Atentado mortífero em Cabul demonstra fragilidade de governo

Ataque atribuído a organização com ligações aos talibãs. Grupos islamitas intensificaram operações na sequência de forças governamentais e americanas alterarem estratégia para neutralizar a sua influência nas províncias.

Os quase cem mortos, ontem, em pleno centro da capital afegã são a prova de que a situação de guerra que se vive no país está longe do fim, apesar de sucessivos anúncios nesse sentido por parte das autoridades de Cabul e da coligação internacional, liderada pelos Estados Unidos, que combate os grupos islamitas desde a invasão de 2001.

Os 95 mortos e 158 feridos, segundo a última informação do Ministério da Saúde afegão, resultaram da explosão de uma ambulância armadilhada junto de um posto de controlo da polícia numa das áreas mais movimentadas de Cabul. O elevado número de vítimas deveu-se ao facto de sábado ser dia de trabalho e à hora a que sucedeu, 12.15 locais (08.45 em Lisboa), quando um grupo número de pessoas se encontra nas ruas por altura do momento de almoço. Um porta-voz do governo advertiu para a possibilidade do número de mortos aumentar, pois "alguns feridos foram hospitalizados em estado crítico", referiu. O atentado é dos mais mortíferos sucedidos em Cabul desde 2001.

Na área em que sucedeu o atentado encontram-se os escritórios da União Europeia, a sede da polícia, embaixadas e edifícios oficiais, o consulado da Índia, além de uma escola secundária para raparigas, uma série de lojas de antiquários e a sede da entidade que representa o governo afegão nas negociações com os talibãs, atualmente interrompidas. Um porta-voz do grupo islamita reivindicou o ataque através do WhatsApp, indicando que "um mártir fez explodir a viatura armadilhada junto do Ministério do Interior, onde se encontravam importantes efetivos da polícia".

O ataque de ontem é o terceiro desde o início do ano em Cabul e insere-se numa sequência de atentados iniciada pouco depois de Donald Trump, em agosto de 2017, ter anunciado que as tropas americanas permaneceriam no Afeganistão o tempo necessário até derrotarem os grupos islamitas. A multiplicação dos ataques terroristas pretende também ser uma resposta a uma nova estratégia militar das forças afegãs e americanas que tem procurado desalojar os islamitas das principais zonas das províncias do país, onde aqueles continuam ativos. E - principalmente - vem expor a incapacidade das forças afegãs de garantirem a segurança na própria capital, como se viu pelo ataque de há uma semana contra o Hotel Intercontinental e um outro a seis de janeiro, quando um bombista suicida se fez explodir junto de um grupo de polícias que vigiava uma manifestação. No primeiro, morreram 30 pessoas; no segundo, 20.

O nível de alerta e as medidas de segurança são elevados em Cabul, com o seu centro transformado em autêntica fortaleza. Residentes na cidade, políticos e ex-governantes, ouvidos pelas agências, mostravam-se ontem particularmente irritados, dirigindo críticas contundentes aos atuais responsáveis, considerando-os responsáveis pela insegurança em que vivem.

O grupo Haqqani

Para o governo de Cabul, o atentado terá sido organizado pelo grupo Haqqani, sedeado na região paquistanesa do Waziristão do Norte (fronteiriça com o Afeganistão) e que, segundo os serviços de informações dos EUA e diferentes analistas, tem apoios em setores dos serviços de informações militares paquistaneses. Um estudo de 2010 do Institute for the Study of War, sob o título The Haqqani Network, referia que o grupo (do nome de Jalaluddin Haqqani, que combateu as forças soviéticas) "tem o apoio de certos elementos das forças de segurança paquistanesa, que o consideram um aliado útil e testa-de-ferro dos interesses paquistaneses não só em território afegão como em toda a região. Não por acaso, alguns ataques do Haqqani tiveram como alvo interesses da Índia no Afeganistão, além da própria embaixada. O documento explicita que "apesar do Haqqani integrar a rede talibã", mantém "linhas operacionais e um comando autónomos". No início de janeiro, os EUA suspenderam a ajuda em matéria de segurança ao Paquistão sob o argumento que este país não está a atuar contra os talibãs e o grupo Haqqani. Anteriormente, a Casa Branca suspendera um pacote de ajuda militar no valor de 255 milhões de dólares.

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