Cangaço moderno. Onda de assaltos aterroriza cidades inteiras no Brasil

No intervalo de 24 horas, em Criciúma, no sul do país, e em Cametá, no norte, dezenas de criminosos fortemente armados roubaram bancos e fizeram quem circulasse nas ruas de reféns. "São muito mais organizados do que o estado", acusa especialista

Na terça-feira, dia 1 de dezembro, os bares do centro da cidade brasileira de Cametá encheram-se, como sempre nas noites de futebol na televisão, mesmo na pandemia. Desta vez, o jogo estendeu-se até quase de madrugada porque Flamengo, do Brasil, e Racing Avellaneda, da Argentina, precisaram de desempatar o duelo dos oitavos-de-final da Taça dos Libertadores através de grandes penalidades. Mas, de repente, uma chuva de tiros disparada por dezenas de encapuzados chegados na escuridão em carros e motos substituiu a emoção dos penáltis pelo pânico generalizado.

Durante mais de uma hora e meia, a quadrilha, que visava assaltar uma agência do Banco do Brasil nas imediações, fez os clientes de um bar de escudo humano na troca de tiros com a polícia. Um deles, Alessandro Jesus Lopes, que trabalhava como animador de farmácia, acabaria morto. "Os bandidos bateram muito na gente", queixou-se um dos reféns em áudio disseminado na internet, "mas felizmente acabou, largaram-nos na estrada e acabou", contou outro sobrevivente.

Para ganhar tempo, os criminosos começaram por incendiar o quartel do 32º Batalhão da Polícia Militar do Pará, deixando os agentes da autoridade isolados. Depois, usando armas de alto calibre e explosivos, dispararam rajadas para o ar de forma a afastar curiosos de dentro das casas e das ruas adjacentes.

Às portas da cidade de 235 mil habitantes, a quadrilha deixara carros e barcos - há quatro portos fluviais em Cametá - para facilitar a fuga por estrada e pelos rios logo após o assalto.

A polícia não tem pistas além de restos de dinamite ainda dentro de Cametá e de uma carrinha com explosivos na estrada que liga a cidade à vizinha Tucuri.

O Banco do Brasil, em nota, recusou-se a falar do eventual prejuízo mas o governador do Pará, Helder Barbalho, garante que os ladrões erraram o cofre e não levaram nada.

A papel químico

Este tipo de crime - conhecido como "Vapor" ou "Cangaço Moderno" - não é invulgar no Brasil, em geral, nem no Pará, em particular, onde se registaram 51 casos semelhantes nos últimos quatro anos.

Por sua vez, no estado de São Paulo, o mais populoso e mais rico do país, houve sete assaltos do mesmo género desde 2018.

O que surpreende é que o episódio no Pará tenha ocorrido exatamente 24 horas depois de um idêntico, noutro extremo do país, em Criciúma, estado de Santa Catarina, cidade com 220 mil habitantes, a mais de 3500 km em linha reta e cerca de 50 horas de viagem de Cametá.

Exatamente à mesma hora mas de segunda-feira, uma ação com aproximadamente o mesmo tempo de duração, visou também uma agência do Brasil e, como no dia seguinte, fez as pessoas que circulavam na rua, no caso funcionários da prefeitura de Criciúma que asfaltavam uma via, de escudo humano. Como em Cametá, os assaltantes atearam previamente fogo ao batalhão da polícia.

Em Criciúma, não houve mortes a lamentar mas um agente da polícia foi operado e continua hospitalizado em estado grave. Como no Pará, as autoridades investigam viaturas, no caso 10 carros de luxo, todos pintados de preto, abandonados em Nova Veneza, nos arredores da cidade.

No caso da cidade do sul do Brasil, porém, as investigações estão mais avançadas: nove suspeitos de pertencerem à quadrilha foram detidos, oito homens no estado do Rio Grande do Sul, que faz fronteira com Santa Catarina, e uma mulher na cidade de São Paulo, alvo de uma denúncia. Com ela, a polícia encontrou malas com dinheiro do Banco do Brasil que serão alvo de perícia nas próximas horas.

