Bolsonaro pede aos apoiantes para "arranjarem maneira de entrar" nos hospitais e filmar

O presidente brasileiro incentivou a população a filmar os hospitais públicos e de campanha para verificarem se as camas estão ou não a ser ocupadas e "se os gastos são compatíveis". Bolsonaro quer provar que as unidades de saúde não assoberbadas com a pandemia de covid-19. "A situação no Brasil é preocupante", diz OMS

Há "um hospital de campanha perto de você, um hospital público, arranja uma maneira de entrar e filmar". O pedido é feito pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, durante um vídeo em direto, transmitido nas redes sociais. E logo explicou a razão para o inusitado apelo. "Muita gente está a fazer isso, mas mais gente tem que fazer, para mostrar se as camas estão ocupadas ou não, se os gastos são compatíveis ou não. Isso ajuda-nos", explicou o chefe de Estado.

Bolsonaro questiona as criticas de falta de meios nas unidades de saúde no combate à pandemia de covid-19, nomeadamente a falta de camas. Para provar a sua teoria de que os hospitais não estão assoberbados, o presidente brasileiro pediu aos seus apoiantes para filmarem as unidades hospitalares. Um pedido que não tem em conta os riscos que esta ação poderá representar, não só para os doentes e profissionais de saúde, mas também para quem entrar sem autorização nas alas dedicadas ao covid-19, podendo ficar infetado e transmitir o vírus a outras pessoas.

Segundo "as informações que temos, posso estar errado, mas ninguém morreu devido à falta de ventiladores ou camas de unidades de cuidados intensivos. Pode ser que tenha acontecido um caso ou outro", disse numa transmissão em direto do Facebook. Foi neste momento que Bolsonaro pediu à população para filmar os hospitais e que lhe fizessem chegar os vídeos pelas redes sociais e que estes, depois de filtrados, seriam enviados para as autoridades analisarem. E, caso seja necessário, podem ser abertos processos de investigação. "O que nós queremos é transparência", afirmou.

O chefe de Estado, que minimizou o novo coronavírus e o comparou a uma "pequena gripe", questiona as notificações de novos casos e de mortes por covid-19 que são reportadas pelos governadores dos estados.

Bolsonaro diz que lhe chega informação de casos de pessoas que tinham uma série de problemas de saúde, "não tinham contraído o vírus" e foram consideradas vítimas mortais devido ao covid-19. "São dezenas de casos por dia que chegam nesse sentido", garante. Diz que estão a querer ter "um ganho político". "Só pode ser isso", afirmou.

"Ele está a colocar vidas em risco de forma imprudente quando pede aos seus apoiantes que invadam hospitais", disse Paulo Fernando dos Santos, deputado federal do PT.

Brasil com mais de 40 mil mortos

Bolsonaro devia "apenas ler os relatórios publicados pelas autoridades estaduais com o número de camas ocupadas", escreveu o governador do estado do Maranhão, Flavio Dino, no Twitter. "Se ele quiser visitar os nossos hospitais, eu mesmo mostro", acrescentou.

O Brasil ultrapassou esta sexta-feira o Reino Unido e tornou-se no segundo país do mundo com o maior número total de mortos pela covid-19, após ter registado mais 909 óbitos nas últimas 24 horas, informaram fontes oficiais.

Nas últimas 24 horas, além das 909 vítimas mortais, o Brasil registou ainda 25.982 novos infetados pelo novo coronavírus, totalizando agora 41.828 óbitos e 828.810 casos confirmados desde o início da pandemia, segundo o Governo brasileiro.

Mesmo quando o número de infeções aumentou no Brasil, que agora tem o segundo maior número de casos no mundo depois dos EUA, Jair Bolsonaro opôs-se às medidas de confinamento de vários estados. O presidente brasileiro considera que os negócios fechados e as recomendações para que as pessoas permaneçam em casa estão a destruir, desnecessariamente, a economia do país.

Segundo dados oficiais, as unidades de cuidados intensivos em vários estados do Brasil registaram taxas de ocupação superiores a 90% durante a pandemia, embora este número já tenha diminuído em alguns dos estados mais atingidos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) - órgão do qual Bolsonaro já ameaçou sair -disse que a situação nos hospitais brasileiros permanece "crítica" em algumas áreas. "Sim, a situação no Brasil é preocupante. Todas as 27 áreas estão afetadas. Há diferentes taxas de transmissão, 'hotspots' [pontos quentes] em áreas de alta densidade populacional"disse Mike Ryan, diretor de emergências sanitárias da OMS, durante uma conferência de imprensa, em Genebra.

Ryan disse que algumas das 27 unidades federativas do Brasil "exercem bastante pressão sobre o sistema de cuidados intensivos", com alguns locais em "estágio crítico".

"De uma forma geral, o sistema de saúde está sob pressão, mas ainda está a conseguir lidar com o número de casos graves. Mas, com a continuação da transmissão de casos severos, veremos", indicou ainda o diretor de emergências sanitárias da OMS.

Atualizado às 23:10

Mais Notícias