"A Rússia é como um urso ferido: forte, imprevisível e com uma longa memória"

Entrevista a Michael Stuermer, historiador alemão e autor do livro Putin e o Despertar da Rússia

Foi a 26 de dezembro de 1991 que a União Soviética deixou de existir. Uma das duas superpotências, só com os Estados Unidos como rival à altura, desaparecia ainda antes de completar 75 anos. Na véspera, o último líder soviético, Mikhail Gorbachev, tinha passado os seus poderes - incluindo o controlo do arsenal nuclear - ao presidente da Rússia, Boris Ieltsin. No Kremlin, a bandeira vermelha foi substituída pela tricolor russa. Seguiu-se uma década de debilidade da nova Rússia, até à ascensão de Vladimir Putin, que Ieltsin nomeou como seu sucessor a 31 de dezembro de 1999. O historiador alemão Michael Stuermer, que conhece bem Putin, conversou com o DN sobre a Rússia de hoje, capaz de anexar a Crimeia, controlar o Leste da Ucrânia e definir o rumo da guerra na Síria.

Veja aqui uma infografia do espaço pós-soviético.

O fim da União Soviética era inevitável?

Sim, era inevitável, mas com a data em aberto. O sistema social era absurdo. Havia um sobredimensionamento imperial, mesmo antes de os preços do petróleo terem colapsado em 1986. Cronicamente, a União Soviética sofria desse "sobredimensionamento imperial", para citar Hannes Admoeit.

Como avalia o desempenho de Mikhail Gorbachev como último presidente soviético?

Gorbachev não destruiu a União Soviética, mas fracassou na tentativa de alcançar o impossível: salvar a União Soviética através de uma revolução feita de cima - e assim libertando forças que não podia controlar. É um herói trágico.

Faz sentido a Rússia ter ficado como herdeira oficial da União Soviética, desde o assento no Conselho de Segurança da ONU até todo o arsenal nuclear, ou deveria a Ucrânia e outras repúblicas da Europa de Leste e da Ásia Central terem obtido mais dos despojos?

A história mundial não é conduzida assim tanto pela luta de classes, como Karl Marx queria que acreditássemos, mas por uma sucessão de guerras sobre direitos de sucessão - um pouco como na vida privada. Para os patriotas russos, os pequenos irmãos na Ucrânia deveriam ficar felizes por serem incluídos na Russki Mir. Em vez disso, eles tentaram ultrapassar a sua desvantagem geográfica e juntarem-se ao Ocidente - mais ou menos. A Rússia é, para citar George Shultz, como um urso ferido: forte, imprevisível e com uma longa memória. O alargamento da NATO a Leste não está esquecido e não foi perdoado.

Considera o presidente Vladimir Putin, que conhece bem e sobre o qual escreveu um livro, um nostálgico da União Soviética?

Na aparência, parece sê-lo. Mas Putin incorpora também outros elementos muito mais antigos. A União Soviética foi um fracasso e na visão de Putin os comunistas arruinaram o Império Russo chamado União Soviética. Não é para repetir o desempenho.

Putin conseguiu devolver verdadeiro poder ao Kremlin?

O Kremlin manda na Rússia. E Putin manda no Kremlin.

Acha possível a democracia de tipo liberal triunfar um dia na Rússia?

É muito improvável.

Com Donald Trump na Casa Branca a partir de 20 de janeiro, é possível uma aliança Estados Unidos-Rússia? O mundo está melhor sem a União Soviética?

Sim e não. Sim porque um sistema de repressão e de conquista externa desapareceu. E não, porque a previsibilidade é algo que pertence ao passado. A Rússia perdeu um império e ainda não encontrou um papel para desempenhar. A bipolaridade desapareceu.

Concorda quando se diz que Putin tem como projeto destruir a União Europeia?

Putin certamente não perdoou o alargamento da NATO. Destruir a NATO (e dessa forma expulsar os Estados Unidos da Europa continental, com grande ajuda do futuro presidente americano) foi sempre um objetivo supremo. A União Europeia, na visão de Putin, é menos importante na balança de forças mas em termos de soft power é um fator formidável. Ajudar a destruir a União Europeia é certamente parte da sua grande estratégia - mas será realmente isso do interesse da Rússia? Reativaria a oposição americana, entregaria a chave da dominação europeia à Alemanha e não ajudaria a reformar o pobre estado em que se encontra a economia russa.

Está a Rússia condenada a depender dos rendimentos petrolíferos ou é possível uma verdadeira modernização da indústria produtiva?

Tudo depende, certamente no futuro previsível, do preço do petróleo (e do gás): esta é uma condicionante da Rússia como admitido pelo próprio Putin não há muito. Se as sanções continuarem, a modernização da Rússia terá de vir do complexo militar-industrial - uma opção duvidosa. A Rússia precisa mais da Europa do que a Europa precisa da Rússia.

Qual é a gravidade do problema demográfico para a Rússia, especialmente para controlar a Sibéria contra eventuais ambições chinesas?

O fator demográfico é de importância vital - mesmo na visão de Putin para a Rússia. Vários fatores: o número de russos étnicos está em declínio, o número de muçulmanos cresce (hoje são 20 a 25% da população geral). O estado da educação, em tempos um dos orgulhos da União Soviética, é pobre. As casas prometidas às famílias jovens por Dmitri Medvedev nunca se materializaram. A dependência das drogas é uma grande preocupação, provocando centenas de milhares de vítimas a cada ano. O vodka continua a ser o grande ajudante do ceifeiro da morte. Os vastos espaços vazios da Sibéria Oriental são uma fonte de preocupação para qualquer líder russo: e isto apesar das tentativas de apaziguamento de Putin. Todas as riquezas e a falta de gente estão no lado russo da fronteira, toda a gente e a falta de riquezas estão no lado chinês: muito desconfortável.

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