Autarcas franceses declaram guerra ao burquíni em nome da segurança

Uns alegam que é para evitar os fundamentalismos, outros argumentam até que é uma falta de higiene nadar com um traje que só deixa rosto, mãos e pés a descoberto. Violência em praia da Córsega por detrás da última proibição

O que terá começado com uma fotografia acabou com a proibição do uso de burquíni (fatos de banho completos que deixam apenas a descoberto o rosto, as mãos e os pés das mulheres) nas praias de Sisco, uma localidade da Córsega. Pelo meio houve incidentes violentos entre as famílias locais e outras de origem magrebina, que causaram cinco feridos e danos materiais. O presidente da câmara, o socialista Ange-Pierre Vivoni, é o último autarca francês a proibir os burquíni, seguindo o exemplo de Cannes e Villeneuve-Loubet, na Costa Azul.

"Não é uma decisão contra a religião muçulmana, mas para evitar que o fundamentalismo se propague", afirmou Vivoni à AFP. "Não sou racista, desejo proteger a população da minha região, nomeadamente a população muçulmana, porque penso que são as primeiras vítimas destas provocações extremistas", acrescentou, dizendo-se preparado para defender a sua decisão "com unhas e dentes".

Segundo o relato dos acontecimentos de sábado, publicado nos jornais franceses, a violência na praia começou quando turistas tiravam fotos das mulheres que estariam a tomar banho de burquíni. Os familiares reagiram mal e quando um jovem corso quis registar em imagens essa reação, terá sido agredido. Os amigos foram chamar os pais e voltaram com mais quatro dezenas de pessoas. Seguiram-se os confrontos, que obrigaram à intervenção de uma centena de políticas e terminaram com cinco pessoas hospitalizadas e os veículos da família magrebina queimados.

No domingo, 500 pessoas protestaram em Bastia (a 12 km), com apelos às armas - "vamos mostrar-lhes que estamos na nossa casa" - tendo sido necessário um cordão policial para travar a sua entrada no bairro de Lupino, onde há uma grande comunidade de magrebinos. Nos últimos meses, uma série de incidentes elevaram a tensão com os muçulmanos na Córsega - incluindo a queima de cópias do Alcorão em Ajaccio - com os nacionalistas a avisar os islamitas que qualquer ataque na ilha irá desencadear "uma resposta decidida, sem escrúpulos".

Após os protestos de domingo, o autarca reuniu de emergência o conselho municipal e tomou a decisão de proibir os burquínis. A 28 de julho, já depois de protestos terem levado ao cancelamento de um dia aberto aos burquínis numa piscina privada de Marselha, o autarca de Cannes, David Lisnard (d"Os Republicanos), foi o primeiro a tomar essa decisão. No sábado, esta foi validada por um tribunal, depois de uma organização contra a islamofobia ter apresentado queixa.

"Dei esta ordem para garantir a segurança da minha cidade, num contexto do estado de exceção", indicou Lisnard. O estado de exceção foi decretado após os atentados terroristas de novembro de 2015, em Paris, e alargado após o ataque em Nice, no mês passado. "Roupa de praia que ostensivamente mostra a afiliação religiosa, quando a França e lugares de culto estão a ser alvo de ataques terroristas, é suscetível de criar riscos de perturbação da ordem pública", alegou. A 5 de agosto, o presidente da câmara de Villeneuve-Loubet, Lionnel Luca, também do partido do ex-presidente Nicolas Sarkozy, seguiu o exemplo de Cannes, alegando que não é higiénico nadar totalmente vestido.

Em Cannes, quem usar burquíni pode ser multado em 38 euros - sendo primeiro convidado a mudar de fato de banho ou a deixar o espaço. Segundo o jornal Nice Matin, o empresário argelino nascido em França Rachid Nekkaz, que em 2010 criou um fundo de um milhão de euros para pagar todas as multas resultantes da proibição, desde 2004, do uso da burqa ou do niqab (véu islâmico), anunciou que irá também ajudar quem for multado por usar burquíni.

"Profundamente arcaico"

A ministra dos Direitos das Mulheres francesa, Laurence Rossignol, considerou ontem o burquíni como "profundamente arcaico", mas alertou para as "segundas intenções" por detrás do debate sobre o seu uso. A ministra socialista acusa a "direita que flirta com a Frente Nacional" e querer "fazer do islão o tema dos próximos meses" - as presidenciais estão marcadas para 23 de abril do próximo ano. "Não quero ver a nossa sociedade inflamada por este tema", disse à rádio Europe 1.

"O burquíni tem um objetivo. Esse objetivo é dissimular, esconder os corpos das mulheres para esconder as mulheres, e o lugar em que isso coloca as mulheres é um lugar que eu combato, que outros antes de mim combateram, e que tem algo de profundamente arcaico", indicou a ministra. Mas, "para combater esse arcaísmo, é preciso personalidades políticas de sangue frio e sem segundas intenções", acrescentou. "O que está em causa é a emancipação das mulheres", alegou.

Mas há muçulmanas que estão a criticar a decisão. A escritora Ikram Ben Aissa, num artigo no Huffington Post, acusa o autarca de Cannes de confundir quem usa burquíni com uma seguidora do Estado Islâmico. "Não é tolerável aceitar a ideia de que usar um lenço e decidir mostrar o que queremos do nosso corpo é uma prova de fanatismo", escreveu no artigo "Em Cannes, ou mostras o corpo ou ficas em casa."

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