Bahia. Aqui nasceu o Brasil

O estado brasileiro, que é maior em área do que a Espanha, já não tem apenas sol e praia para oferecer. O turismo transformou vidas e revolucionou o centro histórico de Salvador, a capital. Na baía de Todos-os-Santos as comunidades mostram a sua cultura, numa viagem que até deu programa de televisão.

"Pessoa escravizada", corrige Marcelo Telles, ativista político da Ladeira da Preguiça, uma das primeiras e mais famosas ruas a unir as partes baixa e alta da cidade de Salvador, capital do estado brasileiro da Bahia. A correção vem no seguimento de lhe perguntar se, há cinco séculos, os "navios com escravos" desembarcavam ali, onde é hoje o Museu de Arte Moderna, o MAM, no Solar do Unhão, virado para a baía de Todos-os-Santos. Sim, desembarcavam, mas com "pessoas escravizadas" e isso sai quase num tom acusatório, como se algum destes portugueses nascidos na década de 1970 tivesse culpa do que se passou há mais de 500 anos. Segue-se uma dissertação sobre a necessidade de mudar as palavras para respeitar a verdade histórica - "achamento" em vez de "descobrimento" é o exemplo mais gritante. Explico-lhe que entendo o recurso ao eufemismo, afinal vivemos a era do politicamente correto, mas parece um tema demasiado sensível para se resumir a um jogo de palavras.

A conversa continuará, horas mais tarde, em plena Ladeira da Preguiça, imortalizada por Gilberto Gil e pela voz de Elis Regina, com a noite já caída sobre a cidade. A ladeira é hoje um espaço de arte urbana, depois de décadas de abandono. Os moradores juntaram-se com o projeto do centro cultural Que Ladeira É Essa e resgataram a rua onde moram, transformando-a numa das mais coloridas, e culturalmente ativas, do centro histórico de Salvador. E segura, porque aqui isso faz toda a diferença. Para já, visitamos Solar do Unhão e Gamboa de Baixo, dois bairros degradados à beira-mar, à sombra dos arranha-céus onde as estrelas locais, como Ivete Sangalo, têm os seus apartamentos de luxo (coberturas, penthouses, como se preferir) e acesso privado, via funicular, ao cais privado onde esperam os iates e lanchas para as levar às muitas praias da região.

Vamos a pé pelas ruas do Solar do Unhão. Marcelo procura boleia de barco até à Gamboa de Baixo, o bairro imediatamente a seguir. "Dá para ir caminhando, claro", diz ele, mas acabamos por ir num barco a remos, em dia de mar agitado, que levou a que três de nós caíssem à água nas tentativas de entrar ou sair da embarcação. Equilibrismo à parte, lá conseguimos chegar ao Bar da Mônica, um restaurante simples com esplanada virada para a baía de Todos-os-Santos. Vem peixe frito, moqueca, pirão, cerveja gelada e a conversa acaba por voltar ao colonialismo, aos abusos e aos problemas atuais enfrentados pela população de Salvador, da Bahia e do Brasil. Esta não é uma oferta turística como visitar igrejas, regatear pulseiras e fingir que se sabe sambar. Aqui, a realidade é bem menos cor-de-rosa, em especial quando se volta a pé pelas rampas e escadarias íngremes do bairro, circulando entre traficantes e toxicodependentes à beira de uma das estradas com mais movimento da cidade. Sempre em segurança, diga-se, mas com aquele friozinho no estômago.

Para quem visitou a capital da Bahia entre os anos 1980 e os primeiros anos do século XXI, as mudanças positivas são óbvias. Além da segurança, a oferta hoteleira no centro aumentou. Em quantidade e qualidade. O Fera Palace Hotel, por exemplo, nasceu no lugar do antigo Palace, um dos históricos espaços de Salvador na década de 1930. O local mantém a alma dos livros de Jorge Amado, com as salas de eventos a ostentarem os nomes de Tieta, Gabriela e Dona Flor. Da construção original ficaram os tacos de madeira, o estilo art déco, as pilastras e o glamour.

