Boris Johnson promete cumprir o Brexit, unir e dinamizar o país e derrotar Jeremy Corbyn

O homem que liderou a campanha pelo Brexit entre os conservadores venceu a corrida à sucessão de Theresa May com 66,3% dos votos. Boris Johnson quer "cumprir o Brexit e derrotar Jeremy Corbyn".

Boris Johnson é o novo líder dos tories com 92153 votos, numa votação que teve a participação de 87,4% dos cerca dos membros do partido. Jeremy Hunt obteve pouco mais de metade dos votos, com 46656 votos. No breve discurso de vitória, o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros prometeu "cumprir o Brexit e derrotar Jeremy Corbyn", o líder da oposição.

Boris Johnson começou por cumprimentar o "formidável" Jeremy Hunt -- os dois estavam sentados lado a lado na plateia do centro de congressos QEII quando foram anunciados os resultados -- e disse que iria "roubar" as suas ideias de campanha. Com o sentido de humor que lhe é conhecido, Boris Johnson dirigiu-se aos militantes: "Sei que há pessoas que vão questionar a sabedoria da vossa decisão." De seguida, disse que é chegado o momento de "reconciliar dois nobres pares de instintos", a amizade com os aliados europeus e um "desejo simultâneo de autogoverno democrático".

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Após ter dito que a sua campanha se centrava em quatro temas, cumprir o Brexit, unir o país, derrotar Jeremy Corbyn e dinamizar o país, no acrónimo em inglês DUDE ("meu") proclamou: "Meu, vamos dinamizar o país! Vamos acreditar em nós, vamos acabar com a negatividade, vamos unir este país fantástico (...) A campanha terminou e o trabalho começa."

De Donald Trump a Jeremy Corbyn

As reações à eleição de Boris Johnson como líder dos tories foram as mais desencontradas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou o Twitter para felicitar o homem que em tempos o chamou de "surpreendentemente ignorante". "Parabéns a Boris Johnson por se tornar no novo primeiro-ministro. Ele será ótimo!"

Na mensagem de parabéns de Theresa May, esta prometeu dar-lhe apoio e disse que é necessário "um Brexit que funcione para o Reino Unido no seu todo e manter Jeremy Corbyn fora do governo".

Já o líder da oposição, que não felicitou Boris Johnson, destacou o facto de este ter "recebido o apoio de menos de cem mil membros do Partido Conservador com a promessa de cortar impostos para os mais ricos, apresentando-se como amigo dos banqueiros e a fazer pressão para um prejudicial Brexit sem acordo". E na mensagem seguinte, Jeremy Corbyn escreveu: "O povo deste país deve decidir quem deve ser o próximo primeiro-ministro através de eleições."

O deputado trabalhista John McDonnell preferiu atacar a qualidade do discurso de Boris Johnson, "dolorosa e embaraçosamente desanimador. Foi como um mal preparado discurso depois do jantar no clube de golfe local."

A futura presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, recebida no Palácio do Eliseu por Emmanuel Macron, reconheceu que ambos terão "muitos e difíceis assuntos para tratar juntos", em "tempos desafiantes". "É muito importante criar uma forte e boa relação de trabalho porque temos o dever de apresentar um resultado bom para os povos da Europa e do Reino Unido", disse a dirigente alemã.

Já o presidente francês, Emmanuel Macron, aproveitou para deixar uma palavra de agradecimento a Theresa May e disse estar entusiasmado por vir a trabalhar com Boris Johnson, não só nas questões europeias e nas negociações ligadas ao Brexit, mas também sobre as questões de segurança internacional, como é o caso do Irão.

O chefe das negociações entre a Comissão Europeia e o Reino Unido, Michel Barnier, disse estar ansioso por trabalhar "de forma construtiva" para facilitar a ratificação do acordo de saída e lembrou que Bruxelas está aberta a trabalhar numa nova declaração sobre as relações futuras (mas não sobre o acordo nem sobre o mecanismo de salvaguarda, ou backstop).

