Afinal o brexit não salva o serviço de saúde britânico?

No autocarro de campanha estava escrito que os 350 milhões de libras semanais que alegadamente o país pouparia por sair da União Europeia seriam usados para investir na saúde. Mas agora ninguém admite ter feito essa promessa

Longas listas de espera para cirurgia, atrasos na marcação de consultas e imprevistos que fazem que o que estava previsto para as 11.00 só seja possível às 11.30. Estas podiam ser as queixas de um utente português do Serviço Nacional de Saúde, mas são as que se ouvem junto ao St. Thomas Hospital, cujo moderno edifício se ergue em frente ao Parlamento britânico, na margem oposta do rio Tamisa. Arma de arremesso durante a campanha do referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia, o sistema de saúde britânico (NHS) espera para ver quais serão as consequências da vitória do brexit.

"Nunca acreditei no que eles diziam", conta Margaret, enquanto apanha um pouco de ar nos jardins à entrada da ala norte do hospital da capital britânica. Eles, de quem esta reformada fala, são os defensores do brexit, como o líder dos independentistas do UKIP, Nigel Farage, que argumentou que sair da União Europeia iria permitir poupar 350 milhões de libras por semana em contribuições para Bruxelas. E que esse dinheiro seria usado para investir no NHS. Contudo, logo depois da vitória, o próprio Farage veio dizer que nunca tinha feito tal promessa. "É um mentiroso", acrescenta Margaret, que veio visitar uma amiga internada.

Mas Jeremy, que saiu do hospital apoiado numa muleta (teve um acidente de bicicleta), ainda acha que podem não ser os 350 milhões, mas algum dinheiro será aproveitado para melhorar o sistema. "Pelo menos isso, já que vamos ter de viver com as consequências do voto para sair da União Europeia", explica, acrescentando que era um dos que escolheram "ficar". "O problema é que são os nossos impostos que financiam o NHS e toda a gente pode usufruir gratuitamente, mesmo que tenha acabado de chegar. Pelo que sei, tem havido um aumento da procura por haver mais imigração e isso torna mais difícil conseguirmos ser atendidos", refere. "E muitas pessoas podem ter ouvido o argumento do brexit e achado que era verdade e que a situação seria melhor. Aposto que já se arrependeram."

O St. Thomas Hospital foi fundado no século XII, mudando-se para a atual localização no final do século XIX, na mesma altura em que Florence Nightingale, fundadora da enfermagem moderna, estabeleceu aqui a sua escola profissional - hoje parte do King"s College. Curiosamente, aquela que é talvez a enfermeira mais famosa do mundo (no hospital existe um museu em sua honra) era uma britânica nascida em Florença, em Itália. Hoje, muitos dos enfermeiros e médicos que trabalham no sistema nacional de saúde britânicos são estrangeiros.

"Sinceramente, se há algo bom no sistema de saúde são as pessoas que nele trabalham e muitos não são ingleses", indicou Margaret. É o caso da enfermeira Rita Camilo, que trabalha em Cambridge, e da médica pediatra Catarina Silvestre, de Nottingham. As duas portuguesas conhecem por dentro o NHS e olham com apreensão para o resultado do referendo de quinta-feira.

"Acho que ainda é muito cedo para saber o que se vai passar. Para já espero que não vá influenciar a minha posição no hospital nem as minhas oportunidades futuras", afirmou a enfermeira Camilo, há dez anos no Reino Unido, dizendo que a nível interno o tema não do brexit é discutido. "O hospital esteve quase à beira da falência e é nisso que as pessoas estão focadas, em resolver os nossos próprios problemas", explica, dizendo que "o sistema não tem noção dos recursos que tem" e que por vezes o que falha é "a capacidade de os organizar de forma eficaz".

"Ninguém dentro do NHS acreditou na promessa do Farage", conta também Catarina Silvestre, admitindo que agora a preocupação é perceber quais vão ser as consequências. No seu departamento, explica, há cinco pessoas e só uma é inglesa. Três são de países da União Europeia. "O que aconteceria se decidíssemos ir embora", questiona. "Em vez de salvar o NHS, como o brexit prometia, se calhar pode acontecer o contrário", acrescenta. "Acredito que aquilo que os imigrantes trazem para o sistema é mais valioso do que aquilo que os imigrantes tiram do sistema", referiu.

O Reino Unido foi o destino de muitos profissionais de saúde portugueses, recrutados às centenas logo à saída das universidades. Mas a médica pediatra teme que isso possa mudar. "Eles vinham para cá porque era fácil. Mas se aumentar a burocracia, se calhar escolhem ir para outro país qualquer", explica Catarina. "Eu vim porque o meu marido arranjou cá trabalho, mas para os que não têm ainda família, podem muito bem optar por ir para a Alemanha ou para outro país onde também são desejados. E não falo só dos portugueses", refere.

Enviada a Londres

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