Jailton chega todos os dias às quatro da manhã à Feira de São Joaquim, um dos mais populares mercados de Salvador. São mais de 35 mil metros quadrados, 22 ruas, 4000 bancas de produtos. Ali perto saem os ferries para a ilha Itaparica e durante séculos chegaram os famosos saveiros do Recôncavo Baiano, as míticas embarcações que faziam a ligação entre a cidade grande (Salvador, primeira capital do Brasil, de 1549 a 1763) e a região geográfica em redor da baía de Todos-os-Santos. Jailton já bebeu a sua cachacinha e leva-nos pelos corredores estreitos da Feira de São Joaquim, falando com um e com outra pelo caminho. Cresceu ali e com o negócio de venda de dendê, por exemplo, educou os filhos e alimentou a família. O local é seguro, garante-nos: "Quem fizer merda aqui, não sai mais..." A feira tem um pouco de tudo: gente atarefada, povo às compras, artigos religiosos para o candomblé, peixe e marisco de qualidade ou artesanato. Só não tem ainda muitos turistas estrangeiros a visitar, mas também isso está a mudar. Operadores e guias turísticos locais estão a fomentar esta oferta, para variar do roteiro típico: tartarugas da praia do Forte, empedrado do centro histórico de Salvador, pulseiras e orações na Igreja do Senhor do Bonfim e praia de sonho no Morro de São Paulo.

Nada contra os clássicos, por isso mesmo vamos passar a tarde a Itapuã. É na casa Di Vina, escolhida por Vinicius de Moraes para viver com a sua sétima mulher, a atriz Gessy Gesse, que encontramos Luísa Proserpio, filha dos atuais proprietários e sobrinha-neta de outro dos maiores nomes da música brasileira, Dorival Caymmi. Fala-nos do hotel e restaurante que ali funcionam e das muitas histórias que estão escondidas naquelas divisões. Lá fora, antes do areal, está a estátua de Vinicius, sentado a uma mesa, qual Pessoa no Chiado. A diferença é a vista: enquanto o brilhante português está virado para a boca do metro, o génio brasileiro tem uma estrada movimentada, as palmeiras, o mar e o farol de Itapuã ao seu alcance.

À noite, e depois de uma chuvada daquelas, típica do nordeste brasileiro, continuamos a beber a cultura da Bahia. E a comê-la. Desta vez à mesa do restaurante Casa de Tereza, no bairro do rio Vermelho, com a chef Tereza Paim. E é com ela que voltamos ao assunto Recôncavo Baiano e à sua importância para a Bahia e para o Brasil. Moqueca de peixe, polvo e camarão, carne de panela, caipirinha com jabuticaba são algumas das estrelas, tal como a farofa da chef e o apoio que presta aos produtores locais cujos ingredientes enchem os corredores e as prateleiras da loja da Casa de Tereza.

É com a curiosidade alimentada por uma refeição inesquecível que partimos, no dia seguinte, para o famoso Recôncavo. Andreza Viana é cicerone da Rota da Liberdade, um projeto de turismo étnico de base comunitária. Saímos de Salvador em direção às localidades de Cachoeira e Santo Amaro, local de nascimento dos dois irmãos mais talentosos da música brasileira: Caetano Veloso e Maria Bethânia. Desilusão para os fãs de Sandy e Junior... São duas horas de caminho, em estrada e terra batida até Engenho da Ponte, uma das pequenas aldeias que fazem parte desta rota que procura ser uma fonte de autonomia social e financeira para as comunidades quilombolas locais. Os quilombos eram os refúgios dos africanos e seus descendentes escravizados no Brasil. Quem conseguiu fugir ao opressor português juntou-se nestas comunidades, criando o seu estilo de vida, trabalhando a terra e gerando família. O resultado são várias comunidades, que chegaram aos nossos dias, com população descendente das antigas "pessoas escravizadas". Selma Santos é uma dessas pessoas, memória viva de Engenho da Ponte. Conta-nos o que faz por ali: "De manhã trabalhamos no campo e no mar. À tarde descansa-se. A maré é que manda, isto é o supermercado de Deus."

Em Kalemba, terra ali ao lado, está dona Judite, 75 anos, viúva. Com as mais jovens da aldeia ensina-nos os passos para chegar ao azeite de dendê - ferver o fruto da palmeira, passar pelo pilão, chegar ao engarrafamento. Segue-se a venda, uma grande ajuda para a comunidade. Dali passamos para Kaonge, onde Raimundo Jovelino faz farinha de mandioca e Maria Valdelice, 93 anos, a mais velha da comunidade, explica a receita para o xarope de ervas medicinais. A curta distância está Dendê, terra de Nilton Nogueira, criador de ostras, mais um dos muitos produtos que saem do Recôncavo Baiano para alimentar a capital, o estado e o país. Assim é há séculos, mas agora a procura pelo autêntico, pelo biológico, pelo artesanal, está na moda. E, se isso for uma boa desculpa para melhorar a vida da boa gente que encontrámos pelo caminho, então Andreza está a fazer um excelente trabalho, já que nos traça o retrato perfeito destas comunidades cheias de história e de autenticidade. Mesmo que no resto do Brasil a política esteja exatamente a ser a inversa.


Reportagem originalmente publicado na revista Volta ao Mundo

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