Sem informações oficiais do Banco do Brasil sobre a quantia roubada, sabe-se no entanto que os encapuzados deixaram 810 mil reais [cerca de 130 mil euros] espalhados pelas ruas do centro da cidade.

Como no tempo de Lampião

"Cangaço Moderno" é uma expressão que remete à onda de violência no sertão nordestino entre os séculos XVIII e XX associada às ações de bandos itinerantes - os cangaceiros - que roubavam instituições financeiras e atacavam quartéis policiais de cidades pequenas e médias.

Virgulino Ferreira da Silva (1898-1938), conhecido como Lampião, ficou conhecido como "Rei do Cangaço" e inspirou, assim como a sua companheira Maria Bonita, dezenas de filmes, séries de televisão, músicas, livros e peças de teatro.

O que pode espantar, no entanto, é que o Brasil do século XXI seja ainda vulnerável a estes métodos.

"Não, não espanta", diz o professor da Fundação Getúlio Vargas e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública Rafael Alcadipani ao DN. "Porque não tem como dar certo aquilo que tem tudo para dar errado".

"As cidades, sobretudo essas de médio porte, estão completamente nas mãos dos criminosos, só combatidos por agentes da polícia cheios de voluntarismo e não muito mais porque falta articulação no Brasil entre os estados e entre as polícias". "É uma bagunça completa", afirma.

"Nos Estados Unidos, que têm tamanho comparável ao Brasil", prossegue o especialista, "há base de DNA e de digitais, aqui, um polícia do Rio Grande do Sul não tem meios para saber se um bilhete de identidade de um cidadão registado em São Paulo é verdadeiro ou falso".

Em resumo, "as quadrilhas são muito mais organizadas do que o estado brasileiro".

A segurança pública, entretanto, era considerada uma das áreas - talvez a única - de expertise do presidente da República, Jair Bolsonaro, capitão reformado do exército e defensor do lobby das polícias durante quase 30 anos como congressista. Essa área foi, aliás, presenteada com um "superministro", o entretanto demitido ex-juiz Sérgio Moro, que se ocupou dessa pasta e da da justiça em simultâneo.

"Governo fala demais e faz de menos"

No entanto, diz Alcadipani, não houve evolução. "Porque discursos não mudam realidades, a bravata pela bravata não resolve, o governo fala demais e faz de menos, deixou inclusivamente de lado o plano estrutural de organização que começou a ser feito, este tipo de tragédias, que podem piorar e até alastrar-se, são anunciadas".

Gilmar Mendes, juiz do Supremo Tribunal Federal, defendeu a criação de um sistema único de segurança, à semelhança do sistema único de saúde, que une todas as informações médicas do Brasil.

"Desde a minha gestão na presidência do Conselho Nacional de Justiça eu coloquei a ideia de criar para a segurança pública um sistema único, nós temos agora este episódio de Criciúma e depois o de Cametá, a proposta da segurança pública mostra que nós temos que desenvolver esse modelo de federalismo cooperativo do qual o sistema único de saúde é um bom exemplo, um êxito, no Brasil".

Alcadipani, entretanto, não acredita que os episódios de Cangaço Moderno em Criciúma e Cametá sejam necessariamente obra do crime organizado, em especial do Primeiro Comando da Capital (PCC), com sede em São Paulo.

"Nos últimos cinco, seis anos houve outros episódios de cidades tomadas por criminosos, sobretudo no estado de São Paulo, em cidades como Santos ou Botucatu, a situação de Criciúma, ao que tudo indica, foi protagonizada por essas quadrilhas que atuam em São Paulo, no entanto, em Cametá, pela distância, não é lógico que tenha sido a mesma".

"Não necessariamente, o PCC está por trás de tudo, pode até fornecer apoio logístico, como armas e treino, mas não é líquido que seja um ato da organização".

Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público, afirma que há, só em São Paulo, cinco quadrilhas especializadas em roubos a bancos e carros blindados. "São todos integrantes do PCC, pelo que é possível que integrantes de peso da organização tenham participado do assalto de Criciúma", afirmou ao portal R7.

"Não são planos elaborados da noite para o dia. Os organizadores visam agências distribuidoras do Banco do Brasil porque, normalmente, sabem quando estarão abastecidas e, por isso, vão nos dias certos".

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