O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Javad Zarif também deu os parabéns ao futuro primeiro-ministro, numa mensagem em que acusa o governo de May de "pirataria" por ter apresado um petroleiro iraniano. "O Irão não procura o conflito. Mas temos 1500 milhas de costa no Golfo Pérsico. Essas águas são nossas e vamos protegê-las", afirmou.

O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, também saudou Boris Johnson e disse esperar o reforço das relações turco-
-britânicas. "Acredito que as relações entre a Turquia e o Reino Unido vão florescer ainda mais durante esta nova era", escreveu no Twitter o líder da Turquia. Boris Johnson tem origens turcas, pela parte do pai.

Moody's alerta para risco de saída sem acordo do Reino Unido da UE

A agência de rating Moody's considera que a eleição de Boris Johnson como líder do Partido Conservador e sucessor de Theresa May aumenta o risco de um Brexit sem acordo e alerta para os efeitos negativos para o país.

"Com a eleição de Boris Johnson como líder do partido Conservador e novo primeiro-ministro, o risco de o Reino Unido sair da União Europeia sem qualquer acordo (um Brexit sem acordo) aumentou", indica a Moody's numa nota de análise divulgada esta terça-feira.

A agência de rating recorda que Boris Johnson figurou com destaque na campanha de 2016 pela saída do Reino Unido da União Europeia (UE) e disse que tenciona que o país saia em 31 de outubro de 2019, "independentemente de a UE concordar com um acordo revisto".

A Moody's prossegue que, apesar de Boris Johnson ter dito que tenciona negociar uma saída com acordo da UE até àquela data, sinalizou que vai estar preparado para a saída do Reino Unido sem um acordo, caso não seja possível alcançar um até ao final de outubro.

"A nossa perspetiva continua a ser a de que um Brexit sem acordo teria efeitos negativos significativos ao nível das condições de crédito para o Reino Unido [dívida soberana] e para os emissores relacionados com o país", indica a Moody's.

A agência de rating recorda que, desde o desfecho do referendo que ditou a saída do Reino Unido da UE em 2016, o seu cenário base tem sido de que haveria um acordo, "preservando muitas das características dos atuais acordos comerciais".

Contudo, a Moody's salienta que, apesar de ter aumentado a probabilidade de uma saída sem acordo, "falta um apoio maioritário no parlamento".

"É claro que não existe uma maioria no Parlamento britânico para um Brexit sem acordo, mas o simples facto de a maioria dos membros do parlamento estarem contra esse resultado, isso não significa que será evitado", indica a agência de rating.

A Moody's recorda que a UE também disse que o acordo de saída negociado com a anterior líder britânica não mudará.

Escoceses ameaçam e irlandeses do Norte manifestam apoio

Após ter felicitado Johnson, a chefe do governo escocês, Nicola Sturgeon, escreveu que "seria hipócrita" se não se mostrasse preocupada com a perspetiva de o novo líder conservador se tornar primeiro-ministro. "Tenho a certeza de que a grande maioria dos escoceses não teria escolhido entregar as chaves do número 10 a alguém com as suas opiniões e passado." Mais à frente a nacionalista escocesa reafirmou que tudo fará para "bloquear o seu plano de Brexit sem acordo". E que vai continuar os preparativos para "a Escócia escolher o seu futuro através da independência" no lugar de um "futuro imposto" por Boris Johnson e os conservadores.

Sturgeon não estará só a falar para o eleitorado do SNP. Numa sondagem publicada pelo Politico a maioria dos escoceses (56%) disse não saber quem é o melhor candidato conservador para assumir funções como primeiro-ministro, 28% escolheu Jeremy Hunt e apenas 16% Boris Johnson.

A líder do Partido Unionista Democrático da Irlanda do Norte, Arlene Foster, indicou que os 10 deputados deste partido continuarão a apoiar o Partido Conservador e o seu novo líder, bem como o seu novo governo. "O acordo de confiança e apoio entre o Partido Conservador e o Partido Unionista Democrático permanece", disse Foster, num comunicado, que foi citado pela Reuters.

