África Oriental enfrenta tripla ameaça: covid-19, cheias e milhões de gafanhotos

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) alertou esta quinta-feira para a "tripla ameaça" sobre milhões de pessoas na África Oriental, confrontadas com pragas de gafanhotos, a pandemia de covid-19 e cheias mortíferas.

De acordo com os especialistas da FAO, uma nova e maior praga de gafanhotos, com milhares de milhões destes insetos, está em movimento na África Oriental, com alguns países a sofrerem as piores invasões em 70 anos.

Numa região que alberga cerca de 20% da população mundial que vive em insegurança alimentar, incluindo milhões de pessoas no Sudão do Sul e Somália, a doença provocada pelo novo coronavírus representa uma ameaça acrescida.

O Iémen, na vizinha Península Arábica, também está ameaçado, e os responsáveis da FAO advertem que, se os gafanhotos não forem controlados, o país, que está mergulhado num conflito, continuará a ser um reservatório para novas infestações na região.

O confinamento e o fecho de fronteiras impostos pela pandemia de covid-19 atrasaram os esforços para combater os gafanhotos, especialmente as importações dos pesticidas necessários para a pulverização aérea, considerado o único método de controlo eficaz.

"Não estamos perante uma praga, mas se houver chuvas no verão e as operações de controlo forem mal-sucedidas, poderemos ser atingidos por uma praga até ao final deste ano", disse Keith Cressman, responsável pela monitorização de gafanhotos da FAO.

Segundo este responsável, existe um grande risco de os gafanhotos alastrarem, nos próximos meses, para a região do Sahel, na África Ocidental.

O Chade, o Níger e a Mauritânia podem ser afetados, naquele que será mais um problema numa região sob a ameaça crescente de ataques de grupos extremistas.

Por isso, adiantou, a FAO vai aumentar o seu apelo à ajuda para 310 milhões de dólares (quase 283 milhões de euros), uma vez que está em causa a subsistência de milhões de pessoas na Etiópia, Quénia e outros países.

"Já foram protegidos cerca de 400 mil hectares de terra dos gafanhotos, o equivalente a culturas suficientes para alimentar cerca de cinco milhões de pessoas", disse Dominique Burgeon, diretor de emergências da FAO, adiantando que esta é apenas "uma parte da equação".

O número de gafanhotos continua a aumentar apesar dos esforços de controlo e, se esse trabalho não for mantido, a ameaça combinada com a covid-10 e as inundações "pode ter um efeito catastrófico", considerou, por seu lado, o diretor-geral da FAO, Qu Dongyu.

Na sua mais recente avaliação, a FAO afirmou que a situação em certas regiões da África Oriental continua a ser "extremamente alarmante", porque a partir de meados de junho irão formar-se novos enxames, coincidindo com o início da época da colheita para muitos agricultores.

O Banco Mundial aprovou um novo programa de 500 milhões de dólares (cerca de 456 milhões de euros) para os países mais afetados, com o Uganda, Quénia, Jibuti e Etiópia a receberem um desembolso inicial de 160 milhões de dólares (cerca de 146 milhões de euros).

Parte do dinheiro irá diretamente em numerário para os agricultores.

Segundo a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, as recentes inundações em várias zonas da África Oriental mataram quase 300 pessoas e deslocaram 500 mil, atrasando o trabalho de controlo dos gafanhotos e aumentando o risco de propagação do novo coronavírus.

"Estamos perante uma situação humanitária invulgarmente complexa", afirmou Simon Missiri, diretor da organização para África.

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