"Candidata antissistema, Marine Le Pen acaba por pertencer ao sistema que critica"

Chefe de redação da revista Le Point, Said Mahrane acompanha há mais de 15 anos os temas ligados à Frente Nacional e é um dos coautores de La Face Crashée de Marine Le Pen

Porque é que considera ser importante mostrar a "face oculta" de Marine Le Pen, a atual líder da Frente Nacional (FN)?

Quisemos mostrar até que ponto Marine Le Pen, que se apresenta como candidata "antissistema", acaba por pertencer ao sistema que critica. Tal como os outros candidatos, Nicolas Sarkozy ou François Hollande (antigo e atual presidentes de França), ela consome sondagens, recorre a assessores de imprensa, é eurodeputada, acumula mandatos, como outros, no partido, quando é convocada pelos tribunais evoca a imunidade parlamentar, como muitos antes dela, aparece na televisão, frequenta restaurantes seletos nos bairros caros...

Ela tem reais possibilidades de se tornar presidente de França? Até hoje os resultados da FN nas urnas estiveram sempre aquém das previsões das sondagens...

Eu penso que ela não vai ser eleita, pelo menos em 2017, pois não tem uma estratégia para a segunda volta das presidenciais, uma vez que, até agora, rejeita quaisquer concessões e compromissos sobre o seu programa. Ela tem de conseguir reunir pelo menos 51% do eleitorado, o que parece hoje bastante difícil. A única novidade relativamente ao passado é que, quando Jean-Marie Le Pen chegou à segunda volta das eleições presidenciais, no ano de 2002, isso foi uma surpresa total, enquanto agora é algo esperado ou pelo menos previsto há mais de um ano.

O livro La Face Crashée de Marine Le Pen (A face oculta de Marine Le Pen) retoma informações sobre escândalos da FN que não são revelações. Porque é que não conseguiram abalar a popularidade do partido?

Toda a gente fala da "desdiabolização" para explicar o sucesso da FN, mas ninguém fala da diabolização paralela da classe política. Enquanto o partido se "desdiabolizava" com o afastamento de Jean-Marie Le Pen, ao mesmo tempo, desde há dez anos que tanto o Partido Socialista como o UMP/Republicanos multiplicam os escândalos político-judiciais. Marine Le Pen também foi alvo de escândalos, mas os franceses consideram que é diferente, uma vez que o partido nunca esteve no poder e preferem dar-lhe uma oportunidade.

Marine Le Pen teria hoje condições para governar?

Eu conheço bem as pessoas próximas da candidata da Frente Nacional e não consigo imaginá--los amanhã a governar a França, não vejo ninguém que pudesse assumir pastas como a Justiça ou a Defesa. Ao mesmo tempo, há uma divisão dentro do partido entre Marine Le Pen e a fação mais próxima dos valores identitários. Marine Le Pen é bastante laica, recusou desfilar contra o casamento homossexual, defende valores mais progressistas. Pelo contrário a sobrinha, Marion Maréchal Le Pen defende valores mais tradicionalistas, próximos dos católicos integristas. No plano económico, a sobrinha é mais liberal enquanto a tia é muito mais protecionista e pensa que o Estado deve dirigir a economia.

O que acontecerá se Marine Le Pen perder as eleições de 2017?

Penso que se não conseguir chegar à segunda volta, muitos irão exigir que regresse aos valores fundamentais do partido, e que aposte mais nos valores identitários e nas questões como a imigração do que sobre a política social.

Em Lyon

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