Biden no funeral de Floyd: "Agora é o momento da justiça racial"

Cerimónia para os familiares foi transmitida pela TV e contou com presença de celebridades e de uma mensagem de vídeo do ex-vice-presidente.

Joe Biden disse na terça-feira que é "agora" o momento de pôr fim à injustiça racial nos Estados Unidos, num discurso em vídeo durante as cerimónias fúnebres em Houston de George Floyd, cuja morte sob detenção policial desencadeou protestos em todo o mundo contra o racismo e a violência policial.

"Agora é o momento para a justiça racial", disse o democrata que vai desafiar o presidente Donald Trump nas eleições de novembro, tendo acrescentado que "milhões" de manifestantes têm saído à rua nas últimas semanas com uma mensagem semelhante.

"Não podemos virar as costas", afirmou Biden. "Não podemos deixar este momento a pensar que podemos, mais uma vez, afastar-nos do racismo que nos arde na alma".

Depois de uma cerimónia aberta, na véspera, a todos os que quisessem testemunhar, e foram milhares a passar pelo caixão aberto de George Floyd, a última homenagem decorreu na sua terra natal. Foi o culminar de um longo adeus ao afro-americano de 46 anos.

Políticos, ativistas dos direitos civis e celebridades juntaram-se à família para partilhar as memórias do homem a que chamaram "gigante gentil" antes de o seu caixão de ser transportado por uma carruagem puxada a cavalo até ao seu último local de descanso, junto ao túmulo da mãe.

Cerca de 500 convidados - todos com máscara devido à pandemia do coronavírus - encheram a igreja, incluindo os atores Channing Tatum e Jamie Foxx, bem como o campeão de boxe Floyd Mayweather, que se ofereceu para suportar todas as despesas da cerimónia.

"Podemos chorar, podemos chorar, vamos ser consolados e vamos encontrar esperança", disse a co-pastora da igreja Mia Wright.


A igreja Fountain of Praise (Fonte do Louvor) foi a última etapa de uma série de cerimónias de homenagem a Floyd, antes de ser enterrado. Num dia que marcou mais de duas semanas de tensão em todo o país, o tema no interior do edifício foi de paz e esperança, enquanto familiares e amigos se preparavam para subir ao pódio para partilhar a sua dor, com o líder dos direitos civis, o reverendo Al Sharpton, a discursar na cerimónia.

"Há muito a fazer, mas queremos que a família saiba que não está sozinha", disse o representante no Congresso Al Green, ao entrar na igreja. "Este é mais do que um momento no tempo, é um movimento que tem impacto em todo o nosso tempo."

Shiara DeLoach, que apareceu de madrugada para prestar homenagem a Floyd, disse que "todos com filhos e um coração" podiam sentir a dor que aquela morte causou. "Muitas mudanças têm de vir. Todos têm de ser tratados em pé de igualdade. É muito emotivo e de partir o coração", disse.

O funeral acontece depois de as autoridades de Minneapolis se terem comprometido a desmantelar e reconstruir o departamento de polícia da cidade onde Floyd morreu durante uma detenção por alegadamente ter passado uma nota falsa de 20 dólares.
Derek Chauvin, o agente branco de 44 anos de idade que foi filmado a pressionar o joelho no pescoço de Floyd, enfrenta até 40 anos se for condenado pelas acusações que agora pendem.

A sua caução foi fixada na segunda-feira em um milhão de dólares com condições, ou 1,25 milhões sem condições.

Três outros polícias envolvidos na detenção de Floyd são acusados de cumplicidade no homicídio. Os quatro agentes foram todos despedidos.

A detenção foi capturada em vídeo amador e exibido um pouco por todo o mundo nas últimas duas semanas.

Floyd nasceu na Carolina do Norte, mas cresceu no Third Ward, um bairro predominantemente afro-americano de Houston, no Texas, onde é recordado como um atleta e um amigo bem-humorado.

Os manifestantes têm saído às ruas durante duas semanas dos protestos mais generalizados dos EUA por justiça racial desde o assassínio de Martin Luther King Jr., em 1968.

As manifestações foram marcadas por várias noites de revolta que chamaram a atenção, no país e no estrangeiro, para a violência policial. Na mesma altura surgiram vários vídeos que demonstram como alguns corpos policiais no EUA abusam da autoridade.

Os democratas introduziram legislação em ambas as câmaras do Congresso, que esperam facilitar a acusação dos agentes por abusos, e repensar a forma como estes são recrutados e formados.

Algumas cidades dos EUA já começaram a adotar reformas, a começar pela proibição do uso de gás lacrimogéneo e de balas de borracha. Mas há dúvidas de que os republicanos, que controlam o Senado, ou Donald Trump aprovam tal legislação.

Ao condenar a morte de Floyd, Trump preferiu exaltar "a lei e a ordem" e exibiu uma linguagem dura aos governadores para pôr fim aos protestos, ou afirmou que era um "ótimo dia para George Floyd" porque os números do desemprego baixaram.

Na segunda-feira voltou a manifestar o apoio à polícia numa mesa redonda sobre a política de segurança pública. Trump acusou os " democratas radicais de esquerda" de procurarem "retirar os fundos à polícia", mas os líderes democratas não incluíram nenhuma linguagem desse tipo no seu projeto de lei.

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