Angela Merkel, mamã dos alemães e víbora para os adversários

Sob o regime comunista e a educação científica, aprendeu a ser fria e analítica e, em democracia, a comprometer-se o mínimo

As crianças arrancaram de Angela Merkel o que os jornalistas não conseguiram durante quase três décadas de vida pública. No domingo passado, num encontro com infantes, a chanceler alemã predispôs-se a responder a uma bateria de perguntas, desde as mais elaboradas sobre poluição e energia, às mais espontâneas, como por exemplo, sobre a queda do seu primeiro dente. Em pequena, revelou, sonhava ser astronauta; tem como cor preferida o ciano; no reino animal elege o ouriço, o elefante e a lebre; e o prato favorito é esparguete à bolonhesa. Nos tempos livres gosta de nadar, de fazer jardinagem, e cultiva batatas (há uns anos revelara que a sopa de batata era um dos seus pratos favoritos). O melhor momento da sua vida? Quando conheceu o atual marido, Joachim Sauer. Trivialidades que a mulher mais poderosa do mundo deu a conhecer num dia em que deixou os assessores admirados, ao vê-la dançar música pop e ao convidar as crianças para uma fotografia de grupo. Angela a ser ela própria ou a representar o papel de mutti (mamã, como parte dos alemães a trata)?

Se há traços da personalidade de Angela Merkel que estão desenhados de forma bastante definida são o seu calculismo e a capacidade de análise perante cada situação. O ambiente ditatorial da Republica Democrática Alemã, a educação que recebeu e os estudos (especializada em química quântica) terão a quota-parte na contribuição para essas características. Angela Kasner nasceu em Hamburgo, em 1954, mas passadas algumas semanas, o pai, Horst, escolheu o outro lado da cortina de ferro para prosseguir a sua evangelização como pastor luterano. Os Kasner assentaram arraiais nos arredores de Templin, a norte de Berlim, em Waldhof, propriedade da igreja que incluía campos agrícolas e um lar de pessoas com deficiência. A mudança de oeste para leste - rara - valeu ao pai o epíteto de "ministro vermelho" na República Federal Alemã. E foi motivo de grande infelicidade da mulher, Herlind, que não mais conseguiu colocação como professora de inglês.

Na adolescência, Angela deu nas vistas como estudante aplicada. Por três vezes foi a vencedora, a nível nacional, das chamadas olimpíadas de língua russa (é a única líder mundial a falar com Vladimir Putin na língua deste). Fez parte da Juventude Livre Alemã, a ala juvenil da RDA. O livro Das Erste Leben der Angela M (A primeira vida de Angela M), escrito por um jornalista e biógrafo de figuras nazis, Ralf Georg Reuth, e por um jornalista ligado desde o ano passado à AfD (Alternativa para a Alemanha, extrema-direita), Günther Lachmann, deu como certo que a vida política de Angela Merkel começou na Juventude Livre Alemã, enquanto dirigente responsável pela propaganda, e não em 1989, após a queda do Muro de Berlim. À época em que foi lançado, 2013, a chanceler negou as alegações e declarou: "Se algo diferente for revelado, eu posso viver com isso. O que é importante para mim é que nunca tentei esconder nada. Talvez não tenha explicado algo porque ninguém me perguntou."

Facto é que quando o regime comunista implode, a então investigadora na Academia de Ciências conhece uma rápida ascensão na política. Milita no partido Demokratischer Aufbruch (Despertar Democrático) e, poucos meses depois, quando o líder do partido é denunciado como antigo informador da Stasi (polícia secreta), Merkel enfrenta os jornalistas e passa a porta-voz da formação; após as únicas eleições livres na RDA, ganhas pela CDU, é designada porta-voz do primeiro-ministro Lothar de Maizière. Com a reunificação, Merkel é eleita deputada e, por sugestão de Maizière, integra o governo de Helmut Kohl como ministra das Mulheres e da Juventude. Em menos de um ano, Merkel passou de total desconhecida a "mein Mädchen" (a minha miúda) do chanceler. Mais tarde passou para uma pasta com mais peso, a do Ambiente. Nos corredores dos ministérios, segundo a biógrafa Evelyn Roll, era conhecida como Angie, a víbora, pelo temperamento e reputação de ter pouco poder de encaixe às críticas que lhe dirigiam.

Em 1999, com a CDU na oposição e um escândalo de financiamento ilegal a manchar o partido, Merkel faz xeque-mate a Kohl, ao escrever um artigo de opinião em que apelou ao estadista para sair de cena (e com ele o seu sucessor, Wolfgang Schäuble). À New Yorker o ex-ministro da cultura Michael Naumann conta que certo dia perguntou a Kohl o que move Merkel. "Poder." E a outro amigo, o chanceler que morreu este ano terá lamentado como "o pior erro da vida" ter promovido Merkel. "Eu pus a víbora no meu braço." No mesmo perfil, o antigo embaixador dos Estados Unidos na Alemanha John Kornblum afirmou: "Quem se cruza com ela acaba morto." Angela Merkel não teve pressa: nas eleições de 2002 quem concorreu foi Edmund Stoiber, o líder do partido irmão, a CSU. Três anos depois, as eleições antecipadas acabam com a coligação SPD/Verdes (e com a vida política de Gerhard Schröder) e colocam uma mulher, pela primeira vez, no poder. Doze anos depois, ainda que com as crises do euro e dos refugiados e imigrantes a pesarem contra si, Angela Merkel não encontra oposição à sua altura. Para o bem e para o mal, é já uma lenda.

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