder, em 2015. Promete continuar na "luta de ideias"

O ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, de 83 anos, renunciou ao cargo de senador, alegando "cansaço da longa viagem", lembrando contudo que isso não significa que renuncia "à solidariedade e à luta de ideias".

A renúncia foi feita numa carta enviada à presidente do Senado, que é também a mulher de Mujica, Lucía Topolansky. A carta foi publicada no Twitter do Movimento de Participação Popular, o partido de ambos, que pertence à coligação no poder, Frente Ampla.

Mujica, que esteve no poder de 2010 a 2015 e ficou conhecido como o presidente mais pobre do mundo, fala em motivos pessoais para se afastar: "Diria 'cansaço da longa viagem'." Na missiva diz ainda que "o caráter de renúncia voluntária e a legislação vigente apontam que não corresponde o benefício do subsídio estabelecido, porque vou receber reforma".

"Enquanto a minha mente funcione, não posso renunciar à solidariedade e à luta de ideias", escreveu Mujica na carta.

O pedido de renúncia foi aprovado na terça-feira pelo Senado. "Ele vai continuar a fazer política desde outro lugar e, nesse sentido, nós votamos [a renúncia] convencidos de que está no seu direito de tomar esta determinação", disse a senadora Daniela Payssé, da Frente Ampla.

"Se alguma vez, no calor dos debates, possa ter ferido algum colega a nível pessoal, peço as minhas sinceras desculpas", acrescentou na missiva.

Percurso

José Mujica nasceu a 20 de maio de 1935 em Montevideu e, quando era jovem, militou no Partido Nacional (atualmente na oposição). Nos anos 1960, juntou-se ao Movimento de Libertação Nacional - Tupamaros, uma guerrilha urbana, responsável por assaltos, sequestros e execuções. Nos confrontos com as autoridades levou seis tiros e esteve preso em quatro ocasiões, tendo passado 14 anos atrás das grades.

Depois do golpe de Estado de 1973, fez parte de um grupo de guerrilheiros que foi alvo de torturas, tendo sido mantido isolado. "Esses anos de solidão foram provavelmente os que mais me ensinaram. Estive sete anos sem ler um livro. Tive de repensar tudo e aprender a refugiar-me dentro de mim por momentos, para não dar em louco", recordou numa entrevista à BBC, a meio do mandato.

Pepe, como é conhecido, recuperou a liberdade em 1985, graças a uma amnistia. Uma década depois, foi eleito deputado pelo partido Movimento de Participação Popular, da coligação Frente Amplia - que em 2004 elegeu Tabaré Vásquez para a presidência e acabou com a hegemonia dos partidos tradicionais (Partido Nacional e Partido Colorado). Tabaré Vásquez seria reeleito novamente, após o mandato de Mujica.

Mujica, que tinha sido eleito senador em 1999, ocupou a pasta de ministro do Gado, da Agricultura e Pescas no novo governo. Deixou o cargo em 2008, candidatando-se depois às primárias dentro da Frente Amplia para a presidência. Após o seu mandato no poder, durante o qual ficou famosa a decisão de legalizar a venda de marijuana, descriminalizar o aborto e dar luz verde aos casamentos homossexuais, voltou ao Senado. Renuncia agora a esse cargo.

Para os seus críticos, foi um presidente que permitiu o aumento do crime, sendo também atacado pela sua proximidade a líderes como o venezuelano Hugo Chávez (já falecido) ou a argentina Cristina Kirchner.

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