Aborto gera clima de tensão entre Marine e Marion Le Pen na Frente Nacional

Sobrinha acusa a tia de não assumir a sua posição sobre o reembolso das Interrupções Voluntárias da Gravidez por motivos eleitorais. A candidata defende que a polémica é "extemporânea" e não ser tempo de "querelas internas"

A polémica estalou na semana passada, quando Marion Maréchal-Le Pen criticou o reembolso "total e ilimitado" das Interrupções Voluntárias da Gravidez (IVG), tendo sido posta rapidamente no lugar pela sua tia, Marine Le Pen. A líder da Frente Nacional, e candidata do partido nas presidenciais do próximo ano, lembrou que não está a decorrer nenhum debate sobre o assunto e que o seu programa eleitoral não referia a questão do aborto e do seu reembolso.

A neta de Jean-Marie Le Pen é desde sempre a favor do direito ao aborto, mas critica o recurso excessivo a esta intervenção, defendendo que seja, retirados os apoios da Segurança Social, declarando que "não é ao Estado que cabe reparar as desatenções de certas mulheres". O que a levou agora a entrar em choque com a tia e com o vice-presidente da Frente Nacional, Florian Phillipot, ao dizer que essa era também postura da tia na sua campanha presidencial em 2012.

Na quarta-feira, Marion Márechal Le Pen voltou à carga. Em declarações à Europe 1, a deputada explicou que, no fundo, a sua tia materna sempre esteve de acordo consigo, lembrando que há quatro anos ela criticava o que chamava de "IVG por conforto", referindo-se às mulheres que abortariam várias vezes, usando esta intervenção como uma espécie de método contracetivo. Agora, prosseguiu a jovem deputada, a tia decidiu evitar esta questão por motivos eleitorais.

"Não acho que ela mudou de opinião. Acho que ela escolheu não colocar este tema no seu programa porque ela não é a candidata da Frente Nacional, ela é uma candidata apoiada pela Frente Nacional e, como tal, é um facto que o seu programa não se limita exatamente às posições do partido", sublinhou a jovem deputada, admitindo que o aborto "não está no topo das preocupações diárias dos franceses".

Uma afirmação que vai de encontro ao que Marine Le Pen havia dito no último domingo, no programa Grande Júri da RTL-Le Figaro-LCI, altura em que classificou a polémica iniciada pela sobrinha como "extemporânea" e de "pequenas fricções" o que ela tem dito publicamente sobre este assunto, mas com as quais deseja terminar rapidamente. "Existem milhões de patriotas franceses que nos apoiam e que não nos perdoariam se caíssemos neste tipo de querelas, dada a gravidade que assola hoje o país e as dificuldades que atravessam", declarou a candidata presidencial sobre a sobrinha, mas também sobre o vice-presidente da Frente Nacional, Florian Phillipot, e o seu diretor de campanha, David Racheline, que têm assumido os ataques mais diretos a Marion.

Depois da primeira reação de Marine Le Pen, Phillipot, o braço direito da líder do partido, garantiu numa ida ao canal BFMTV que a benjamim da família estava "sozinha e isolada" neste tema. A jovem respondeu que a linha política da Frente Nacional "não era definida na BFMTV".

A sobrinha de Marine reconheceu entretanto que esta polémica é "um pouco exagerada". "É verdade que pedi a Florian que esperava um mínimo de respeito, porque ele foi um pouco abrupto na sua maneira de dizer as coisas. Mas daí a dizer que era sinal de uma deslealdade para com Marine Le Pen e que a Frente Nacional estava à beira de uma explosão, isso é exagerado", disse à Europe 1.

Matar o próprio pai

Esta não é a primeira guerra entre membros da família Le Pen. A 20 de agosto de 2015, a Frente Nacional decidiu expulsar Jean-Marie Le Pen, um dos fundadores desta força política, devido a declarações antissemitas. A decisão foi tomada pelo comité executivo do partido, já então liderado pela filha Marine, que havia ordenado a suspensão do pai. Uns meses antes, o antigo deputado, de 88 anos, havia dito que as câmaras de gás dos campos de concentração nazis não eram mais que "um detalhe" da história.

Numa entrevista dada à rádio RTL, Le Pen disse que a sua audição havia sido "uma fantochada" e uma "emboscada", acusando Marine Le Pen de orquestrar a sua expulsão. "Ela encomendou o esquadrão de fuzilamento por telefone. Não quis envolver-se diretamente porque iria parecer mal", declarou na altura. "É feio matar o próprio pai, por isso não matou o pai diretamente, fê-lo através de um cúmplice", acrescentou. "Eu sou a Frente Nacional", rematou.

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