"Ataque pode consolidar votos de Le Pen e Fillon, mas não os fará ganhar"

Uma eleição inédita. É assim que Jean Garrigues, historiador político e professor de história contemporânea na Universidade de Orleães e na Sciences Po, caracteriza a primeira volta das eleições francesas. Com quatro candidatos favoritos, 30% de indecisos e surpresas como o sucesso de Melénchon e o regresso de Fillon, não há paralelo na quinta república ao que se passa atualmente na política francesa.

Como é que o atentado nos Campos Elísios pode influenciar a reta final da campanha para a primeira volta das eleições?

É sempre difícil avaliar, mas podemos dizer que reforça o sentimento de insegurança e até o anti-islamismo, portanto são mais favoráveis aos candidatos que têm um discurso mais securitário, ou seja, Marine Le Pen e François Fillon. Olhando para o passado, houve um caso de agressão em Orleães durante as eleições de 2002 que acabou por marcar essa campanha. Assim, tivemos na segunda volta Jacques Chirac e Jean-Marie Le Pen. Claro que houve outros fatores, mas conhecendo estes precedentes, podemos ficar com uma ideia do que pode acontecer. Pode consolidar os votos de Le Pen e Fillon, mas não é isso que os fará ganhar.

Este ataque não vai entrar na ponderação dos cerca de 30% de franceses que dizem estar indecisos?

É verdade que temos um número extraordinário de indecisos nesta eleição. Pode haver um impacto nas faixas etárias que se mobilizam mais por causa da segurança, nomeadamente a população mais idosa.

Em comparação a eleições anteriores, o número de indecisos é muito grande. Qual é a razão para isso acontecer?

Tudo é diferente nesta eleição. Estamos a dias de votar e temos quatro candidatos com as mesmas intenções de voto. O número de indecisos está ligado a este panorama, podendo assim aumentar a abstenção.

Como é que se pode explicar uma eleição com tantas variáveis diferentes das eleições passadas?

É simples, há 40 anos de um falhanços acumulados na questão central de qualquer eleição: o desemprego. Ao mesmo tempo, acredito que este é o culminar de um ciclo de 10 anos em que uma nova geração ascendeu ao poder e trouxe consigo uma esperança renovada na política. Falo nomeadamente em Nicolas Sarkozy, Ségolène Royal e até François Bayrou ao centro. Ora bem, essa geração falhou e até a própria alternância com Hollande não correu bem. Assim, reina o sentimento de descrença na vida política com 62% dos franceses a afirmarem que não confiam no Presidente da República.

Escreveu um livro sobre essa questão, ou seja, o facto de os franceses esperarem sempre que o Presidente seja um homem providencial que resolva todos os problemas do país. Porque é que isto acontece?

É um fenómeno recorrente este fascínio por uma personalidade que supostamente vai resolver tudo. É a nossa experiência histórica. Tivemos Napoleão Bonaparte, mas também em 1917, durante a I Guerra Mundial, Georges Clémenceau a quem chamamos o pai da vitória. E depois De Gaulle que personifica em duas ocasiões diferentes essa tal mística do homem providencial. É como dizia De Gaulle: a eleição é o encontro entre um homem e o povo. Em 2007, Sarkozy jogou muito com essa herança. E, claramente, há um candidato nesta eleição que se aproxima da imagem dessa figura: Emmanuel Macron.

Acha que ele estudou e se preparou para encarnar essa figura?

Tenho a certeza. Em maio de 2016, antes de abandonar o Governo, ele participou na festa de Joana d"Arc, em Orleães. Fez um grande discurso e exaltou os valores da Joana d"Arc, nomeadamente, a boa nova que ela trouxe a França. Ele conhece os códigos da política e será essa também uma das razões pelas quais ele esteve na política, mas fora dos partidos políticos e agora forma um movimento para se candidatar. Mesmo o facto de ele não se identificar nem à esquerda nem à direita, significa que ele quer mostrar que só ele pode unir toda a população e dar esperança aos franceses. Algo que, de forma inesperada, também está a ser feito por Mélenchon.

E também com uma grande insistência na questão da soberania usando até expressões como "a França para os franceses", algo vulgarmente utilizado pela Frente Nacional. Estes dois extremos acabam por se tocar?

Sim, face a Macron que representa a rutura no sentido de uma adaptação pragmática à mundialização, do outro lado, há dois populistas. Há uma proximidade entre os programas de Mélenchon, que encarna a tradição comunista, e Marine Le Pen, que encarna a tradição de extrema-direita. São programas que querem alargar a proteção social com o aumento das pensões e do salário mínimo e protecionistas em relação ao plano económico. Por um lado, este aumento de Mélenchon pode dever-se à entrada no eleitorado de Hamon, mas também na captação de votos da Frente Nacional.

