Brexit faz disparar crimes de ódio. Corbyn apela à união do Labour

Polícia revelou que ataques aumentaram 42% entre 16 e 30 de junho

A 25 de junho, um dia depois de ser conhecido o resultado do referendo sobre o brexit, a polícia britânica recebeu a denúncia de 289 crimes de ódio a nível nacional. Foi o valor mais alto nas duas semanas entre 16 e 30 de junho, quando as autoridades registaram um aumento de 42% no número deste tipo de crimes de motivação racial - num total de 3076 incidentes, mais 915 do que no mesmo período do ano anterior. Mas o número pode ser muito pior: estudos anteriores sugerem que apenas um em cada quatro crimes são denunciados.

"Isto é inaceitável e mina a diversidade e a tolerância que deveríamos estar a celebrar", disse o porta-voz da polícia britânica, Mark Hamilton. O aumento dos crimes de ódio surge depois de uma campanha que ficou marcada pelos temas da imigração, com os críticos a acusarem o campo do brexit de ter usado a xenofobia e o racismo para passar a mensagem de que a saída do Reino Unido da União Europeia iria travar a entrada de estrangeiros.

A polícia disse que o principal tipo de ofensa registado nestas duas semanas foi "violência contra a pessoa", isto é, assédio, agressões e outros tipos de violência, como abuso verbal, empurrões ou cuspidelas. Houve ainda registo de ofensas à ordem pública e danos a propriedades. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, já revelou um plano de ação para travar este tipo de crimes, que passa por fomentar as denúncias e apoiar as vítimas.

Apelo de Corbyn

"O Reino Unido está dividido e inseguro. Anos de austeridade destrutiva e de um modelo económico desajustado resultaram num país com insegurança laboral, falta de habitação a custos acessíveis, trabalho temporário, cortes salariais e cada vez mais desigualdade. Desde que os eleitores decidiram deixar a União Europeia, essas divisões cresceram mais", escreveu o líder do Labour, Jeremy Corbyn, num artigo no The Guardian, intitulado "Não podemos deixar as negociações com a Europa nas mãos dos Tories".

Mencionando também o aumento dos incidentes xenófobos e racistas, Corbyn avisa que os que estão na corrida para suceder a Cameron "não têm um plano de saída", defendendo ser necessário "liderança e uma estratégia clara". Isto numa altura em que a sua própria liderança do Labour está a ser posta em causa, depois de ter perdido a confiança da maioria dos deputados trabalhistas.

Mas Corbyn não desiste, congratulando-se no artigo com o facto de o Labour ter ultrapassado o meio milhão de militantes - mais cem mil desde o referendo. "Os que querem desafiar a minha liderança são livres de o fazer numa eleição democrática, na qual serei candidato", disse, acrescentando: "A responsabilidade de todo o nosso partido é uma oposição unida contra o governo dos Tories. Se nos unirmos, podemos vencê-los."

Apesar dos apelos, Corbyn deverá ser desafiado nas próximas horas para uma disputa pela liderança pela ex-ministra-sombra Angela Eagle. A deputada já terá reunido entre os colegas do Parlamento as 50 assinaturas necessárias, estando apenas a adiar oficializar a disputa na expectativa de que Corbyn renuncie à liderança.

Entre os que defendem a sua saída está o antigo líder do Labour Neil Kinnock (1983-1992), que num discurso numa reunião à porta fechada do partido (que foi gravado e divulgado nas redes sociais), alega que Corbyn é "inelegível" e que os seus apoiantes precisam de "acordar" e perceber que ele nunca será primeiro-ministro.

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