Braço-de-ferro no governo alemão devido à política migratória

Sinais contrários na Europa sobre a política migratória. Se Itália e França mostraram vontade de encontrar um denominador comum, o governo de Angela Merkel encontra-se ameaçado devido ao desentendimento entre a chanceler e o ministro do Interior sobre um novo plano diretor.

Milhares de alemães foram informados de que a União Democrata-Cristã (CDU) e a União Social-Cristã (CSU), partido irmão da Baviera, que a aliança iria ser dissolvida. Não passou de um mal-entendido: o tuíte original era de uma conta gerida pelo jornal satírico Titanic mas passou por uma rádio local, a Hessischer Rundfunk, e rapidamente foi difundido por alguns dos principais media.

O facto de ter sido noticiado não diz só sobre a facilidade com que hoje se propagam notícias falsas, mas sobretudo porque o cenário - impensável há um ano - não é agora impossível. O governo de coligação liderado por Angela Merkel encontra-se a meio de uma crise aguda. De um lado, o ministro do Interior, Horst Seehofer, que tem um plano diretor de 63 pontos sobre a migração para levar à aprovação, do outro a chanceler, que discorda de um controverso ponto, o que prevê a expulsão do território alemão de migrantes que já tenham sido registados noutro Estado da UE ou a quem lhes tenha sido recusado asilo.

O ministro e líder da CSU recebeu um inesperado mas inequívoco apoio: uma sondagem publicada pelo canal público ARD conclui que 86% dos alemães são a favor de acelerar as deportações de quem vê o pedido de asilo rejeitado. E 62% dos inquiridos defendem que os migrantes sem documentos devem ser barrados à entrada do país.

O confronto entre estas duas visões levou a que os dois partidos multiplicassem reuniões nos últimos dias. Hoje foi noticiado, e depois desmentido, que o antigo ministro das Finanças e atual presidente do parlamento, Wolfgang Schäuble, teria sido convidado para atuar como mediador do conflito.

É esperado um desenlace até segunda-feira. Nesse dia, há uma reunião da CSU em Munique - as eleições regionais disputam-se em outubro - e espera-se que, se não houver um acordo, Seehofer irá valer-se da sua autoridade e anunciar a nova política de controlo de fronteiras.

A partir daí pode abrir-se um conflito que poderá terminar com a demissão de Seehofer ou levar o tema ao Bundestag, pedindo uma moção de confiança.

Angela Merkel defende que o problema não deve ser resolvido de forma unilateral, mas no contexto europeu. Com o conselho europeu dos dias 28 e 29 dedicado em parte ao tema, a chanceler queria adiar a discussão interna.

Macron e Conte encerram conflito

Em Paris, um almoço de trabalho de duas horas entre Emmanuel Macron e Giuseppe Conte selou o conflito diplomático devido à troca de argumentos sobre a gestão do acolhimento dos migrantes a bordo do Aquarius. O governante italiano anunciou que vai apresentar na cimeira europeia "uma radical mudança de paradigma" sobre a questão migratória.

Ambos concordaram que a "boa resposta é europeia": querem mudar as regras da convenção de Dublin, que sobrecarrega os países do sul da Europa; reforçar a proteção das fronteiras através do reforço da agência Frontex; e criar centros europeus de triagem de migrantes nos países de origem. "Nos últimos anos faltou eficiência e solidariedade na Europa", reconheceu Macron.

A política de migração na Europa

Itália
- O novo governo de coligação entre o Movimento 5 Estrelas e a Liga tem no programa a expulsão de meio milhão de imigrantes. O líder da Liga e ministro do Interior Matteo Salvini reiterou que acabou o tempo em que Itália "tem de inclinar-se e obedecer". O país recebeu mais de 700 mil migrantes desde 2013 e Roma queixa-se de que os esforços têm de ser repartidos com os restantes países da UE, pelo que vai apresentar uma proposta de "mudança de paradigma".

França
- O presidente francês viu-se no meio de uma controvérsia ao criticar a posição do executivo italiano de não receber o Aquarius, com 630 migrantes a bordo. Mas de pronto foi acusado de hipocrisia pelos transalpinos. Em Ventimiglia, na fronteira com a França da Côte d"Azur, as autoridades francesas devolveram a Itália dezenas de milhares de africanos.

Malta
- Passou quase despercebido, mas Malta também não aceitou o Aquarius e o governo de La Valletta envolveu-se numa troca de argumentos com Roma. O primeiro-ministro Joseph Muscat alegou estar a cumprir as leis internacionais.

Espanha
- O país que abriu o porto de Valência para receber o Aquarius viu os novos governantes dizerem não esperar que esta medida fosse um chamariz. Nas últimas horas, as autoridades marítimas resgataram 686 pessoas, quatro delas já cadáveres, no Estreito de Gibraltar e no Mar de Alborão. O número de pessoas a chegar a Espanha pela via marítima triplicou em 2017.

Alemanha
- O governo está dividido quanto ao plano diretor que o Ministério do Interior quer instaurar, em contramão à política de portas abertas de Merkel.

Áustria
- O chanceler Sebastian Kurz quer formar um eixo com a Alemanha e a Itália para uma nova política de controlo da migração.

Grupo de Visegrado
- Hungria, Polónia, República Checa e Eslováquia apoiam Itália, mas não querem partilhar o acolhimento de migrantes.

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