Bolsonaro apoia Guaidó, PT defende Maduro

Presidente diz que o Brasil "dará todo o apoio necessário" ao presidente da Assembleia Nacional mas o vice General Mourão exclui intervenção armada. Gleisi Hoffmann, líder do partido de Lula, entretanto, considera "grave" a posição do governo

Sob a presidência de Jair Bolsonaro, o Brasil, em conjunto com 12 países da América Latina, reconheceu ainda na quarta-feira Juan Guaidó como presidente da Venezuela. "O Itamaraty [como é conhecido o ministério das relações exteriores brasileiro, aludindo ao nome do palácio que lhe serve de sede] acabou de emitir nota reconhecendo Juan Guaidó como presidente da Venezuela, e o Brasil, juntamente com os demais países do Grupo de Lima [organização fundada em 2017 por nações latino-americanas para discutir a crise venezuelana], que um a um estão a reconhecer esse facto, dará todo o apoio político e económico necessário para que esse processo siga o seu destino", afirmou o presidente da República brasileira, em Davos, onde participa no fórum económico.

A decisão surgiu após uma reunião - marcada antes dos últimos acontecimentos em Caracas - com chefes de estado e ministros da Colômbia, do Equador, do Peru e do Canadá e de académicos venezuelanos e comissários da ONU. Foi durante o período que durou o encontro, aliás, que o presidente venezuelano da Assembleia Nacional se declarou presidente da República interino, após manifestação na capital do país contra o regime de Nicolás Maduro. Mais ou menos em simultâneo foi tornada pública a posição de Donald Trump, presidente dos EUA, favorável a Guaidó.

No Brasil, o presidente em exercício, General Hamilton Mourão, descartou a possibilidade de o Brasil participar em ações armadas no país vizinho. "Não é tradição da política externa do Brasil intervir em assuntos internos de outros países, o Brasil não participa de eventual intervenção", afirmou o vice-presidente de Bolsonaro.

O ministro das relações exteriores Ernesto Fraga Araújo afirmou, ainda na Suiça, que os diplomatas brasileiros no país vão ignorar ordens de Maduro e referiu-se ao sucessor de Hugo Chávez como "ex-presidente".

No sentido oposto, o PT condenou o apoio de Bolsonaro a Guaidó. "Vamos ter daqui a pouco os presidentes dos Estados Unidos, do Brasil e de outros países a interferir na soberania e na autodeterminação dos países? Isso é muito grave. E acho mais grave ainda o governo brasileiro se posicionar como favorável a Guaidó porque isso leva a uma intervenção, leva à força bruta", afirmou a senadora Gleisi Hoffmann, presidente do partido. E concluiu perguntando se "o presidente Bolsonaro vai enviar tropas para Caracas?". Segundo o PT, o Brasil deveria funcionar como mediador da situação, sem tomar partido.

Ao longo dos governos do PT, liderados por Lula da Silva e Dilma Rousseff, a relação entre o Brasil e a Venezuela, primeiro de Hugo Chávez e depois de Nicolás Maduro, foi sempre próxima. Esse é um dos principais motivos de ataque da direita brasileira, nomeadamente Bolsonaro, ao partido. O próprio Fernando Haddad, concorrente do PT às últimas eleições, já criticou publicamente Maduro, a cuja posse Gleisi Hoffmann fez questão de comparecer.

Na imprensa, o especialista em política internacional do jornal ​​​​​​Folha de S. Paulo Clóvis Rossi escreveu "acabou, Nicolás, fuja enquanto dá". Enquanto no portal G1, a analista Sandra Cohen lembra que "o juramento do presidente da Assembleia Nacional como presidente encarregado do país pode ser comparado ao do próprio Maduro, que assumiu o segundo mandato numa sala do Tribunal Superior de Justiça, cercado de magistrados nomeados por ele". "No terceiro dia de protestos, com 13 mortos até agora, os venezuelanos estão diante de dois presidentes e duas realidades que, por enquanto, estão distantes de uma solução pacífica", concluiu.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG