Bolsonaro e as mulheres: "Não estupro porque é feia", "deviam ganhar menos", "queria dar o furo"

Acusações de machismo contra o presidente vêm de longe mas a última, uma insinuação sexual sobre uma repórter, gerou revolta de mulheres, de políticos, de jornalistas e de juristas. Voltou até a falar-se em impeachment.

"Ela queria um furo. Ela queria dar o furo a qualquer preço contra mim", disse na última terça-feira à saída do Palácio do Alvorada Jair Bolsonaro, enquanto ria, ao lado de uma claque de apoiantes, com o duplo sentido das suas palavras. A frase, considerada apenas o último caso de uma longa lista de momentos classificados de machistas ou misóginos da carreira política do hoje presidente da República, gerou uma onda de revolta entre mulheres, associações de jornalistas, políticos e juristas no Brasil.

O advogado Miguel Reale Junior, um dos subscritores do pedido de impeachment de Dilma Rousseff, diz que "se a quebra de decoro já é motivo de impedimento, o que dizer da ofensa à dignidade humana?". "Como as mulheres brasileiras podem respeitar um presidente que, porque desgosta de uma reportagem, se sente no direito de desqualificar a repórter com um insulto asqueroso?", continuou.

A repórter em causa, Patrícia Campos Mello, do jornal Folha de S. Paulo, escreveu, no final de 2018, um artigo sobre a propagação de fake news por empresas de disparo de mensagens em massa através da aplicação WhatsApp. Na semana passada, na Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional sobre o tema, um ex-funcionário de uma dessas empresas disse que Mello se insinuou sexualmente em troca de informações - o jornal, entretanto, desmentiu cada uma das acusações, através de documentos, e o ex-funcionário arrisca agora prisão por perjúrio. Mesmo assim, Bolsonaro e o deputado Eduardo Bolsonaro, seu filho, vêm repercutindo as suas acusações provadamente falsas.

O governador de São Paulo e eventual candidato à presidência em 2022, João Doria, foi um dos políticos que desaprovou o comentário do presidente. "Quero reafirmar todo o respeito à liberdade de imprensa. Respeito pelos jornalistas, por aqueles que fazem a notícia. Considero muito desrespeitosa a atitude do presidente em especial a uma jornalista mulher. Desrespeitosa e condenável".

Outro eventual candidato, o apresentador Luciano Huck, também criticou: "As fronteiras da decência foram ultrapassadas".

Para a antiga presidente Dilma Rousseff, "o insulto à jornalista Patrícia Campos Mello, com conteúdo sexual, é um ataque a todas as mulheres brasileiras. Misoginia e ignorância juntam-se ao temor das revelações das reportagens da jornalista. Atitude inaceitável num presidente".

O senador Randolfe Rodrigues protocolou ação na Procuradoria Geral da República contra Bolsonaro por "falta de decoro".

Até o PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu, publicou nota de repúdio.

As deputadas do partido de Dilma, o PT, e de outras forças da oposição subiram juntas ao púlpito da Câmara dos Deputados para condenar as afirmações. "No Brasil inteiro, as mulheres repudiam as palavras de Jair Bolsonaro contra Patrícia Campos Mello. Uma jornalista que fez uma reportagem das mais importantes, denunciando todos os erros e crimes eleitorais cometidos por ele através de mensagens em massa", afirmou a deputada Maria do Rosário. "Agora, ele ataca-a, mais uma vez, e nós, mulheres do PT, somos solidárias à sua luta como todas as mulheres brasileiras".

Na sequência, Eduardo Bolsonaro também foi ao púlpito da Câmara dos Deputados fazer um manguito na direção daquelas deputadas.

Para o jornal a que pertence a profissional em causa, o Folha de S. Paulo, "Bolsonaro age como chefe de bando, reincide na ofensiva ao jornalismo e alveja o edifício constitucional".

​​​Pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Paulo Jeronimo de Sousa disse que Bolsonaro "desrespeitou de forma covarde" a repórter "para vergonha dos brasileiros". "Este comportamento misógino desmerece o cargo de presidente da República e afronta a Constituição Federal. O que temos visto e ouvido, quase cotidianamente, não se trata de uma questão política ou ideológica. Cada dia mais, fica patente que o presidente precisa, urgentemente, buscar um tratamento terapêutico".

