Brasil terá de viver sob ameaça do "homem bomba" Eduardo Cunha

Temer, o governo, o Congresso, o Supremo, o mercado e até Lula prendem a respiração após prisão do ex-líder da Câmara dos Deputados. "Um criminoso serial", segundo Sergio Moro

A prisão na Operação Lava-Jato de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, mentor do impeachment de Dilma Rousseff e um dos homens mais poderosos de Brasília nos últimos anos, foi festejada como um golo da seleção do Brasil pelo cidadão comum mas faz tremer todos os poderes do país. No governo de Michel Temer, seu velho aliado no Partido do Movimento da Democracia Brasileira (PMDB), engole-se em seco. No Congresso, parlamentares rezam para não serem citados em delação pelo ex-chefe. O mercado teme que os poderes executivo e legislativo, amedrontados, adiem as reformas liberais que se preparavam para aprovar. O Supremo Tribunal Federal (STF) viverá em xeque pela demora em agir, por contraste com o juiz de primeira instância Sergio Moro, que precisou de poucas horas para prender. E até no Partido dos Trabalhadores (PT) o momento é de apreensão.

Desde a prisão de Eduardo Cunha, o Palácio do Planalto limitou-se a uma tímida nota divulgada pela secretaria de imprensa do governo: "Não há preocupação nenhuma com eventual delação", apesar de nos dias anteriores à prisão, Cunha ter atacado Moreira Franco (PMDB), assessor especial e amigo íntimo de Temer, e sogro de Rodrigo Maia, sucessor do próprio ex-deputado na presidência da Câmara dos Deputados. "Não ficarei surpreendido se a delação pegar o PMDB em cheio, ele era um grande lobista e operava há muito tempo no partido", disse o deputado peemedebista Jarbas Vasconcelos, um dos raros a falar em público. "Cunha conhece os mais recônditos segredos de Temer", escreveu Ricardo Noblat, blogger do jornal O Globo para quem "a prisão dele acelera os batimentos cardíacos da República".

A única reação do Congresso foi dada informalmente por deputados e senadores que, surpreendidos com a detenção à hora de almoço, circulavam assustados pelas churrascarias de Brasília, ao telefone, em muitos casos com jornalistas, a quem lamentavam off the record ter escolhido "uma profissão de alto risco". "A maioria dos deputados nem usou as suas contas no Twitter ou perfis no Facebook para fazer críticas ou projeções sobre o ex-colega, é melhor não cutucar a memória nem dar ideias ao mais poderoso presidente da Câmara desde Ulysses Guimarães [líder dos deputados de 1985 a 1989]", notou José de Toledo, no jornal O Estado de S. Paulo.

Colunas de jornalistas económicos, fizeram eco do temor da alta finança, não só com o que Cunha pudesse expor das relações partidos--empresas que o ex-deputado do-mina como poucos, mas sobretudo com a perda de autoridade do governo Temer, decorrente da sua prisão, para fazer aprovar medidas duras. Vinícius Torres Freire escreve no Folha de S. Paulo que nos "donos do dinheiro grande" a prisão alerta para "a possibilidade de encrenca maior na aprovação de leis em tese dedicadas a dar um jeito na economia deprimida". O diretor-geral da Standard&Poor"s Roberto Sifon-Arevalo avaliou a prisão de Cunha como "situação de risco".

Em incómodo silêncio, os 11 juízes do STF leram críticas à sua proverbial inatividade - tiveram o dossiê Cunha em mãos por longos meses, entregaram-no há uma semana a Sergio Moro e o juiz de primeira instância agiu na hora. "A prisão de Eduardo Cunha não deixa de representar uma bofetada na cara do STF", argumenta Roberto Dias, colunista do Folha de S. Paulo.

Também no PT o tom é de prudência. A prisão derruba o argumento de que a Lava-Jato é seletiva e parcial: "Como atacam Lula por causa de uns imóveis que não lhe pertencem e deixam Cunha solto?", costumavam acusar dirigentes petistas. Agora, Cunha está preso. Quem se segue? "Nas redes sociais, petistas e antipetistas têm apostado a alma que a prisão de Cunha não passa de pretexto para preparar o caminho para outra detenção, a do presidente Lula", escreveu o colunista do Yahoo Brasil Matheus Picchonelli.

O que oferece esperanças a todos os envolvidos é que a Cunha não bastará delatar. "Terá de cuspir fogo", disseram os investigadores da Lava-Jato. As acusações que pesam sobre ele são tão sólidas e graves - foram bloqueados 220 milhões de reais em seu nome (mais de 60 milhões de euros) - que para obter a redução de pena, a compensação dada pelo instituto da delação premiada, o delator terá de se esforçar. "A dimensão e o caráter serial dos crimes, estendendo-se por vários anos, é característico do risco à ordem pública", escreveu Moro no despacho. Cunha, que já tem cem páginas escritas de um livro sobre o processo de impeachment para publicação no Natal, está disposto a contar o muito que sabe. Para livrar da justiça a mulher, a antiga jornalista da TV Globo Cláudia Cruz, e a filha de ambos, que respondem a Moro por cumplicidade nas ações do Cunha, e, claro, por vingança. Há um mês, quando foi deposto pelos seus pares do cargo de deputado, Cunha lançou um ameaçador "hoje sou eu, amanhã serão vocês" que ainda ecoa em Brasília.

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