Após atentado em Ancara, Turquia retalia contra curdos

Ataques turcos causaram 70 mortos entre as milícias curdas, uma delas apoiadas pelos EUA. Turquia está a entregar armas a grupos da oposição sírias não curdos.

Poucas horas depois do ataque bombista que causou 28 mortos na capital turca, Ancara, a força aérea do país atacou bases do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que o primeiro-ministro Ahmet Davutoglu considerou cúmplice do atentado de quarta-feira.

Ao mesmo tempo, a artilharia turca alvejou posições de uma outra organização curda no Norte da Síria, as Unidades de Proteção do Povo (YPG), que o governo de Ancara apontou como diretamente responsável pela realização do ataque.

No total, os curdos teriam sofrido 70 baixas mortais. Dirigentes das organizações desmentiram, contudo, qualquer envolvimento no atentado. O líder da principal formação curda na Síria, Partido da União Democrática (PYD), de que as YPG são o braço armado, negou "qualquer implicação neste ataque (...) e estas acusações estão claramente ligadas à tentativa [turca] de intervir na Síria", disse Saleh Muslim. Este garantiu nunca ter ouvido "falar de Salih Necar", nome do sírio de 24 anos apontado pelo primeiro-ministro Davutoglu como autor do atentado. Segundo o governante turco, Necar seria um militante das YPG e teria entrado no país em julho de 2014.

Também o presidente Recep Tayyip Erdogan reafirmou que o atentado foi uma operação curda, declarando terem sido efetuadas 14 detenções relacionadas com aquele. Falando em Ancara, Erdogan sublinhou que "aqueles que estão na direção, seja do PKK seja do PYD dizem que nada têm a ver com o assunto, mas o nosso Ministério do Interior e os nossos serviços secretos têm informações e provas a evidenciar terem sido" estas organizações curdas a planear e a realizar o atentado.

As YPG, que são apoiadas pelos Estados Unidos, são, por outro lado, consideradas por Ancara como um grupo terrorista, que as considera associadas ao PKK. Por seu lado, um dirigente deste grupo negava qualquer participação no atentado, mas admitia a possibilidade de outros movimentos curdos terem perpetrado a ação em Ancara como "resposta a massacres no Curdistão", região que abrange áreas da Turquia, Iraque, Síria e Irão.

Ainda ontem, as forças armadas turcas foram alvo de novo ataque bombista no sudeste do país, região curda. Um engenho explodiu à passagem de um veículo militar, matando seis dos ocupantes.

A retaliação de Ancara sucedeu no mesmo dia em que um dirigente da Frente do Levante, que controla uma região fronteiriça com a Turquia, ter anunciado a entrada de cerca de dois mil novos combatentes para reforçar o esforço das unidades curdas na região de Aleppo. Esta região e a cidade com o mesmo nome são palco de uma ofensiva das forças fiéis ao regime de Bashar al-Assad, que procuram recuperar o controlo daquele que foi, até ao início da guerra civil, o principal centro urbano da Síria.

O movimento destes combatentes, provenientes da província síria de Idlib, processou-se através de território turco, tendo sido autorizados, segundo o comandante da Frente do Levante, a "transportarem armas ligeiras e pesadas". O trânsito pela Turquia excluiu elementos dos islamitas da Frente Al-Nusra e de outros grupos extremistas, referiu a mesma fonte.

Uma fonte turca confirmou à Reuters as movimentações das milícias curdas, mas indicou que o número de combatentes envolvidos era na ordem dos 400 a 500, não dois mil.

Segundo fontes da oposição, a Turquia estaria agora, de forma ativa, a fornecer material militar a grupos não curdos que combatem o regime de Assad. "Estamos a ser abastecidos de tudo, de mísseis a morteiros". A ação da Turquia pretende constituir uma resposta à ofensiva das forças fiéis a Damasco, que têm realizado significativos ganhos no terreno, devido ao apoio da aviação russa.

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