O caminho para a vitória

No dia 23 de maio Theresa May, aprisionada a um acordo do Brexit com Bruxelas que o Parlamento britânico reprovou por três vezes, anunciou a saída. A corrida à sua sucessão levou à apresentação de 11 candidaturas, mas a única que defendia um novo referendo, a de Sam Gyimah, desistiu antes da primeira ronda de votações. Os restantes dez candidatos, todos a favor do Brexit, dividiram-se apenas na fórmula de saída: Boris Johnson, Esther McVey. Dominic Raab e Sajid Javid são adeptos de uma saída com ou sem acordo até 31 de outubro, enquanto Jeremy Hunt, Matt Hancock, Mark Harper, Rory Stewart e Andrea Leadsom defenderam uma saída negociada.

De 13 a 20 de junho, durante as votações levadas a cabo entre os 313 deputados conservadores, o antigo mayor de Londres ficou sempre à frente: 114 votos na primeira ronda, 126 na segunda, 143 na terceira, 157 na quarta e 162 na quinta e última, na qual Jeremy Hunt foi escolhido como o seu adversário, ao recolher 77 votos, mais dois do que Michael Gove. Depois, a palavra foi dada aos 160 mil militantes, que tiveram até segunda-feira para votar.

Boris Johnson, de 55 anos, tem um longo historial de controvérsias, escândalos e gafes, que o Daily Mirror resumiu em 37 casos. O antigo correspondente em Bruxelas -- onde contribuiu de forma decisiva, com mentiras e meias verdades, para criar uma narrativa contra a burocracia das instituições europeias -- é agora a voz da retirada do Reino Unido da UE a todo o custo.

"Estamos a preparar-nos para sair em 31 de outubro. Venha o que vier. É matar ou morrer", disse, ao mesmo tempo que deixa no ar a ameaça de não pagar à UE o valor do acordo de saída, 39 mil milhões de euros. "Acho que deveria haver uma ambiguidade criativa sobre quando e como isso será pago." Já o seu adversário, Jeremy Hunt, atual ministro dos Negócios Estrangeiros, mostrou-se mais comedido, ao defender a saída com acordo.

Cenas dos próximos capítulos

Se tudo correr como previsto, após Theresa May participar no último debate parlamentar, na quarta-feira, irá ao Palácio de Buckingham apresentar a demissão à Rainha Isabel II. Nesse momento, com base na recomendação da chefe de governo cessante, Isabel II irá convidar o novo líder conservador a formar um novo governo e a tomar posse como primeiro-ministro. Faz parte da tradição que este, antes de entrar no número 10 de Downing Street, faça uma declaração ao país. Na quinta e sexta-feira será conhecido o elenco governamental.

Mas as recentes demissões do governo podem levar a que quer Theresa May quer a Rainha levantem dúvidas sobre a capacidade de Boris Johnson para reunir uma maioria parlamentar para formar governo. O ministro do Desenvolvimento Internacional e ex-candidato à liderança conservadora, Rory Stewart, anunciou terça-feira à tarde a sua demissão, depois de o ministro da Justiça, David Gauke, a secretária de Estado da Educação, Anne Milton, e o secretário de Estado para a Europa e Américas, Alan Duncan, terem feito o mesmo. Também o ministro das Finanças, Philip Hammond, ameaçou demitir-se, segundo a BBC.

No primeiro caso, May pode manter-se no cargo até ao novo líder vencer uma moção de confiança, segundo os professores universitários Robert Hazell e Meg Russell. "O teste decisivo é saber se o novo líder dos conservadores é capaz de conquistar a confiança da Câmara dos Comuns", escreveram. "Um cenário possível é que um grupo de deputados conservadores esteja tão preocupado com o candidato vencedor que declare a sua retirada de apoio imediatamente após ser conhecido o resultado -- ou seja, antes que o novo primeiro-ministro seja nomeado. Isto representaria um sério dilema para a Rainha e para aqueles que a aconselham, porque não seria claro se o novo líder conservador poderia suscitar confiança."

E como a maioria parlamentar dos conservadores é apenas de quatro deputados, contando os aliados unionistas do DUP, a rainha pode, por sua iniciativa, exigir que Boris Johnson se apresente na Câmara dos Comuns para uma moção de confiança. Ganha a votação, poderia formar governo. Caso contrário, o país iria para eleições antecipadas.

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