Adolescente violada muda de nome e de cidade após ameaças de traficantes

Devido ao perigo de vida, jovem entrou no programa de proteção à testemunha. Evangélica antiaborto na Secretaria das Mulheres

Após ter sido ameaçada de morte pelos líderes do tráfico de droga no Morro da Barão, favela do Rio de Janeiro onde foi violada por cerca de 30 homens a 21 de maio, a adolescente de 16 anos vai mudar de nome e de estado, ao abrigo do programa de proteção à testemunha. Segundo o secretário estadual de Assistência Social e de Direitos Humanos do Rio, a jovem está tão assustada que se dispõe a viver sem computador nem telemóvel para que os traficantes não a possam localizar.

"Fiquei estupefacto com a maturidade e a tranquilidade dela, pediu para falar comigo sozinha, sem a presença da avó, que costuma acompanhá-la, e mostrou-se inteligente, articulada e madura mas está assustada porque recebeu ameaças de traficantes e estava com pressa de ir embora do Rio para outro estado", disse o secretário Paulo Melo. Além da adolescente, também os pais, a avó, o irmão, de 6 anos, e o filho, de 3, devem abandonar a casa onde vivem por estarem sob ameaça. "O perigo de morte é real", disse Melo.

O líder do tráfico no Morro da Barão, favela da região São José Operário, a oeste do Rio de Janeiro, é o temido Marreta, alcunha de Luiz Machado Gomes. Mesmo preso na cadeia federal de Porto Velho, a 3500 quilómetros do Rio, desde que foi detido no Paraguai em 2014, Marreta, que colidera o grupo criminoso nacional Comando Vermelho, controla os seus homens.

O seu representante no local, Sérgio Luiz da Silva Júnior, chamado Da Russa, é um dos sete acusados do crime e continua foragido. Segundo testemunhas, Marreta decretou a morte da adolescente por ela ter dado má publicidade ao Morro da Barão e com isso alertado a polícia para as atividades dos traficantes. A jovem teme ser queimada vida, a punição mais comum do gangue, disse uma testemunha que acompanhou o seu depoimento.

A família da adolescente mora em Taquara, uma área de classe média, mas ela tinha por hábito frequentar bailes funk no Morro da Barão, a seis quilómetros, porque antes vivera noutra região do Rio que era dominada pelos hoje chefes do morro. Bonita, segundo conhecidos, destacava-se no bairro e acabou por engravidar aos 13, apesar de o pai a impedir de sair de casa.

Na noite do crime, encontrou num baile funk Lucas Santos, conhecido como Luquinhas no Boa Vista, clube de futebol onde atua, com quem mantinha um relacionamento sem compromisso. Depois terá ido para casa dele e só se lembra de acordar noutra casa, dopada, nua e cercada por 33 homens armados. Lucas foi detido na segunda--feira à noite quando falava a um canal desportivo. Depois de no dia seguinte pedir satisfações ao chefe local Da Russa, que também a terá violado, e de saber que circulava um vídeo na internet, decidiu queixar-se à polícia. Alessandro Thiers, delegado que se ocupou do caso, foi afastado por supostamente ter intimidado a adolescente durante o interrogatório. Em conversas privadas no WhatsApp, Thiers confidenciou a amigos que não acredita na versão da vítima. A sua substituta, a delegada Cristiana Bento, já confirmou a existência de uma violação. "Falta apurar a extensão", disse.

Já o governo liderado pelo presidente interino Michel Temer, do PMDB, foi criticado por demorar a reagir ao caso. Por isso, na terça-feira à noite, lançou um programa, por enquanto sem prazo nem orçamento, de proteção às mulheres, com pontos como a criação de um cadastro nacional e agravamento das penas em caso de violação coletiva. Mas com o nome da nova Secretaria de Políticas para Mulheres as críticas voltaram em força: a socióloga Fátima Pelaes, amiga pessoal de Temer e ex-deputada do PMDB, é evangélica e contrária ao aborto mesmo em caso de violação. Numa sessão da Câmara dos Deputados, Pelaes chegou a afirmar que nasceu de uma violação sofrida pela mãe numa penitenciária, onde cumpria pena por crime passional.

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