A Frente Nacional passou por um género de metamorfose nos últimos 10 anos. Quais são as principais diferenças entre a Frente Nacional liderada por Jean-Marie Le Pen e atualmente por Marine Le Pen?

É incontestável que o discurso da Frente Nacional mudou completamente em relação ao que era nos tempos de Jean-Marie Le Pen, especialmente em relação às questões sociais e económicas. Nos anos 80, a Frente Nacional era um partido ultraliberal, onde o que mais importava era deixar o setor privado desenvolver-se livremente. Já era um pouco antieuropeu, mas esse não era o seu principal combate. Estas mudanças alteraram completamente a maneira como partido se posiciona. Ao mesmo tempo, permaneceram dois aspetos: o discurso contra as elites, que é completamente hipócrita já que a família Le Pen faz parte dessas mesmas elites, e o discurso da exclusão do outro. Essa exclusão antes só se centrava nos imigrantes e hoje alargou-se também a Bruxelas.

Muitos analistas consideram que Le Pen não fez uma boa campanha. Partilha essa ideia?

Eu diria que a campanha da Frente Nacional não deixou nenhuma imagem forte. Ao ter como slogan "A França apaziguada" Marine Le Pen quis dar a ideia de calma e tranquilidade, assumindo a posição de favorita, mas isso não funcionou. Algo relevante foram os deslizes como o facto de dizer que a França não era responsável pela deportação de judeus durante a II Guerra Mundial. Essas afirmações lembram aos franceses a desconfiança face à Frente Nacional. É um lembrete permanente que a Frente Nacional não é um partido como os outros.

Os escândalos de Fillon abalaram as eleições, mas ele é novamente um dos favoritos. Não há qualquer efeito?

Recebo essa pergunta de jornalistas de todo o mundo. Houve um choque internacional quando ele decidiu continuar com a campanha apesar de estar a ser investigado pela justiça. Podemos explicar esta subida em parte pela cultura francesa de desculpar estes lapsos dos homens políticos, mas também pelo sentimento de que o sistema está contra ele. Isso convenceu uma parte do seu eleitorado. Talvez Fillon passe mesmo à segunda volta.

E como é que esta eleição vai marcar o futuro do Partido Socialista em França? Benoît Hamon tem menos de 10% das intenções de voto, um resultado catastrófico para o PS francês.

As diferentes correntes políticas, uma mais reformista e outra mais revolucionário, foram visíveis nas primárias com Valls a representar uma esquerda de Governo e Hamon uma esquerda verdadeiramente social, daí a proposta do rendimento mínimo universal. O problema é que Hamon teve um bom resultado nas primárias, mas que tocou apenas pessoas que perfazem uma parte do eleitorado do Partido Socialista. Ainda por cima Melénchon fez uma ótima campanha e Macron também entra no eleitorado do PS, contando já com apoios como Jean-Yves Le Drian, ministro da Defesa de Hollande, que pode ser o seu primeiro-ministro, e do próprio Valls. Portanto, perante estas alianças, parece quase impossível que não haja uma recomposição à esquerda depois das eleições.

Estamos a falar de uma verdadeira rutura do PS francês?

Parece-me inevitável. Possivelmente, a clivagem no PS é tão forte que uma das facções terá de ganhar o controlo do poder e a outra terá de procurar juntar-se a outro partido. O cenário de uma reconstituição da Frente de Esquerda com a facção de Hamon do PS pode ser possível, ficando assim Valls a controlar o que resta do Partido Socialista.

Quais são as suas expectativas para a segunda volta?

Se Marine Le Pen estiver na segunda volta, o seu oponente, ou seja Macron ou Fillon, vai ganhar. Já se houver um embate entre Le Pen e Melénchon, isso será algo curioso e imprevisível, já que a direita de Fillon dificilmente vai votar Mélenchon. Sem Marine Le Pen na segunda volta, o tradicional debate entre as duas voltas pode ser decisivo, porque vai surgir a questão da legitimidade. Mas tudo pode acontecer. Não nos esqueçamos das eleições de 1974 em que Giscard d'Estaing enfrentou Mitterrand e ganhou, mas passados 7 anos, com exatamente os mesmos candidatos, o resultado foi o inverso, logo as dinâmicas da sociedade também são importantes.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG