Abdel al-Sisi: o presidente egípcio testado ao limite pelo terrorismo islâmico

Atentado em mesquita sufi no Sinai atribuído a Estado Islâmico. Fez 305 mortos. Especialistas em terrorismo questionam verdadeira eficácia da repressão militar do regime de Al-Sisi

No discurso que fez em julho na Conferência Nacional da Juventude, em Alexandria, ​​​​​​​Abdel Fatah al--Sisi enumerou o terrorismo (a par da sobrepopulação) como um dos maiores desafios do Egito. Até então o maior atentado terrorista da sua presidência fora a queda, na península do Sinai, de um avião comercial russo em outubro de 2015. O aparelho explodiu quando a bomba colocada numa lata de sumo de ananás Schweppes Gold foi detonada. 224 pessoas morreram, na maioria turistas russos, no ataque reivindicado pelo Estado Islâmico. A repressão militar aumentou, mas a verdade é que os ataques não cessaram e, esta sexta-feira, os limites voltaram a ser ultrapassados. Mais uma vez no Sinai: 305 mortos num atentado contra uma mesquita sufi em Bir al-Abed. Novamente atribuído ao Estado Islâmico, é o mais mortífero da história do Egito. E põe em causa a estratégia que tem sido seguida, até agora, por Al-Sisi.

"O Egito está a enfrentar o terrorismo em nome de toda uma região e o objetivo do que tem estado a acontecer é impedir-nos de confrontar o terrorismo. Vamos responder a este ato e as forças armadas e a polícia vingarão os nossos mártires e restabelecerão a segurança de forma brutal", afirmou Al-Sisi na televisão egípcia, em reação ao ataque no Sinai. 27 crianças estão entre os mortos e 128 pessoas ficaram feridas. Às primeiras horas da manhã de ontem os militares egípcios lançaram ataques aéreos nas zonas montanhosas próximas do local do atentado, a 80 km para oeste de Al-Arish, capital do Norte do Sinai. Fontes do aparelho de segurança, citadas pelo correspondente do El Mundo no Cairo, Francisco Carrión, deram conta de pelo menos 15 atacantes mortos e vários veículos todo-o-terreno, que foram usados no atentado, destruídos.

As autoridades egípcias divulgaram ontem os pormenores sobre o ataque de sexta-feira. Os terroristas eram entre 20 e 30, mascarados e vestidos de uniformes militares e com bandeiras do Estado Islâmico. O atentado iniciou-se com a explosão de uma bomba, prolongou-se depois com um tiroteio contra os fiéis que estavam na mesquita na altura e depois contra as ambulâncias que acorreram ao local para prestar apoio. Os islamitas leais ao grupo terrorista originado no Iraque e na Síria têm vindo a perseguir desde o início deste ano as minorias cristã e sufi (estes últimos são uma corrente mística do islão que os radicais consideram doentes e apóstatas). A Al-Qaeda, também ativa no país, prefere alvos militares. "Não é que a Al-Qaeda seja mais moderada do que o Estado Islâmico... é só mais pragmática”, disse ao jornalista Jason Burke, do Guardian, o especialista em terrorismo norte-americano Daveed Gartenstein-Ross.

Após chegar ao poder, através do golpe de Estado que derrubou Mohamed Morsi, o primeiro presidente democraticamente eleito do Egito e sucessor de Hosni Mubarak, Al-Sisi, que é general, lançou uma campanha de repressão contra islamitas membros da Irmandade Muçulmana. Organizações como a Human Rights Watch chegaram a denunciar a morte de 2600 pessoas, 1250 das quais eram consideradas apoiantes da Irmandade Muçulmana. Em resposta, Al-Sisi insiste que os direitos humanos no seu país não podem ser analisados à luz dos padrões estabelecidos pelo Ocidente.

Depois de mandar Morsi para a cadeia, Al-Sisi foi eleito, em 2014, presidente com 96,91% dos votos. Com o opositor a cumprir agora pena de prisão perpétua, o seu único rival conhecido para as presidenciais de 2018 é, até agora, o advogado Khaled Ali. Apoiado por EUA e UE, o atual chefe do Estado egípcio tem, porém, o problema do terrorismo, que afeta fortemente o turismo, para resolver. O ataque de sexta-feira "põe em evidência que as táticas levadas a cabo nos últimos anos pelos militares egípcios são um falhanço", afirmou à Bloomberg Riccardo Fabiani, analista para a África do Norte e o Médio Oriente do Eurasia Group.

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