Alimentos congelados, a China e a covid. Um risco ou uma desculpa para os novos casos?

O virologista Pedro Simas considera um disparate deixar de se ingerir comida congelada. Os chineses já declaram guerra aos produtos importados de países que, agora, têm mais infeções.

As notícias sucedem-se: China encontra vestígios do novo coronavírus em salmão importado, China deteta o vírus em asas de frango vindas do Brasil, China descobre vestígios de coronavírus em camarão do Equador. Esta semana, a notícia foi a de que dois estivadores do porto de Qingdao, apesar de assintomáticos, deram positivo à covid-19.Depois de realizadas as análises, chegou o veredito: várias amostras de peixe congelado revelavam a presença de SARS-coV-2.

As autoridades chinesas têm atribuído ao manuseamento dos alimentos congelados o surgimento de alguns focos de covid-19, depois de ter estado vários dias sem registar infeções. E, por causa disso, já declarou uma guerra aos alimentos importados de países onde a pandemia está a ser mais grave.

Desde maio sem registar mortes

Será uma questão política, de querer atribuir a terceiros a responsabilidade pelo ressurgimento, ainda que em menor escala, da doença? Certo é que o país onde surgiu o novo coronavírus, em dezembro do ano passado, está desde 19 de maio sem dar conta de mortes por covid-19 - a China regista um total de 4 634 mortes. Mesmo o número de novos casos é irrisório, sobretudo se comparado com os Estados Unidos e Espanha, onde diariamente se registam novas infeções na ordem das dezenas de milhar. Os anúncios vindos da China não vão além das poucas dezenas - o país que esteve no topo da lista como o mais massacrado com a doença, agora está no 44ª lugar, a nível mundial.

O resultado das análises aos estivadores de Qingdao foram conhecidas a 24 de setembro, mas as notícias tinham outro foco: estes casos foram as primeiras infeções locais na China em 45 dias. Segundo a Comissão Municipal de Saúde de Qingdao, a causa são os pacotes de peixe congelado que chegaram da Rússia. Foram analisadas 1 440 amostras e encontrados 51 vestígios de coronavírus.

Coronavírus transmite-se na alimentação?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que a possibilidade de contrair o coronavírus pela alimentação é baixa. Já a norte-americana Food and Drug Administration ressalva que não há nenhuma evidência direta de que o coronavírus seja transmitido em alimentos ou embalagens. "Não há nada que sugira que o manuseio ou consumo de alimentos esteja associado ao Covid-19. Sabe-se que a principal rota que o vírus leva de pessoa a pessoa através dos espirros, tosse, fala ou mesmo respiração."

Isso mesmo é referido pelo virologista Pedro Simas, que lembra que a principal forma de transmissão se faz através de práticas respiratórias. "É extremamente improvável, embora possa haver a possibilidade teórica de isso acontecer, mas é preciso fazer estudos. São coisas bizarras, sem impacto. O que tem impacto pandémico são as pessoas infetadas, que são assintomáticas."

O facto de o vírus poder ser encontrado em alimentos congelado também não surpreende o virologista, que lembra o facto de os vírus conseguirem sobreviver a temperaturas negativas. Além disso, refere que se os alimentos forem cozinhados dentro de elementares regras de higiene e segurança, o vírus não sobreviverá às temperaturas elevadas. "Não sobrevive ao ser cozinhado, o calor mata tudo. Um simples detergente inativa o vírus", lembra.

Por isso, considera seguro ingerir alimentos congelados. "Era um disparate deixarmos de o fazer!"

Conforme refere Pedro Simas, a sobrevivência de vírus a baixas temperaturas não constitui surpresa - é, aliás, uma fórmula usada pelos cientistas. Um estudo realizado em Singapura, divulgado em agosto, diz que o novo coronavírus pode sobreviver na comida congelada durante três semanas - as conclusões justificavam que a importação de alimentos ou de embalagens contaminados pela covid-19 poderia para explicar o ressurgimento da doença em locais onde aparentemente não se registava casos.

No decorrer da investigação, o vírus foi posto em pedaços de salmão, de galinha e de porco. A carne contaminada foi depois congelada, com a comida a ser mantida à temperatura em que seria transportada para importação ou exportação em diferentes países - entre os 4º C, a temperatura normal de refrigeração, até aos -20º, a temperatura média de congelação. E descobriu-se que, ao fim de 21 dias, o vírus ainda resistia.

"Embora se possa argumentar com segurança que a transmissão por meio de alimentos contaminados não é uma rota de infeção importante, o potencial de movimento de itens contaminados para uma região sem covid-19 iniciar um surto é uma hipótese importante", indicavam os investigadores, lembrando os focos que tinham surgiram no Vietname, na Nova Zelândia e em partes da China, onde não havia casos há alguns meses.

Saga dos alimentos congelados começou em junho

O caso do porto de Qingdao foi o último onde as autoridades sanitárias encontraram vestígios do novo coronavírus em alimentos congelados - outros aconteceram antes, havendo situações, como a das asas de frango vindas do Brasil, ou dos camarões do Equador, em que, manuseou os produtos, não ficou infetado. Mas estes casos foram suficientes para a China decretar uma guerra à importação de produtos congelados importados de países que agora estão a ser mais atingidos pela covid-19. As autoridades dizem mesmo que "há risco de contaminação".

A primeira vez que a China falou em alimentos contaminados pelo vírus foi em junho passado, quando ser registaram mais de 300 infeções no maior mercado de alimentos de Pequim. A investigação das autoridades sanitárias atribuiu o surto ao salmão - entre os pormenores avançados, referia-se que o vírus, uma estirpe europeia, foi encontrado numa tábua de cortar peixe usada por um vendedor de salmão importado.

O resultado foi que o salmão foi retirado dos mercados e das prateleiras dos supermercados e deixou em alvoroço um mercado de 600 milhões de euros, causando um duro golpe para os exportadores como Dinamarca, a Noruega e a Austrália.

"Seria necessária uma série de eventos extraordinariamente incomuns para que o vírus fosse transmitido por um produto congelado."

Em agosto, foram encontrados vestígios do novo coronavírus em embalagens de asas de frango, importadas do Brasil. Depois de testado, o pessoal das alfândegas que entrou em contacto com os alimentos deu negativo à covid-19. Seguiu-se o camarão no Equador e outras embalagens de marisco com origem da América Latina. Também neste caso, as pessoas que fizeram o teste não tinha contraído infeção.

"Seria necessária uma série de eventos extraordinariamente incomuns para que o vírus fosse transmitido por um produto congelado. Dependendo de onde o vírus se originou, ele teria que suportar uma jornada através de um continente congelado, provavelmente derretendo e congelar novamente pelo menos uma vez no caminho e, em seguida, encontrar as mãos nuas de alguém, que logo depois acabaria tocando o nariz ou a boca", disse ao New York Times Brandon Ogbunu, biólogo e geneticista da Universidade de Yale, quando questionado sobre os riscos dos alimentos congelados.

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