Elisa Muñoz, da International Women's Media Foundation notou "uma avalanche de ataques mordazes contra Campos Mello nas medias sociais, incentivada e contribuída pelas mais altas lideranças do Brasil, incluindo o presidente e o seu filho". "Esses ataques não apenas colocam em risco a segurança de jornalistas, como Campos Mello, mas tentam silenciar as vozes das mulheres e prejudicar a liberdade de imprensa".

Colunistas também expressaram indignação. "Falar que uma mulher, cumprindo o seu trabalho, 'queria dar' é um ataque contra qualquer profissional. Além claro, de ser de uma baixeza absurda, que não pode ser aceita em nenhuma profissão", escreveu Nina Lemos, do portal UOL.

"Deixem de lado o fato de Patrícia ser jornalista. Ela é mulher. Poderia ser uma economista, uma copeira, uma faxineira, uma jogadora de futebol. Ela foi exposta com insinuações sexuais por um presidente, como nunca o Brasil viu. Ele não está na mesa de bar com amigos, está na frente das televisões dizendo que Patrícia 'queria dar um furo a qualquer preço', sugerindo sexo em troca de informação, o que é o mesmo que chamar uma mulher de prostituta. Só uma cabeça pervertida pode se sentir tão à vontade para dizê-lo em alto e bom som", escreveu Carla Jiménez, no El Pais Brasil.

Dadas as reações, Bolsonaro voltou a ser confrontado com as suas declarações. Mas não se desculpou.

Acusações desde os tempos de deputado

As acusações de machismo ao presidente, entretanto, remontam aos seus tempos de deputado.

Em 2003, disse à deputada, Maria do Rosário, do PT, que só não a estuprava porque ela era feia. Só em junho do ano passado o episódio chegou ao fim quando, em cumprimento de decisão judicial, Bolsonaro pagou cerca de 2,5 mil euros à parlamentar e publicou desculpas nas redes sociais.

Em 2016, o hoje chefe de Estado, então habitual convidado de programas populares de entretenimento disse num deles, a propósito de no Brasil as mulheres ganharem menos 25% do que os homens, que "não empregaria mulheres pelo mesmo salário de homens mas tem muita mulher que é competente".

Ainda naquele ano, durante a votação do impeachment de Dilma dedicou o seu voto "a Brilhante Ustra, o terror de Dilma Rousseff". Fora noticiado que Ustra, um dos chefes do DOI-CODI, polícia política brasileira, no seu repertório de torturas costumava colocar ratos e baratas nas vaginas das mulheres detidas, entre as quais a então presidente da República.

Já em campanha eleitoral, o candidato a presidente, usou uma conferência no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, para, depois de comparar negros a animais - "fui a um quilombo [refúgios de descendentes de africanos] e o afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas, nem para procriar servem mais" - ironizar as mulheres - "eu tenho cinco filhos, os primeiros quatro são homens, na quinta eu dei uma fraquejada e veio uma mulher".

Uma vez eleito na crise internacional das queimadas na Amazónia, após troca de acusações com o presidente francês Emmanuel Macron, fez piada com a idade e a aparência da primeira-dama Brigitte Macron.

Por causa da política de segurança do se governo baseada na máxima "bandido bom é bandido morto" ouviu críticas da alta comissária dos direitos humanos da ONU, a chilena Michelle Bachelet. Respondeu-lhe atacando a memória do pai dela, Alberto Bachelet, torturado e morto pelo regime de Augusto Pinochet, uma das referências políticas do presidente do Brasil, ilustrando o ataque com uma foto de Bachelet entre Dilma, uma mulher, e a argentina Cristina Kirchner, outra mulher.

Antes de reunião em Riade com o príncipe saudita Mohammed bin Salman, entretanto, deixou dois recados, entendidos como machistas, às jornalistas brasileiras. "Todo o mundo gostaria de passar a tarde com um príncipe. Principalmente vocês, mulheres, né?" e "vocês estão muito mais bonitas assim", ao vê-las de corpo coberto por véus em respeito pela sharia.

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