Bolsonaro acusa DiCaprio de mandar incendiar Amazónia

Presidente da República comentava caso da prisão de quatro bombeiros de uma ONG. Mas os bombeiros entretanto já foram soltos, o delegado que os prendeu afastado e o ministério público acredita que na verdade foram especuladores imobiliários a atear o fogo.

Jair Bolsonaro acusou nesta sexta-feira Leonardo DiCaprio de pagar para que ONG ateiem fogo na Amazónia. "Agora, o Leonardo DiCaprio é um cara legal, não é? Dando dinheiro para tacar fogo na Amazónia", disse o presidente do Brasil sobre o astro de Hollywood no habitual diálogo matinal com apoiantes à saída do Palácio do Alvorada.

Bolsonaro referia-se, supostamente, ao caso da prisão na quarta-feira de quatro bombeiros de uma ONG que cuida da preservação da floresta em Alter do Chão, estância balnear no estado do Pará, acusados de atear fogo na região em setembro. Uma prisão feita à revelia das investigações do ministério público, que apontam especuladores imobiliários e usurpadores de terras como culpados, por um delegado de polícia local entretanto afastado das funções pelo governador do estado por causa da detenção dos bombeiros ter sido considerada abusiva. Os bombeiros aliás já foram soltos.

Para sustentar as prisões, a polícia do Pará citou conversas telefónicas entre os bombeiros em causa e a World Wide Fund (WWF), uma ONG com sede na Suíça que atua na área da conservação da natureza. Nelas, membros da WWF pedem imagens do fogo para poder acionar os seus patrocinadores, entre os quais Leonardo Di Caprio, e assim ajudar os bombeiros com doações - uma prática considerada comum porque esses patrocinadores condicionam o seu apoio a provas de que o incêndio aconteceu.

Mas para a polícia do Pará essa conversa revela tentativa de obtenção de vantagem financeira dos bombeiros e a prova de que eles atearam o fogo.

O delegado do caso, José Melo Junior, foi afastado quinta-feira do caso por Helder Barbalho, o governador do Pará. "O caso requer atenção e toda transparência necessária. Ninguém está acima da lei, mas ao mesmo tempo ninguém pode ser vítima de um pré-julgamento ou ter o seu direito à defesa cerceado", disse o governador no dia seguinte à prisão.

Para o coordenador do Projeto Saúde e Alegria, uma das ONG alvo de busca e apreensão na mesma operação da polícia, "é uma situação kafkiana". "O que nós percebemos é uma ação política para tentar desmoralizar as ONG que atuam na Amazónia", afirmou Caetano Scannavino.

Um dos advogados dos bombeiros, Wlandre Leal, considerou a detenção baseada "em suposições" após "pesquisas de Instagram".

Ministério Público pediu para analisar processo

Ainda na quinta-feira, o Ministério Público Federal (MPF) do Brasil reagiu e pediu para analisar o processo judicial que trata da prisão dos quatro bombeiros voluntários. Nota do MPF afirma que desde setembro já existia um inquérito sobre o mesmo tema. Na investigação federal, porém, "nenhum elemento apontava para a participação de bombeiros ou organizações da sociedade civil".

Ainda segundo o MPF, ao contrário do que concluiu a polícia local, a linha das investigações federais seguida desde 2015 "aponta para o assédio de grileiros, para ocupação desordenada e para a especulação imobiliária como causas da degradação ambiental em Alter do Chão".

"A região é objeto de cobiça das indústrias turística e imobiliária e sofre pressão de invasores de terras públicas", conclui o MPF.

Em Brasília, deputados da oposição classificaram o caso como "repressão bolsonarista".

O caso gerou indignação de familiares e amigos dos quatro detidos, além de protestos de outros ativistas e outras ONG brasileiras e internacionais ainda na quarta-feiraa e depois ao longo de quinta-feira.

Nesta sexta-feira, entretanto, apesar dos desenvolvimentos do caso Bolsonaro atacou DiCaprio insistindo na versão do delegado afastado na conversa com os seus apoiantes.

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