"Bond é só um homem de ação assassino: tem pouco de espião a sério"

O britânico Stephen Grey é jornalista da Reuters e autor de 'A Nova Espionagem Mundial'. Ao DN fala sobre como tudo mudou com o 11 de Setembro e relembra episódios da Guerra Fria.

Lutar contra o ISIS ou a Al-Qaeda é muito mais difícil do que lutar contra outros Estados para uma agência, por exemplo, como a CIA?

É incrivelmente perigoso ser espião contra grupos assassinos e brutais como a Al-Qaeda e especialmente o ISIS. Estes grupos ainda por cima operam em territórios isolados e fora do alcance dos governos, como a Síria, o Iémen ou a fronteira afgano-paquistanesa, onde é difícil para operacionais de agências de espionagem como a CIA fazerem o seu trabalho, por exemplo encontrarem agentes secretos potenciais ou organizarem a recolha de informação de um espião. Mas isso não torna necessariamente o trabalho da CIA impossível ou, por comparação, mais duro, porque uma poderosa força que ajuda a CIA e outras agências é a natureza maléfica do ISIS. Mesmo os islamitas mais radicais estão tão horrorizados pelos métodos do ISIS que podem ser tentados a trair os seus segredos e ajudarem a espiar no sentido de derrotar o grupo. E como prosélitos ambiciosos, tanto o ISIS como a Al-Qaeda estão sempre à procura de novos recrutas - e isso é uma fraqueza que permite a infiltração de agentes.

Um espião deve ser alguém só com grandes capacidades físicas ou também alguém que conhece línguas e a cultura do outro lado?

Não, tudo isso pode ajudar mas não é essencial. Um espião pode ser qualquer um que se mantenha vivo o tempo suficiente para roubar um segredo importante. Espiões bem-sucedidos devem ser inesperados - a pessoa que menos esperas que te trai vai ser quem te trai. Um ponto-chave que descrevo - e que habitualmente não é entendido por Hollywood - é a diferença entre um agente de espionagem profissional e o agente secreto. Esses profissionais de agências como a CIA recrutam espiões e "manejam" espiões mas raramente fazem muita espionagem eles mesmos. Em vez disso, recrutam espiões que normalmente são estrangeiros ou pelo menos já parte da comunidade ou cultura que estão a tentar espiar. Esta é a razão pela qual os espiões mais importantes são na realidade amadores, ainda que coordenados por profissionais. Claro, para penetrar no campo inimigo, é importante perceber a forma como os membros pensam e assim entender uma cultura é vital. Mas precisa sobretudo de ser o tipo de pessoa em quem as pessoas confiam, assim como ser hábil em manter-se vivo escondendo as intenções. Exige força de carácter e não pode ser aprendido tão facilmente como uma língua.

As novas tecnologias são vitais na espionagem? Mais importantes até que o elemento humano?

A tecnologia é barata - e esmaga-nos com dados. Mas o elemento humano - a capacidade para entender quem e o que é importante - não tem preço. O espião moderno é recrutado com a ajuda da tecnologia: telefones e computadores podem ser pirateados. Isto permite que os pensamentos mais íntimos possam ser roubados. E tudo isto pode ajudar a identificar o potencial traidor. Mas a tecnologia é tão integrada que a velha divisão entre espionagem técnica e humana já não existe. Uma ajuda e confirma a outra.

Qual a sua opinião sobre países que espiam os amigos oficiais, até os líderes de outro país?

Um traidor é alguém desprezível e a descoberta de uma operação de espionagem montada por um "amigo" pode complicar e até envenenar a relação. Por exemplo, quando a Alemanha descobre os Estados Unidos a recrutar os seus agentes. Mas a dor e a raiva raramente duram muito e podem ser um pouco fingidas. Estados "crescidos" irão sempre espiar e é tão importante entender os amigos como os inimigos. Em tempo de paz, os espiões têm menos valor e devem ser recrutados com extrema cautela. Mas, como descrevo no livro com histórias da Guerra Fria, se as intenções são pacíficas então há pouco a temer de se ser traído. Tal como os espiões soviéticos fizeram dentro da NATO, esses espiões podem ajudar a preservar a paz explicando que os planos secretos do outro não são ameaçadores.

Consegue escolher o melhor exemplo de espionagem entre os descritos no livro?

Eu descrevo o espião moderno: espiar de uma forma moderna contra um inimigo moderno. Algumas coisas nunca mudam - como as motivações que levam à traição, como o desejo de vingança ou o ciúme. Também explico que todas as outras coisas que os serviços secretos fazem - seja interrogar prisioneiros ou fazer disparar drones - está muito distante do trabalho dos espiões no terreno, da espionagem real. Descrevo algumas histórias incríveis de espiões dentro de bandos criminosos e grupos terroristas - desde um espião chamado "Black Thunder" dentro de um gangue de drogas até um espião britânico chamado "Steak Knife" infiltrado no IRA, passando por uma operação defeituosa envolvendo um informador chamado A1 dentro de uma conspiração terrorista em Barcelona e espiões bem-sucedidos infiltrados na Al-Qaeda no Iémen. Gerir espiões dentro de um moderno grupo terrorista é possível mas essas operações não vão ganhar a guerra. E isto em parte porque muitas operações contra grupos terroristas são de vida curta - um agente tem de agir para impedir um ato assassino, como o agente britânico que recentemente travou uma bomba da Al-Qaeda num avião, mas depois tem de escapar: a sua espionagem acabou.

Gosta de livros de espionagem?

Gosto de boa ficção sobre espiões. Mas não creio que exista uma boa novela sobre espionagem moderna, uma que reflita a realidade do pós-Guerra Fria. A maioria da ficção está obcecada pela ação e violência e confunde o papel de um agente profissional, seja da CIA, MI6 ou Mossad, com os espiões que estes recrutam. Não tive a sorte de encontrar um romance que descreva a vida de um espião como "Steak Knife" ou Omar Nasiri ou Morten Storm, gente que descrevo no livro e de facto espiou entre terroristas.

George Smiley ou James Bond? Qual prefere?

Adoro o John Le Carré vintage e a sua representação da Guerra Fria e dos caçadores de toupeiras. Por isso, sou um fã de Smiley. Bond é só um homem de ação assassino: tem pouco que ver com espionagem a sério. Gosto imenso dos filmes, mas são instantaneamente esquecíveis. E acho o Le Carré moderno um pouco previsível, e obcecado com os males do governo oculto e das empresas malignas.

Até que ponto, a partir da sua experiência pessoal, considera perigoso hoje um jornalista ser confundido com um espião?

Jornalistas têm sido mortos acusados de serem espiões, logo é uma acusação muito séria. E não ajuda que as agências de espionagem contratem jornalistas como colaboradores. Acontece porque em locais remotos - digamos uma montanha na Chechénia - há muito poucos estrangeiros que tenham legítima desculpa para lá estar: tirando jornalistas, talvez um trabalhador humanitário, um técnico de telecomunicações ou um missionário. Não admira que as pessoas suspeitem. Claro que nós os jornalistas não somos espiões porque publicamos os segredos que sabemos e não os partilhamos em privado com nenhum governo. Mas em certas partes do mundo não há qualquer experiência de liberdade de imprensa e por isso é natural que as pessoas percebam mal o que fazemos e pensem que somos todos espiões.

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